Joyce e psicanálise
Joyce revolucionou a literatura. Ele, desde menino, destacou-se nos estudos. Sua família previa grande futuro, ele era tratado com deferência, tinha prestígio na escola. Era extremamente católico. Quando declinou sua fé no catolicismo, veio a substituir esta pela escrita.
Lacan diz que o catolicismo e a escrita, a literatura, funcionaram como consistência, como ancoragem para Joyce.
Lacan apresenta uma nova concepção de sintoma – o Sinthome- Saint Homme (Santo Homem) e o enraíza no real, na conjunção entre letra e gozo. O Sinthome como escrita de gozo.
Joyce, com sua escrita enigmática, presentifica a carência paterna. Em sua obra ele renega o pai, mas permanece enraizado nele.
Para Lacan, seu sintoma é elevado à potência de gozo da linguagem.
A escrita em Joyce terá a função de suprir um desnodamento do nó. Sua linguagem segmenta frases, quebra palavras, se compõe e se decompõe, produzindo neologismos.
Esta escrita é o que há de mais próximo ao lapso. E é a título de lapso que isso pode ser lido de uma infinidade de modos diferentes.
Em Um retrato, ele disse que “havia diferentes tipos de dor para todos os diferentes tipos de som”.
Joyce vai triturar a palavra tirando dela mais o que se ouve, do que o que se lê. As palavras soam com ressonâncias variadas, em uma dimensão de puro equívoco.
Diz-se que sua alegria se expressava ao escrever. Ali manifestava seu gozo, fazendo da letra (letter) lixo (litter).
Lacan comenta que Joyce era o signo do seu embaraço.
Joyce escreve poemas em forma de prosa que denominou Epifania. E a define como uma súbita revelação da essência de uma coisa. Como uma súbita manifestação espiritual, momento em que a alma do mais comum dos objetos …nos parece radiante.
As mais eloqüentes epifanias, às vezes, são momentos investidos de paixão; outras retratam o acesso a uma súbita alegria.
As epifanias eram escritas em papel de rascunho, que Joyce pegava nas bibliotecas e carregava sempre no bolso.
Nesta Roda de Conversa teremos como convidados Os Leitores. Júlio Mafra e Regina Guariglia lerão trechos selecionados da obra de Joyce.
JOYCE E LACAN: algumas notas sobre escrita e psicanálise
Doris Rinald
1 Psicanalista, membro de Intersecção Psicanalítica do Brasil, professora adjunta do programa de Pósgraduação em Psicanálise do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).