Mulher e gozo místico

Mulher e gozo místico

Carmen Rodrigues Tatsch

 

Com o advento da pandemia, após o susto, reiniciamos os seminários e cartéis. Não sabíamos como estes iriam ocorrer. O novo percurso se deu com vigor e entusiasmo, com debates instigantes. Um dos cartéis, o l’Insu, veio a dissolver-se. Foi um processo de resolução muito rápido e contou com a adesão de todos os participantes. Algo ali caiu, dando lugar para que outros processos possam vir a constituir-se.

Fui causada a apresentar o trabalho Mulher e gozo místico a partir das interlocuções surgidas no cartel Encore e nos seminários de Nilza Ericson e de Nestor Vaz.

No estudo das fórmulas da sexuação, aguçou-me a escuta sobre a posição da mulher. Lacan irá abordar esta pela via da lógica. O gozo infinito, o gozo do lado da mulher é suplementar á função fálica. Desse gozo a mulher nada sabe, a não ser que o experimenta.

Lacan vai trabalhar com diferentes lógicas ao escrever sobre as fórmulas da sexuação. Nilza Ericson, em seu livro Economia de Gozo e Final de Análise, ao discorrer sobre o Teorema de Gödel e a questão da incompletude, comenta que esta fórmula é uma escritura, não é demonstrável e diz que não há relação sexual.

Segundo Nélida Halfon, em El nombre de La falta, em Encore, Lacan ao abordar as fórmulas da sexuação estabelece quatro lugares  inter-independentes que têm uma rotação que indica a lógica em que se constituiram.

Neste seminário, Lacan reinterpreta o conceito de compacidade.  Vappereau apresenta a compacidade como uma noção da topologia geral. Nesta concepção, um espaço é aberto, ou fechado, conforme ele contenha ou não seus limites. Na reta real R, há o espaço fechado [ 0,1] enquanto que o espaço aberto  ]0,1[ não os compreende.

Lacan cita o paradoxo de Zênon ao abordar a questão da compacidade. Este paradoxo é ilustrado pelo argumento de Aquiles e da tartaruga. A tartaruga, assim como Aquiles, não chegará nunca ao limite. Aquiles só pode ultrapassar a tartaruga, ele não pode alcançá-la, ele só a alcança na infinitude.

Se tomarmos duas retas paralelas que se encontram num ponto no horizonte, este ponto é finito, aparece como um limite, mas ele supõe ali uma infinitude. Pode-se fazer uma divisão infinita entre o zero e o um.  Então, é um paradoxo porque é um ponto no qual nunca se chega.

Para Lacan, “nada mais compacto do que uma falha… se está dado que a intersecção de tudo o que aí se fecha sendo admitida como existente, num número finito de conjuntos, disso resulta, é uma hipótese, que a intersecção passa do finito ao infinito. Isso é a própria definição da compacidade.”

Questões surgidas no seminário de Nestor Vaz levaram-se a indagar sobre o transfinito, tal como Cantor aborda. Lacan irá relacionar este conceito ao lugar do homem entre os números inteiros e o da mulher entre os números reais, que são transfinitos. O homem faz conjunto, mas não se pode fazer o conjunto de uma mulher.

O feminino está no intervalo entre 0 e 1. Neste intervalo nunca se chega a zero e nunca se chega a um. Entre um número e outro sempre há mais um.

Nas fórmulas da sexuação, no lado do homem, o existe um X que diz não é o que sustenta o universal.  É o limite, é a função de borda, é o envolvimento pelo Um que permite que um conjunto se afirme com relação à castração.

Na mulher nada vem dizer não, nada vem negar a função fálica. Ela se situa em relação a outra coisa. Com relação à função fálica, a mulher só pode se inscrever como ‘não toda”.  O gozo do lado da mulher é suplementar á função fálica. O singular, o não-todo, o contingente permite infinitas versões do gozo feminino, do  gozo para além do falo.

Lacan comenta que há algumas mulheres, na maioria das vezes, ou pessoas de talento como São João da Cruz, que são chamados de místicos. Ele fala de Teresa de Jesus que dá o testemunho de sua relação com Deus. E considera esta experiência como exemplo de uma forma particular de gozo, o gozo místico.

O gozo dos místicos é algo que se experimenta e do qual nada se sabe. Lacan pergunta: “Será algo a caminho da ex-sistência? Poderíamos falar em uma face do Outro, a face de Deus como sustentada pelo gozo feminino”?  E comenta: Eu creio em Deus. Eu creio no gozo d’%, na medida em que ela é “a mais”.

Clara de Góes, em seu texto A escrita do corpo no Livro da Vida, diz que na escrita de Teresa d’Ávila se faz um corte entre gozo e corpo. Enquanto o corpo é sublevado, a alma é transportada a graus cada vez mais arrebatados de um gozo indizível.

Ela assim comunica suas experiências místicas: “Muitas vezes meu corpo me parecia ter ficado leve ao ponto de não ter mais peso… Quando o arrebatamento está em seu ponto culminante, em que as forças são suspensas, devido à sua íntima união com Deus, então não se vê, não se sente, não se ouve mais…nenhuma força tem o sentimento de si mesma, nem sabe o que se passa ali.

Para Lacan, o gozo é sentido pelo corpo, e neste real ele permanece inefável e indizível. Isto também caracteriza a experiência dos místicos.

No Seminário da Ética da Psicanálise, pg. 314, Lacan diz que em Fedra os amantes agenciam seu amor segundo a epopsi, ou seja, a iniciação da qual participam. Ele relaciona este tipo de iniciação, onde ocorrem cerimônias durante as quais se produzem fenômenos de transe e possessão, com aqueles que ocorrem no Brasil, em que um ser divino se manifesta.

Para Platão, aqueles que tiveram a iniciação de Zeus não reagem no amor como aqueles que tiveram a iniciação de Ares. Lacan relaciona este fenômeno com aquele que ocorre no Brasil para designar tal espírito da terra, ou da guerra.

Uma questão que surge é: Pode-se dizer que o transe no candomblé é uma das expressões do gozo místico?

As experiências vividas nos ritos de iniciação do candomblé podem ser entendidas como uma passagem para a inserção em uma cultura, para a inclusão em códigos e em laços sociais.

Em um texto que escrevi em 1997, intitulado Os Nomes do Pai e o Ritos de Iniciação, publicado na revista Do Pai, o limite em psicanálise, abordei o rito de iniciação no sentido de entrada na cultura. Isto implica passar pela castração, oferecer um limite ao gozo a mais. Freud irá falar dos ritos de iniciação no prefácio do livro O Ritual – psicanálise dos ritos religiosos, de T.Reik. Ele diz que as formas religiosas ulteriores ao totemismo procuram apagar os traços da morte do pai e repetem esta mesma negação do pai.

Outro modo de conceber o êxtase vivido nestes ritos é pela via do gozo místico. Este gozo está do lado da mulher. Mas Lacan diz que não se é obrigado, quando se é macho, a se colocar do lado ∀X. ФX. Os machos podem colocar-se do lado do “não todo” e experimentar a idéia de que em algum lugar poderia haver um gozo que estivesse além. No transe do candomblé, há uma feminilização, o gozo é ‘não todo”.

Em “Mal-estar na cultura”, Freud irá tratar das experiências extáticas como um ”sentimento oceânico”.  Marlos Gonçalves Terêncio, em sua dissertação “Um percurso psicanalítico pela Mística, de Freud a Lacan” refere-se à correspondência entre Freud e Rolland, onde os autores tratam do tema. Eles debatem sobre os místicos Ramakrishna e Vivekananda e relacionam os fenômenos por eles experimentados ao “sentimento oceânico”.

Recentemente vi um vídeo de um guru indiano, Atma Nambi, que assim relatou o que ele considera sua iluminação: eu estava meditando e de repente senti a consciência ir para fora, perdi os 5 sentidos. A percepção externa sumiu. Eu era só um observador. Então comecei a ser pressurizado, é como se várias pessoas me batessem com barras de ferro, sentia muita dor. E tudo era decidido por Ele, eu não podia fazer nada. Houve uma explosão de raios, foi como uma bomba atômica explodindo dentro de mim. E veio uma paz enorme. Tudo era amor.

Este relato tem muitos pontos em comum com os das experiências místicas vivenciadas por católicos, tais como, Teresa D’Ávila e outros. Em ambos há a vivência de gozo e de dor, de que são tomados por uma força exterior que os governa.   A mística em êxtase perde todas as referências, há o apagamento do corpo. Mas esta permanece amarrada no mundo da linguagem, fazendo laço social.

 

Bibliografia

 

ERICSON, N., Economia de Gozo e Final de Análise, Rio de Janeiro, Ed. 7 Letras,

2015.

GÓES, C. Revista A Prática da Letra – A escrita do corpo no Livro da Vida. Rio de Janeiro : Escola Letra Freudiana, 2000.

HALFON, N. En el nombre de la falta. Buenos Aires : Letra Viva, 2001.

LACAN, J., Encore, Rio de Janeiro, Escola Letra Freudiana, 2010.

________, A Ética da Psicanálise, Rio de janeiro, Ed. Zahar, 1988.

TATSCH,C., Os Nomes do Pai e os Ritos de Iniciação, in DO PAI , O Limite em Psicanálise,Revista Letra Freudiana, Ano XVI, nro 21, Rio de Janeiro, Ed. Revinter, 1997.

VAZ, N., interlocução e anotações do Seminário Do Matema à Clinica, Escola Letra Freudiana, Rio de Janeiro, 2020.