Carmen Rodrigues Tatsch
Este trabalho resulta de uma questão que surgiu no decorrer do Cartel L’Insu que sait de l’une bévue s’aile a mourre. No momento estamos passando por um processo de dissolução deste que se iniciou com a saída de um participante que era presente/ausente, quer dizer, embora inscrito no cartel raramente aparecia, mas avisava de sua ausência. Após algum tempo, não mais compareceu e despediu-se com uma mensagem pelo watsapp.
A experiência que vivemos neste cartel instigou-me a escrever a respeito de duas questões: uma, sobre o processo deste; outra abordando a lógica que atravessa o Seminário l’Insu que sait de l’une bévue s’aile a mourre.
Quanto à primeira questão, em “A função dos Cartéis”, in: Documentos para uma Escola, Ano 1, nro 0, Mustafá Safouan comenta que o “mais um” é uma função que não tem nenhum equivalente social a que possa se referir. E Daniel Sibony diz que há no “mais um” a função de resto. O “Um” seria o resto, estaria abandonado, o mais próximo possível do ponto pelo qual o real vai insinuar-se no grupo. Lacan comenta : é justamente disto que se trata. De que cada um imagine ser responsável pelo grupo, tem que responder como tal… aquilo que faz o nó borromeano está submetido à condição de que cada um seja efetivamente, e não só imaginariamente, o que sustenta todo o grupo.
Creio que é esta função do “mais um” visto como um por um, que possibilita um giro, um movimento no cartel. Nos Documentos para uma Escola IV – O Que é a Escola?- há um escrito de Dalmara Marques Abla denominado Cartel, trabalho, formação, que relaciona uma poesia de João Cabral de Mello Neto “Uma bailadora sevilhana”, com o cartel .
Dançar flamenco é cada vez: é fazer, é um faz, nunca um fez.
Dalmara entende que, tal como o estribilho transcrito, o dispositivo do cartel é também cada vez ; é um faz, nunca um fez.
No decorrer do estudo de l’Insu buscamos entender que lógica atravessa este seminário. Lacan, em Encore, aponta para a lógica que o sustenta: é a modal.
Ao pesquisar sobre a Lógica Modal, vimos que esta tem sido estudada desde o início do século XX. Sua formalização deu-se com Lewis, em 1918. Na forma como a conhecemos hoje, foi concebida por Gödel, em 1933, por extensão modular da lógica proposicional clássica.
Conceitualmente podemos dizer que a lógica modal é o estudo do comportamento dedutivo de expressões que tratam de modos quanto ao tempo, possibilidade, probabilidade.
As proposições desta lógica podem ser classificadas como:
Necessárias – Proposições que necessariamente são verdadeiras ou falsas, ou seja, sua negação é impossível. “2+2 = 4”
Possíveis – Proposições que podem levar a uma ocorrência, ou seja, ela não é necessariamente falsa. “Pode estar chovendo em Natal agora”
Contingentes – Proposições que podem ser ou não verdades. “Sócrates era um filósofo”
Impossíveis – Proposições que marcam a impossibilidade de um acontecimento. “Uma pedra tem emoções”
Realizaremos algumas pontuações sobre trechos pinçados de escritos de Lacan e outros autores, que se relacionam com esta lógica.
No início do seminário 24, Lacan comenta que “L’insu que sait faz blá-blá-blá, isso equivoca”. E o título do seminário traz outras equivocações. Maria da Penha Simões, em seu texto “Um título em Anfiguri para um seminário acerca de “l’une bevue”, trabalha bem estas polifonias. A autora irá mencionar l’insu que sait, que pode ser traduzido como o não sabido, mas que soa como insuccès ( insucesso). Une bévue é entendido como equivocação, mas tem a sonoridade de Unbewusst ( o inconsciente). S’aile a mourre – mourre é um jogo popular, chamado no Brasil de “porrinha’, mas que pode ouvir-se como c’èst l’amour (é o amor).
A lógica modal classifica as proposições como necessárias, possíveis, contingentes, impossíveis. Lacan irá trabalhar estas de um modo singular.
Em Encore, ele irá associar estas categorias segundo se escrevem ou não, e se cessam ou não de escrever-se. À categoria do Necessário, Lacan irá relacionar o Sintoma; à do impossível, a “não há relação sexual”; ao possível, a equivocação (Unbewüst- inconsciente); ao contingente, o amor.
Lacan, em l’Insu, diz que L’une bévue, isto quer dizer um tropeço, uma vacilação, um deslizamento de palavra a palavra..Ao associar l’une bévue ao som de inconsciente, aponta para o sonho, o ato falho e o chiste como equívocos. O que se diz a partir do inconsciente participa do equívoco que está no chiste, equivalência do som e do sentido.Daí poder anunciar que o inconsciente está estruturado ‘como” uma linguagem. Na estrutura do inconsciente deve-se eliminar a gramática, mas não se deve eliminar a lógica. No frances há gramática demais. É preciso que a gramática esteja implícita para poder ter seu justo peso.
Ao estabelecer pontos de aproximação e de oposição entre as categorias modais e os modos de inscrição, Lacan realizará articulações que indicam as relações entre eles. Em Encore, ele afirma que “O necessário é o que “não cessa de se escrever.” O que ”não cessa de não se escrever”, é uma categoria modal que se opõe ao contingente. O necessário está conjugado ao impossível e esse “não cessa de não se escrever é sua articulação. O necessário, na medida em que ele “não cessa de se escrever”, é que, o que se produz é o gozo, que não seria possível, não faltaria. É esse o correlato de que não há relação sexual. E é o substancial da função fálica“.
Em outro ponto deste seminário Lacan continua: “É nesse “cessa de não se escrever” que reside a ponta do que chamei a contingência. A contingência, se, ela se opõe ao impossível, é na medida em que o necessário é o que “não cessa de se escrever”. Ora está bem aí a necessidade, a que nos leva a análise da referência ao falo. O “não cessa de não se escrever”é o impossível, que não pode se escrever em caso algum. É nisso que eu designo o que é da relação sexual. A necessidade da função fálica é que é, enquanto modo do contingente que o “não cessa de se escrever deve se escrever, cessando de “não se escrever”É como contingência na qual se resume tudo o que se refere ao que , para nós, submete a relação sexual a não ser, para o ser falante, senão o regime do encontro fortuito. É neste sentido que se pode dizer que o falo “cessou de não se escrever”. Ele não entrou no “não cessa”, no campo do qual dependem a necessidade e a impossibilidade”.
“O deslocamento dessa negação, a passagem de “cessa de não se escrever” ao “não cessa de se escrever”, a necessidade substituindo essa contingência, está bem aí o ponto de suspensão ao qual se apega o amor. Todo amor, por só subsistir pelo “cessar de não se escrever”, tende a fazer passar esta negação ao “não cessa, não cessará de se escrever” E é esse efetivamente o substituto que, pela via da existência – não da relação sexual, mas do inconsciente, que dela difere – por esta via faz o destino e também o drama do amor.”
Além dos seminários de Lacan citados, a leitura dos escritos de outros autores deram uma maior compreensão sobre as questões que o seminário levantou.
Délia Elmer, em RSI, faz uma leitura da lógica modal de Lacan e a escreve como segue abaixo:
NECESSÁRIO IMPOSSÍVEL
Não cessa de escrever-se Não cessa de não escrever-se
Sintoma A relação sexual
POSSÍVEL CONTINGENTE
Cessa de escrever-se Cessa de não escrever-se
Equivocação ( Unbewuste) Amor
Diana Rabinovich, em Sexualidade e Significante, diz que “a escritura “não há relação sexual” deve ser entendida no contexto da lógica modal. A relação sexual é impossível de escrever porque o significante A mulher não existe. Existe o falo como significante do gozo, que permite inscrever a todo ser falante como respondendo à função fálica.
Segundo esta autora, a condição da lalangue é lógica. O não-todo é comum à lalange e ao significante da sexuação feminina ,A / mulher barrada. O A/ cruzado pela barra sigfica a inexistência , a impossibilidade de um universal de A mulher. S ( A/) marca o impossível do todo a nível do universo do discurso. Esta negação do universal é consequência do axioma de Lacan : não há Outro do Outro, não há metalinguagem. Esta formulação é inseparável do axioma “não há relação sexual”, que surge como ordenando a estrutura do inconsciente.
Nilza Ericson, em seu livro “Economia de gozo e final de análise”, diz que o Teorema de Gödel chega ao não demonstrável, nem refutável, mas que escreve um indecidível. A fórmula que traz na sua estrutura “Eu não sou demonstrável”, diz “Não há relação sexual”. Há alguma coisa que resiste como real, que não é demonstrável, que não é passível de ser escrito ou todo apreendido pelo simbólico… Falta algo ao saber que é da estrutura. Mas é algo que vai propiciar uma invenção. Invente uma forma singular… A invenção singular da resposta de cada um não é outra coisa senão a escrita do real da estrutura.
Delia Elmer, em RSI, diz que “homem e mulher são significantes, nem o inconsciente se reconhece como homem, ou como mulher, é uma questão de inscrição. Não há dois sexos, nem um só sexo, há um e um. Não são adicionáveis, não são opostos, não são complementares, são heterogêneos”.
Nilza Ericson entende que o que faz obstáculo à suposta relação sexual é o falo e o que ele faz limite e que ele limita ao mesmo tempo. O falo sustenta o limite do simbólico. Entre o homem e a mulher, entre um lado e outro, o falo faz obstáculo, impede que haja um encontro que faça de dois, um.
Delia Elmer menciona que não há relação sexual, uma das maneiras de dizê-lo é que não se pode gozar do corpo do Outro, daí a angústia. O que é da relação sexual é estritamente impossível de escrever xRy. Não há elaboração logicizável e ao mesmo tempo matematizável da relação sexual.
Em seu texto, Sinthoma e escritura, Eduardo Vidal entende que o sintoma foi introduzido como substituição de uma satisfação malograda. O sentido do sintoma toca o Real. O sintoma é escritura; ele efetiva a repetição da letra no inconsciente, que não cessa de escrever…o impossível da relação sexual.
A relação sexual é da ordem do impossível e o falo ali é contingência, que reduz o que é do sexual no ser falante ao regime do encontro.
Eduardo Vidal entende que conhecer seu sintoma é a forma de saber fazer com. Não é um saber mas um ato que tem alguma ressonância com o modo com que cada um se vira com a sua imagem, na medida que ela faz o corpo, habituando-se a suportar a estranheza própria à irrupção do Real.
Delia Elmer afirma que Lacan define uma mulher como sintoma do homem. O que não cessa de escrever-se deve passar antes pelo cesse de não escrever-se, que dizer, o amor. O amor é precioso, raramente realizado e dura só um tempo. O amor faz suplência à não relação sexual, fazendo desde o imaginário que cesse de não escrever-se, porém este não faz báscula e reaparece no não cessa de escrever-se, isto é, o sintoma. Lacan diz que para que não cesse de escrever-se é preciso que antes tenha cessado de escrever-se. Devemos entender que, para que uma mulher seja sintoma do homem, deve intervir aí o amor.
Para Diana Rabinovich, o axioma que marca o impossível, quer dizer, o real da sexualidade, culmina em uma logificação quantificacional da sexualidade e a redefinição da estrutura de linguagem do inconsciente como lalangue
Ao finalizar estas pontuações, ficam algumas questões que continuarão a ser pesquisadas. Uma delas é a dos movimentos que se realizam, na escrita de Lacan, entre os significantes mencionados. Nesta, o Impossível se opõe ao Contingente; e o Necessário está conjugado ao Impossível. Esta posição dos significantes que se opõem teria relação com o cessar e o não cessar ? E os que se conjugam, estariam ligados ao ato de ambos não cessarem? De se escrever ou não. E como os movimentos entre os significantes desta escrita de Lacan se articulam com a clinica?