QUANDO SAÍMOS DE NOSSO EIXO?
Resolvi conversar com você sobre este tema porque estamos passando por um momento em que às vezes, sem nos darmos conta, nos vemos envolvidos em situações de vida em que perdemos nosso bom senso, nosso brio, nossa capacidade de uma compreensão mais distanciada do que está acontecendo. Não conseguimos nos colocar no lugar do outro. Nos vemos envolvidos em um turbilhão de emoções que nos tiram do nosso eixo. E podemos vir a machucar e, consequentemente, virmos a ser machucados por pessoas a quem queremos bem e que nos amam muito.
Acho que é importante incentivar o encontro entre pessoas que desejam expressar seus pensamentos, sentimentos, trocar idéias, ouvir o que o outro tem a dizer; poder respeitar um ponto de vista, mesmo que seja diferente do seu; bem como cultivar o entendimento, apesar de não identificar-se com tudo o que os que nos cercam são, pensam ou querem.
Atualmente há uma polaridade que atravessa os mais diversos grupos sociais. Nestes, há um modo de mobilização que cega os olhos e ensurdece os ouvidos. Aí a alteridade é vivida como uma ameaça.
Ao abordar estas questões, Freud irá falar em narcisismo das pequenas diferenças. Os homens fundamentam os sentimentos de estranheza e hostilidade entre eles em suas pequenas diferenças, apesar de sua semelhança em todo o resto.
A ligação social é estabelecida principalmente pela identificação dos membros entre si. Há a expressão de um amor a si próprio, um narcisismo que se empenha na afirmação de si.
Sempre é possível ligar um grande número de pessoas pelo amor, desde que restem outras para que se exteriorize a agressividade.
A hostilidade se apega à pequena diferença. Esta pequena diferença é um mero pretexto para o exercício da destrutividade. A unidade só se forma e se mantém quando há um outro a quem se destina esse impulso agressivo.
A intolerância desaparece, por meio da formação da massa e dentro da massa. Nesta os indivíduos se conduzem como se fossem homogêneos, suportam a especificidade do outro, igualam-se a ele e não sentem repulsa por ele. Os integrantes de uma massa supõem-se todos irmãos indiferenciados, como se tivessem a mesma forma, uni-form-izados
A massa, identificada a um líder, vincula-se a um modo de operar: “eles se diferem de nós, mas não diferem entre si”. Ou seja, o narcisismo das pequenas diferenças cria uma heterogeneidade intergrupal e, ao mesmo tempo, uma homogeneidade intragrupal.
Este texto de Freud tem sido aplicado a diversos momentos da história. Ele é extremamente atual no Brasil de hoje.
Em contraposição ao discurso reduzido do “nós”contra “eles”, sustentar uma conversação que considere a singularidade de cada um, uma ética que leve em conta o desejo dos sujeitos é uma direção interessante a ser seguida.
Obrigada por me ouvir. Se quiser saber mais sobre meu trabalho visite meu site carmen.psc.br Até breve.