Mulher e gozo místico

Mulher e gozo místico

Carmen Rodrigues Tatsch

 

Com o advento da pandemia, após o susto, reiniciamos os seminários e cartéis. Não sabíamos como estes iriam ocorrer. O novo percurso se deu com vigor e entusiasmo, com debates instigantes. Um dos cartéis, o l’Insu, veio a dissolver-se. Foi um processo de resolução muito rápido e contou com a adesão de todos os participantes. Algo ali caiu, dando lugar para que outros processos possam vir a constituir-se.

Fui causada a apresentar o trabalho Mulher e gozo místico a partir das interlocuções surgidas no cartel Encore e nos seminários de Nilza Ericson e de Nestor Vaz.

No estudo das fórmulas da sexuação, aguçou-me a escuta sobre a posição da mulher. Lacan irá abordar esta pela via da lógica. O gozo infinito, o gozo do lado da mulher é suplementar á função fálica. Desse gozo a mulher nada sabe, a não ser que o experimenta.

Lacan vai trabalhar com diferentes lógicas ao escrever sobre as fórmulas da sexuação. Nilza Ericson, em seu livro Economia de Gozo e Final de Análise, ao discorrer sobre o Teorema de Gödel e a questão da incompletude, comenta que esta fórmula é uma escritura, não é demonstrável e diz que não há relação sexual.

Segundo Nélida Halfon, em El nombre de La falta, em Encore, Lacan ao abordar as fórmulas da sexuação estabelece quatro lugares  inter-independentes que têm uma rotação que indica a lógica em que se constituiram.

Neste seminário, Lacan reinterpreta o conceito de compacidade.  Vappereau apresenta a compacidade como uma noção da topologia geral. Nesta concepção, um espaço é aberto, ou fechado, conforme ele contenha ou não seus limites. Na reta real R, há o espaço fechado [ 0,1] enquanto que o espaço aberto  ]0,1[ não os compreende.

Lacan cita o paradoxo de Zênon ao abordar a questão da compacidade. Este paradoxo é ilustrado pelo argumento de Aquiles e da tartaruga. A tartaruga, assim como Aquiles, não chegará nunca ao limite. Aquiles só pode ultrapassar a tartaruga, ele não pode alcançá-la, ele só a alcança na infinitude.

Se tomarmos duas retas paralelas que se encontram num ponto no horizonte, este ponto é finito, aparece como um limite, mas ele supõe ali uma infinitude. Pode-se fazer uma divisão infinita entre o zero e o um.  Então, é um paradoxo porque é um ponto no qual nunca se chega.

Para Lacan, “nada mais compacto do que uma falha… se está dado que a intersecção de tudo o que aí se fecha sendo admitida como existente, num número finito de conjuntos, disso resulta, é uma hipótese, que a intersecção passa do finito ao infinito. Isso é a própria definição da compacidade.”

Questões surgidas no seminário de Nestor Vaz levaram-se a indagar sobre o transfinito, tal como Cantor aborda. Lacan irá relacionar este conceito ao lugar do homem entre os números inteiros e o da mulher entre os números reais, que são transfinitos. O homem faz conjunto, mas não se pode fazer o conjunto de uma mulher.

O feminino está no intervalo entre 0 e 1. Neste intervalo nunca se chega a zero e nunca se chega a um. Entre um número e outro sempre há mais um.

Nas fórmulas da sexuação, no lado do homem, o existe um X que diz não é o que sustenta o universal.  É o limite, é a função de borda, é o envolvimento pelo Um que permite que um conjunto se afirme com relação à castração.

Na mulher nada vem dizer não, nada vem negar a função fálica. Ela se situa em relação a outra coisa. Com relação à função fálica, a mulher só pode se inscrever como ‘não toda”.  O gozo do lado da mulher é suplementar á função fálica. O singular, o não-todo, o contingente permite infinitas versões do gozo feminino, do  gozo para além do falo.

Lacan comenta que há algumas mulheres, na maioria das vezes, ou pessoas de talento como São João da Cruz, que são chamados de místicos. Ele fala de Teresa de Jesus que dá o testemunho de sua relação com Deus. E considera esta experiência como exemplo de uma forma particular de gozo, o gozo místico.

O gozo dos místicos é algo que se experimenta e do qual nada se sabe. Lacan pergunta: “Será algo a caminho da ex-sistência? Poderíamos falar em uma face do Outro, a face de Deus como sustentada pelo gozo feminino”?  E comenta: Eu creio em Deus. Eu creio no gozo d’%, na medida em que ela é “a mais”.

Clara de Góes, em seu texto A escrita do corpo no Livro da Vida, diz que na escrita de Teresa d’Ávila se faz um corte entre gozo e corpo. Enquanto o corpo é sublevado, a alma é transportada a graus cada vez mais arrebatados de um gozo indizível.

Ela assim comunica suas experiências místicas: “Muitas vezes meu corpo me parecia ter ficado leve ao ponto de não ter mais peso… Quando o arrebatamento está em seu ponto culminante, em que as forças são suspensas, devido à sua íntima união com Deus, então não se vê, não se sente, não se ouve mais…nenhuma força tem o sentimento de si mesma, nem sabe o que se passa ali.

Para Lacan, o gozo é sentido pelo corpo, e neste real ele permanece inefável e indizível. Isto também caracteriza a experiência dos místicos.

No Seminário da Ética da Psicanálise, pg. 314, Lacan diz que em Fedra os amantes agenciam seu amor segundo a epopsi, ou seja, a iniciação da qual participam. Ele relaciona este tipo de iniciação, onde ocorrem cerimônias durante as quais se produzem fenômenos de transe e possessão, com aqueles que ocorrem no Brasil, em que um ser divino se manifesta.

Para Platão, aqueles que tiveram a iniciação de Zeus não reagem no amor como aqueles que tiveram a iniciação de Ares. Lacan relaciona este fenômeno com aquele que ocorre no Brasil para designar tal espírito da terra, ou da guerra.

Uma questão que surge é: Pode-se dizer que o transe no candomblé é uma das expressões do gozo místico?

As experiências vividas nos ritos de iniciação do candomblé podem ser entendidas como uma passagem para a inserção em uma cultura, para a inclusão em códigos e em laços sociais.

Em um texto que escrevi em 1997, intitulado Os Nomes do Pai e o Ritos de Iniciação, publicado na revista Do Pai, o limite em psicanálise, abordei o rito de iniciação no sentido de entrada na cultura. Isto implica passar pela castração, oferecer um limite ao gozo a mais. Freud irá falar dos ritos de iniciação no prefácio do livro O Ritual – psicanálise dos ritos religiosos, de T.Reik. Ele diz que as formas religiosas ulteriores ao totemismo procuram apagar os traços da morte do pai e repetem esta mesma negação do pai.

Outro modo de conceber o êxtase vivido nestes ritos é pela via do gozo místico. Este gozo está do lado da mulher. Mas Lacan diz que não se é obrigado, quando se é macho, a se colocar do lado ∀X. ФX. Os machos podem colocar-se do lado do “não todo” e experimentar a idéia de que em algum lugar poderia haver um gozo que estivesse além. No transe do candomblé, há uma feminilização, o gozo é ‘não todo”.

Em “Mal-estar na cultura”, Freud irá tratar das experiências extáticas como um ”sentimento oceânico”.  Marlos Gonçalves Terêncio, em sua dissertação “Um percurso psicanalítico pela Mística, de Freud a Lacan” refere-se à correspondência entre Freud e Rolland, onde os autores tratam do tema. Eles debatem sobre os místicos Ramakrishna e Vivekananda e relacionam os fenômenos por eles experimentados ao “sentimento oceânico”.

Recentemente vi um vídeo de um guru indiano, Atma Nambi, que assim relatou o que ele considera sua iluminação: eu estava meditando e de repente senti a consciência ir para fora, perdi os 5 sentidos. A percepção externa sumiu. Eu era só um observador. Então comecei a ser pressurizado, é como se várias pessoas me batessem com barras de ferro, sentia muita dor. E tudo era decidido por Ele, eu não podia fazer nada. Houve uma explosão de raios, foi como uma bomba atômica explodindo dentro de mim. E veio uma paz enorme. Tudo era amor.

Este relato tem muitos pontos em comum com os das experiências místicas vivenciadas por católicos, tais como, Teresa D’Ávila e outros. Em ambos há a vivência de gozo e de dor, de que são tomados por uma força exterior que os governa.   A mística em êxtase perde todas as referências, há o apagamento do corpo. Mas esta permanece amarrada no mundo da linguagem, fazendo laço social.

 

Bibliografia

 

ERICSON, N., Economia de Gozo e Final de Análise, Rio de Janeiro, Ed. 7 Letras,

2015.

GÓES, C. Revista A Prática da Letra – A escrita do corpo no Livro da Vida. Rio de Janeiro : Escola Letra Freudiana, 2000.

HALFON, N. En el nombre de la falta. Buenos Aires : Letra Viva, 2001.

LACAN, J., Encore, Rio de Janeiro, Escola Letra Freudiana, 2010.

________, A Ética da Psicanálise, Rio de janeiro, Ed. Zahar, 1988.

TATSCH,C., Os Nomes do Pai e os Ritos de Iniciação, in DO PAI , O Limite em Psicanálise,Revista Letra Freudiana, Ano XVI, nro 21, Rio de Janeiro, Ed. Revinter, 1997.

VAZ, N., interlocução e anotações do Seminário Do Matema à Clinica, Escola Letra Freudiana, Rio de Janeiro, 2020.

 

 

 

Mal-estar e discursos em uma comunidade do Rio de Janeiro

O mal-estar faz parte da estrutura do sujeito e da cultura. Atravessa todas as relações. Mas há diversos modos de expressão em cada lugar onde se dá. Entre sujeitos que vivem em comunidades com situação sócio-econômico desfavorecida o mal-estar manifesta-se com características peculiares. 

Este texto é um recorte no trabalho de pesquisa desenvolvido, com as metodologias da pesquisa-ação e do teatro e do vídeo antropológicos, na comunidade do Vidigal, Rio de Janeiro. O projeto em questão efetuado entre 1993 e 1997 articulava-se ao Doutorado em Saúde Mental do Instituto de Psiquiatria da UFRJ.  

        Nesta tese realizamos uma leitura de discursos produzidos por sujeitos moradores desta comunidade. Para Lacan, há 4 discursos que escrevem os laços sociais. Nada adquire sentido senão a partir das relações de um discurso com outro discurso. O discurso ocupa uma posição giratória em relação a um suporte. O suporte é o corpo. E o gozo se dá corpo a corpo.

        No lugar estudado encontramos que um dos discursos que atravessa diversas instâncias é o Discurso do Mestre. Em …Ou Pior, Lacan ao falar sobre este discurso o associa ao outro que é tratado como objeto de gozo, ali os corpos estão petrificados,  aprisionados. A idéia imaginária do todo, do que faz esfera, tal como é utilizada na política, se faz aí presente.

Afloraram nos discursos dos sujeitos pesquisados a identificação com as expressões usadas pela mídia e pela política partidária. Mas estes discursos não eram uma cópia exata destes. Os diversos aspectos que surgiram: o ufanismo, a violência, o consumismo, a marginalidade, revelaram-se com características específicas. 

         Encontramos como um dos significantes dessa comunidade o discurso da luta do Bem contra o Mal. Ao entrevistarmos as lideranças das formas associativa, tais como a Associação de Moradores e algumas associações ali sediadas, quando perguntávamos sobre o objetivo da realização de suas atividades culturais e socializantes, a resposta sempre era que pretendiam livrar as crianças e adolescentes do mau caminho. 

        Ouvíamos sempre a preocupação destes com “o Bicho”, que é o modo como o tráfico de drogas é chamado ali. Os traficantes passam a ser associados com todas as situações de perigo e violência. Há um não dito sobre o nome do tráfico. E uma recusa a relacionar as diversas formas de violência do cotidiano às relações entre os eles.  

       Nas entrevistas havia muita dificuldade em encontrar alguém que comentasse explicitamente algo sobre a violência que permeava o lugar. Alguns antigos moradores comentaram que, do ponto de vista do conforto, a situação melhorou com o passar do tempo. Mas diziam que “o coração não agüenta tanta violência. Eu nunca vou achar normal as pessoas andarem de arma na mão, pessoas darem tiros na hora que quiserem…” 

        Estes relatos eram raros e se davam quando asseguravam-se que não havia “olheiros” por perto. O diretor cultural da Associação de Moradores era também jornalista e trabalhava com vídeo e passou a acompanhar-me pela comunidade e a realizar os registros. Mas nosso percurso era sempre acompanhado sorrateiramente por alguém com uma metralhadora. 

        Neste momento, lembrando que estamos na década de 90, as duas forças – a legal e a ilegal – conviviam através de uma delimitação de espaços onde uma não interferia no lugar ocupado pela outra. Um dos líderes da associação disse: “A Associação não tem meio, nem interesse de brigar com essa outra força. Ela faz questão de ignorar. Eles tem o comércio deles e a gente tem o problema social.”

Era uma época diferente da atual onde, com freqüência, traficantes, policiais, políticos e milicianos encontram-se em estreitas inter-relações.   

        Segundo um dos líderes, a contribuição que eles davam para resolver o problema social era “dando um exemplo bom para estas crianças. À medida que eu pego as crianças, para serem um jornaleiro-mirim comunitário, construo uma base melhor e eles estão ganhando algum dinheiro, tem uma ocupação. Quando eu faço aula de capoeira, além de trazer à tona a cultura popular, também faço com que tenham o nosso apoio. Assim como também o futebol é um espaço para não deixá-los ociosos, mostrar que tem um pessoa responsável por eles. Esse trabalho contribui bastante para que não haja violência. Essas crianças tem a mesma orientação, mostramos o que é errado, a disciplina está sempre em evidência.”

        Nas entrevistas com o vídeo, as lideranças estudadas auto – representavam-se como

forças do Bem, colocando todo o Mal do lado do ‘Bicho”. Mas o lugar do Bem e do Mal, da lei e da marginalidade não se dá tão rigidamente delimitado. Essa ficção é difícil de ser sustentada, ela tem por base uma lógica binária. A lógica binária não leva em conta o 3º excluído, ela é cega. Ela trabalha com o sim e o não, não abre possibilidade para o deslizamento, para a pergunta, trata os pólos opostos como naturais, congela a interpretação, impossibilita    dar movimento  às operações.

             Mas o que leva estes sujeitos a interpretarem esta situação de uma forma tão maniqueísta? Que outras versões são possíveis nesta situação? Foi com o objetivo de dialetizar este olhar que nos propusemos a realizar um Curso de Teatro e Vídeo, com um grupo de crianças e adolescentes, na Escola Djalma Maranhão.  

      Encontramos que no discurso das lideranças comunitárias, as posições de senhor e a de escravo, assim como as representações de Bem e de Mal são mais rígidas, mais estanques. Se, por um olhar, podemos perceber o discurso do mestre subjacente, segundo outro olhar, o mestre não está mais presente.

        Na sociedade contemporânea, a ciência aboliu o sujeito. Quando o mestre não está presente, o que permanece é o imperativo categórico: continua a saber ou, continua a gozar , a consumir .Não há mais necessidade que ali haja alguém, a figura do mestre como representante do saber está deteriorada. O jovem que tinha na figura do pai, do professor, o representante do saber quando estes não conseguem mais sustentar esta posição, vai identificar-se com algum outro modelo de Outro que sabe. Este Outro pode ser imaginarizado pela figura da Internet. Outro do saber passa a ser um outro que não responde, que não está encarnado, que não tem cheiro. A crise do jovem, do adolescente, é uma crise do pai. É preciso cair algo do lado do pai para que surja algo do lado do social, que venha ocupar o lugar do pai e cunhar o lugar de inscrição do sujeito

        No discurso das crianças que participaram do curso as posições do senhor, daquele que manda e do que é oprimido movimentavam-se aleatoriamente, deslizavam de um personagem para outro, numa mesma ação dramática. O que chama a atenção nos temas trazidos por este grupo é a presença constante da violência, do confronto direto e agressivo em todas as relações. Nas improvisações teatrais, o papel do policial em luta violenta com o traficante, podia passar a ser entre o pai e a mãe, ou entre mãe e filho, ou entre patrão e empregado, ou entre namorados, ou amigos. 

     Em nossa hipótese de trabalho, perguntamo-nos se os discursos locais são diretamente influenciados pelos globalizantes, tais como os da mídia e os da política partidária; ou se foi possível para os líderes encontrarem caminhos que os levassem à produção de significados novos.  

 Nos discursos encontrados percebemos que a imagem que os líderes pesquisados têm de si mesmos aproxima-se da imagem que a mídia, que a ciência fabrica sobre eles.        

.. .    Uma história fantasmática de pânico e opressão povoa o imaginário de toda a população e é atravessada pelo real avassalador Os moradores encontram-se oprimidos entre dois polos: de um lado, os traficantes e a polícia que aterrorizam , que dominam pelo poder da arma de fogo, da força bruta. Por outro lado, há o terror advindo dos mandamentos das igrejas, em especial as evangélicas: “se não obedeceres ao que te ordeno, queimarás no fogo do inferno”. Os moradores estão encapsulados entre dois terrores- o do roubo do corpo, da matéria e o do roubo da alma. Em ambas posições há um senhor violento.  

Ao analisarmos o processo atravessado pelas crianças durante a atividade teatral e realizarmos um recorte dos significantes mais encontrados no discurso produzido por estas percebemos que este é constituído pelos mesmos elementos do discurso do líderes, mas é absorvido e recriado com uma articulação diversa.  

          No discurso das crianças, há um movimento aleatório. A posição do senhor, que ora é associada ao policial, numa mesma dramatização pode passar a ser ocupada pelo marginal. O que chama a atenção nos temas trazidos por este grupo é a presença constante da violência, do confronto direto e agressivo.  

        Em uma das dramatizações, surgiu a seguinte cena: 

MENINA 2: Sua favelada!

MENINA 1: Favelada é você!

MENINA 2: O que? tá me chamando de favelada?

MENINA1: É favelada mesmo! 

MENINA 2: Você é uma favelada!

MENINA 1: Olha, aqui, eu vou rasgar a sua cara! Vai lá pegar o canivete pra ver como eu arranco a cara dela fora!

Esta cena representa um discurso ultra-reduzido, encontrado não só neste lugar, mas em outras esferas nacionais e internacionais. 

        Questionados sobre os temas escolhidos para as cenas, algumas crianças responderam:  

“…essas cenas , sempre teve aqui no morro..”

“Eu acho uma realidade. Hoje em dia tem esses caras que pegam as crianças para estrupar, matar, pegam as crianças para tirar os órgãos, tirar tudo e vender . .”

 “A gente informou isso tudo com essas coisas que tem aí fora, então pras pessoas verem na televisão que isso não é certo: prostituição, vagabundos, menino pequeninho cheirando maconha, craque e tudo isso. Então a gente escolheu isso que é mais importante para nosso país, pra gente melhorar o nosso país. “ 

        Outro aspecto que chamou a atenção nas entrevistas foi a crença de que após  terem feito o curso de teatro e recebido o diploma , eles podem ser alguém na vida. Ser alguém na vida para eles é: ser “uma pessoa melhor”, ou ser professora ou, ser atriz da Globo.

               Diante do terror vivido pelos moradores desta e de outras comunidades, da ausência do mestre, qual a saída?

                Freud, em O mal-estar na Cultura pergunta-se até que ponto a espécie humana, em seu desenvolvimento cultural, conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição. Ele espera que o eterno Eros desdobre suas forças para se afirmar na luta com seu não menos imortal adversário. 

        Nos dias atuais, mais do que nunca é preciso apostar nas forças de Eros, na afirmação da pulsão de vida. 

        Arte Pode ser uma direção para esta aposta?  

 

         Por viabilizar uma direção a um gozo mais delimitado, posto que circunscrito pelo simbólico; por encontrar-se dentro do princípio do prazer, realizando uma barra, um corte, ao gozo sem fim, a partir da criatividade, da ressignificação e do fortalecimento dos laços sociais entendemos que a arte pode ser um dos caminhos possíveis.

        Nos discursos encontrados no Vidigal, entendemos que, se por um lado há pessoas que estão inseridas neste discurso ultra-reduzido, há outras que conseguem encontrar um caminho que lhes possibilita a sublimação e a constituição de novos significantes.          Entrevistamos sujeitos que se expressam através do teatro, da escrita, da arte, da cultura do lugar, que conseguem uma produção cultural própria e produzem significantes particulares. 

        Em relação à pesquisa entendemos que os lideres comunitários estudados mantiveram sua posição congelada, sem deslizamento. Viam a equipe de pesquisa como representantes da ciência e se pronunciavam como se fossem políticos discursando para a televisão. 

        Quanto às crianças que participaram das atividades teatrais, constatamos que no discurso dessas não houve a produção de significantes novos, mas foi efetuado algum corte, permitindo um distanciamento e uma reflexão sobre suas questões e sobre as relações com a escola e a comunidade. Talvez tenha sido possível a algumas caminharem na construção de seu desejo.  

 

       

 

  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Becker, Paulo e Vidal, Eduardo , DROGA ( HÁ ) DITOS , inédito .

Castilho,Glória. Algumas Pontuações sobre a Culpa na Clínica com Usuários de Drogas, inédito.

Freda, Francisco Hugo – Quatre Remarques de Jacques Lacan a propos de : La Drogue,       L’Intoxication et la Toxicomanie. DEA – Université de Paris VII – Department de Psychanalyse. inédito

 Freud , Sigmund. Totem e Tabu  – Obras Completas, vol. XVII – R.J. Ed. Imago. 1965

______________Mal-estar na civilização. Obras Completas,  – R.J. Ed. Imago

Hegel,Georg Wilhelm Friedrich.La Phénomenologie de L`Esprit Paris:Montaigne.1941.

 

Hyppolite,Jean..Ensaios de Psicanálise e Filosofia. Ed. Taurus, Rio de Janeiro: 1971

Lacan,Jacques. Les Noms du Pére – Aleph Psicanálise Transmissão. 1963

_________Seminário 17,O Avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro, Ed. Zahar. 1992

_________Seminário 19 …Ou Pior. Rio de janeiro, Ed. Zahar. 2012.

________ La Agressividad en Psicoanálisis. Informe Teórico apresentado no XI Congresso dos Psicanalistas de Língua Francesa. Bruxelas. 1948

________O Mito Individual do Neurótico . Lisboa: Pelas Bandas da Psicanálise .1980

_______Radiofonia . Inédito .

Tatsch, Carmen R. Linguagem, Ritual e identificação. – Trabalho apresentado na Jornada Intercartéis – Letra Freudiana. 1995

________Os Nomes do Pai e os Ritos de Iniciação, in Do Pai – O Limite em Psicanálise , Revista  Letra Freudiana , Ano XVI , n. 21 .

_________.().Tecnologia Audio-Visual e Formas de Subjetivação.Monografia. Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1994

_________Formas Expressivas e Discursos de uma Comunidade Urbana do Rio de  Janeiro: Um Uso do Teatro e do Vídeo Antropológicos. Tese de doutorado, IPUB, UFRJ, RJ, 1997.

 

Reality Show O Show do Olhar

Comentando sobre os ¨ Dating Shows ¨ , um dos tipos de ¨ Reality Shows ¨, a host de um desses programas afirmou que ¨ o conteúdo dos mesmos deve ser a expressão do Fim da Civilização , tal como a conhecemos¨. A essa observação , replicou o jornalista James Poniewozik, na revista Time ( agosto , 12 , 2002 ): ¨ Ao contrário, esse desmedido impulso para obter fama instantânea , sexo quase instantâneo e, ao lado disso, um pouco de dinheiro, está de acordo com a civilização , tal como a conhecemos – e em plena florescência ¨.

 

Dating Shows¨, ¨Reality Shows¨ , podem ser classificados como espetáculos voyeurísticos – via mídia- desenvolvidos em espaços delimitados previamente – quando não confinados num recinto determinado- embora abertos ao olhar invisível de milhões de espectadores, inclusive o olhar televisivo do Big Brother , que tudo controla. Nesta área restrita, ainda que disponha de uma fresta por onde transitam os fluxos magnéticos da TV , vivem e convivem os personagens do show , dando curso às suas fantasias de aventura , de sexo, de exibicionismo. Nesse campo de ilusão , eles induzem o público a acreditar que ali se desafia e se transgride a Lei, sob o olhar cúmplice das testemunhas sentadas diante se seus aparelhos de TV. Imprescindível tal cumplicidade, ¨sem o que não existiria o campo da ilusão

 

Há algo de perverso nessas encenações , por meio das quais os atores e sobretudo o Big Brother acenam com a possibilidade de um gozo do qual ¨tem a confiança de ter, seja como for, o domínio¨ . Que gozo? O que advém da neutralização da angústia da castração simbólica quando os participantes – os que atuam e os que assistem- se identificam imaginariamente com o objeto primordial, objeto de plenitude, que encobriria a falta , imposta pela instituição da Lei simbólica .

 

Faz-se então uma cena , uma ¨nova Lei¨, a do gozo ¨ que ordena buscar esse gozo seja lá qual for o meio¨. Instala-se aí o reino do narcisismo , o sujeito identificando-se imaginariamente com o objeto , tornando-se ele próprio objeto, enquanto o desejo está lá fora .

 

Enfim, se dissimula , se escamoteia o confronto com a castração e a falta no outro . Interessa ao Big Brother que a massa embarque na fantasia da totalidade. E isso está plenamente de acordo com a época em que vivemos.
O frenesi pessoal e coletivo deste tipo de espetáculo, visa a uma espetacularização da vida cotidiana, onde vale tudo pelo gozo perante o espetáculo , pelos quinze minutos de celebridade que nos falava Andy Warhol. Não importa o sentido, a enunciação, a significação. Não é uma identificação com borda, delimitada por significantes. É o estímulo a um gozo sem fim .

 

Passando uma rápida vista pela Internet sobre este assunto , vemos anunciados os próximos espetáculos: Uma mulher ficará isolada, junto com 40 homens e escolherá aquele que lhe dará o esperma para uma fecundação artificial. Casais ficarão em uma ilha deserta e serão promovidos encontros individuais com pessoas solteiras, com corpo escultural , para testar a fidelidade de cada cônjuge. Haverá divulgação na mídia da imagem dos participantes como criminosos de alta periculosidade e estes terão que andar pela cidade sem serem reconhecidos. Ganhará aquele que chegar ao término do Reality Show sem ser apanhado como criminoso.

 

Neste tipo de identificação, tudo vira espetáculo , onde procura-se dar a impressão dos personagens estarem vivendo a realidade. Mas trata-se de uma ¨realidade¨ manipulada , selecionada , controlada. E o que é selecionado , recortado ? Aquelas cenas que apelam para a exacerbação da sexualidade, das psicopatologias, das fofocas, dos atritos, dos escândalos . Mas não é um recorte que leva à busca de uma significação: é o consumo pelo consumo , o espetáculo pelo espetáculo. E o espectador se fixa num processo identificatório alienado , colado ao outro .
Este tipo de espetáculo apropria-se das técnicas do cinema direto , mas para transformar os sujeitos envolvidos em objetos , em cobaias.

Mas qual o poder deste instrumento que é a televisão?

Temos estudado a questão da influência da mídia e dos processos de globalização na constituição dos sujeitos e se estes encontram meios de recriar os conteúdos assimilados. Interessa-nos entender como as “máquinas de visão” intervém na constituição das subjetividades , de que modo estas influenciam nos discursos enunciados. E como o ser olhado , “ser quadro” intensificam o discurso do “che vuoi”( o que queres de mim ?) .

 

Lacan aborda a questão do olhar na constituição do sujeito. Entre o indivíduo e o mundo estabelece-se uma primeira relação através do olhar. Ao nascer, o indivíduo é inserido através do olhar neste mundo. Ao indivíduo que olha pré-existe um olhar, o olhar do mundo. “Eu só vejo de um ponto, mas em minha existência sou olhado de toda parte”.

 

Trata-se de um olhar que , ao lhe dar existência, o subjetiva. O olhar que vê de todos os pontos o constitui como pertencente ao mundo, pertencente a “uma paisagem”. Ao ser englobado pela paisagem, estando nela inserido, o sujeito adquire existência. No campo escópico, o olhar está do lado de fora “sou olhado, quer dizer, sou um quadro”.

 

Como se dá a constituição do sujeito no mundo contemporâneo, pós- moderno, mediatizado pelas ¨máquinas de visão?

Segundo alguns psicanalistas, o mundo contemporâneo tende a abolir o sujeito. A pregação política e a mídia utilizam a idéia imaginária do todo, do universal ,do que faz esfera. O senhor da modernidade se afirma em uma verdade que se conceitua por sua igualdade a si mesma. Trata-se de uma cultura que se afirma pela Eu-cracia , por um Eu que é idêntico a si mesmo cujo mandamento é : continua a gozar , a consumir . O jovem , muitas vezes, passa a identificar-se com um Outro imaginarizado pela figura da Internet, por exemplo. O Outro do saber passa a ser um outro que não responde, que não está encarnado, que não tem cheiro .

 

Qual o lugar das tecnologias audio-visuais na cultura contemporânea?

Um dos autores que estuda as tecnologias áudio-visuais, entendendo-as estreitamente interrelacionadas com a complexidade social e a mudança cultural , é Massimo Canevacci . Em ” Antropologia da Comunicação Visual”, ele desenvolve a idéia de que a comunicação visual está extremamente vinculada com a cultura contemporânea inteira e corta o novo projeto de aculturação planetária. Segundo ele, (2, pg.11) “a abordagem antropológica da comunicação visual configura-se em dois níveis:

a) com o primeiro se entende o uso direto por parte do pesquisador das técnicas áudio-visuais para documentar e ou interpretar a realidade, seguindo a metodologia antropológico cultural;

b) com o segundo, a análise dos produtos da comunicação visual reprodutível na sua totalidade, isto é, fenômeno global da cultura visual; seja para compreender os seus modelos simbólicos e formais; seja para reforçar a referida pesquisa numa relação iterativa”.

 

Canevacci conceitua seu trabalho como uma “antropologia da dissolução” e entende que o atual ambiente simbólico das sociedades complexas é de tipo visual e reprodutível.

 

Outro autor que estuda as interrelações entre a constituição da subjetividade, a cultura e as ¨máquinas de visão¨ é Guatari . Ele enfatiza a questão da subjetividade enquanto produzida por instâncias individuais, coletivas e institucionais. Em Caosmose , afirma que a subjetividade é plural , polifônica e que as máquinas tecnológicas de informação e de comunicação operam no núcleo da subjetividade humana. Ele entende que é preciso levar em conta as dimensões maquínicas de subjetivação e a heterogeneidade dos componentes que concorrem para a promoção da subjetividade .
Mas será que a influência destes sistemas maquínicos será necessariamente a de contribuir para constituição de ¨ Eu-cracias , de identificações coladas ao outro?

 

Em nossa experiência com o uso da tecnologia audio-visual , buscamos contribuir para a constituição de outras formas de subjetividade. Há vários anos trabalhamos com a metodologia de vídeo antropológico em comunidades do Rio de Janeiro e de outros municípios.

 

A abordagem utilizada tem como fundamento teórico-metodológico o cinema etnográfico de Jean Rouch e o método de vídeo antropológico de Ferruccio Marotti, da Universidade de Roma .
Os filmes etnográficos iniciaram com as inovações técnicas da sociedade industrial do século 19, quando foi possível o registro visual de outras sociedades. A partir deste método, é possível ver segundo um novo olhar, e em toda a sua riqueza, o conjunto de diversos modelos de comportamento humano. O que se busca não é dizer a verdade sobre o outro, revelá-lo, “traduzí-lo” aos nossos cânones de inteligilidade ; mas, tentar construir uma ponte entre duas culturas, para que elas possam finalmente dialogar!

 

Segundo Jean Rouch :
“O cinema direto contribui para liberar o homem (ou certos grupos de homens) do estado de dependência no qual se encontra, ajudando-o a tomar consciência de si mesmo, de sua originalidade, de sua força enquanto membro de um grupo.”

 

“As técnicas do direto permitiram a eclosão de um cinema novo que parece estar a caminho de se apropriar da experiência humana a mais vasta possível e inventar novos tipos de relações entre os indivíduos e as coletividades.”

 

A metodologia visa , a partir do distanciamento e “espelhamento” possibilitados por esta tecnologia audio visual , auxiliar no processo de chegar a outras visões de si e de suas relações com os outros e enfatiza a obtenção de uma relação que faça com que o objeto da pesquisa seja também o sujeito desta.

 

Recentemente, participei de uma experiência que me tocou de modo especial.
Desenvolvi pesquisa com a metodologia de vídeo antropológico em uma comunidade descendente de um Quilombo , na Rasa, Búzios. Trata-se de um local onde os moradores sentem-se excluídos , discriminados , isolados pela outra parte de Búzios – aquela representada pelo detentores do poder público e privado. Registramos em vídeo o dia a dia das pessoas e das diversas ¨ formas associativas ¨ e organizamos seminário com convidados do Brasil e da Itália . As diversas organizações, associações , grupos de auto-gestão, movimentos estavam presentes . Projetamos o vídeo e após a projeção , todos os participantes reuniram-se e houve uma confraternização coletiva, com expressões de júbilo, de entusiasmo que eu jamais experimentara. Havia uma força vital, uma comunhão, um êxtase que para tentar expressar verbalmente só consigo associar com o ¨entusiasmus ¨ e a catarse do teatro grego da antigüidade.

 

Claro que não podemos saber exatamente como era , pois o tempo e o espaço são outros, mas foi uma experiência que , penso, só pôde surgir devido ao processo de coletivização da experiência . O olhar , através do espelho/ vídeo , atravessado pelo coletivo e por diversas instâncias sociais, que ali estavam presentes através dos representantes das áreas municipais, estaduais, federais e internacionais.

 

Este é um exemplo de outras formas de utilização das tecnologias audio visuais, com a metodologia do ¨direto¨ , sem ser de forma alienada , colada ao outro. Mas não há interesse daqueles que detém o poder de controlar e massificar em chegar aos resultados obtidos na experiência coletiva, participativa e de auto-gestão.

Pontuações sobre L’Insu e a Lógica Modal.

Carmen Rodrigues Tatsch

Este trabalho resulta de uma questão que surgiu no decorrer do Cartel L’Insu que sait de l’une bévue s’aile a mourre. No momento estamos passando por um processo de dissolução deste que se iniciou com a saída de um participante que era presente/ausente, quer dizer, embora inscrito no cartel raramente aparecia, mas avisava de sua ausência. Após algum tempo, não mais compareceu e despediu-se com uma mensagem pelo watsapp.

A experiência que vivemos neste cartel instigou-me a escrever a respeito de duas questões: uma, sobre o processo deste; outra abordando a lógica que atravessa o Seminário l’Insu que sait de l’une bévue s’aile a mourre.

 

Quanto à primeira questão, em “A função dos Cartéis”, in: Documentos para uma Escola, Ano 1, nro 0, Mustafá Safouan comenta que o “mais um” é uma função que não tem nenhum equivalente social a que possa se referir. E Daniel Sibony diz que há no “mais um” a função de resto. O “Um” seria o resto, estaria abandonado, o mais próximo possível do ponto pelo qual o real vai insinuar-se no grupo. Lacan comenta : é justamente disto que se trata. De que cada um imagine ser responsável pelo grupo, tem que responder como tal… aquilo que faz o nó borromeano está submetido à condição de que cada um seja efetivamente, e não só imaginariamente, o que sustenta todo o grupo.

 

Creio que é esta função do “mais um” visto como um por um, que possibilita um giro, um movimento no cartel. Nos Documentos para uma Escola IV – O Que é a Escola?- há um escrito de Dalmara Marques Abla denominado Cartel, trabalho, formação, que relaciona uma poesia de João Cabral de Mello Neto “Uma bailadora sevilhana”, com o cartel .
Dançar flamenco é cada vez: é fazer, é um faz, nunca um fez.
Dalmara entende que, tal como o estribilho transcrito, o dispositivo do cartel é também cada vez ; é um faz, nunca um fez.

 

No decorrer do estudo de l’Insu buscamos entender que lógica atravessa este seminário. Lacan, em Encore, aponta para a lógica que o sustenta: é a modal.

 

Ao pesquisar sobre a Lógica Modal, vimos que esta tem sido estudada desde o início do século XX. Sua formalização deu-se com Lewis, em 1918. Na forma como a conhecemos hoje, foi concebida por Gödel, em 1933, por extensão modular da lógica proposicional clássica.

 

Conceitualmente podemos dizer que a lógica modal é o estudo do comportamento dedutivo de expressões que tratam de modos quanto ao tempo, possibilidade, probabilidade.

 

As proposições desta lógica podem ser classificadas como:

Necessárias – Proposições que necessariamente são verdadeiras ou falsas, ou seja, sua negação é impossível. “2+2 = 4”

Possíveis – Proposições que podem levar a uma ocorrência, ou seja, ela não é necessariamente falsa. “Pode estar chovendo em Natal agora”

Contingentes – Proposições que podem ser ou não verdades. “Sócrates era um filósofo”

Impossíveis – Proposições que marcam a impossibilidade de um acontecimento. “Uma pedra tem emoções”

 

Realizaremos algumas pontuações sobre trechos pinçados de escritos de Lacan e outros autores, que se relacionam com esta lógica.

 

No início do seminário 24, Lacan comenta que “L’insu que sait faz blá-blá-blá, isso equivoca”. E o título do seminário traz outras equivocações. Maria da Penha Simões, em seu texto “Um título em Anfiguri para um seminário acerca de “l’une bevue”, trabalha bem estas polifonias. A autora irá mencionar l’insu que sait, que pode ser traduzido como o não sabido, mas que soa como insuccès ( insucesso). Une bévue é entendido como equivocação, mas tem a sonoridade de Unbewusst ( o inconsciente). S’aile a mourre – mourre é um jogo popular, chamado no Brasil de “porrinha’, mas que pode ouvir-se como c’èst l’amour (é o amor).

 

A lógica modal classifica as proposições como necessárias, possíveis, contingentes, impossíveis. Lacan irá trabalhar estas de um modo singular.

 

Em Encore, ele irá associar estas categorias segundo se escrevem ou não, e se cessam ou não de escrever-se. À categoria do Necessário, Lacan irá relacionar o Sintoma; à do impossível, a “não há relação sexual”; ao possível, a equivocação (Unbewüst- inconsciente); ao contingente, o amor.
Lacan, em l’Insu, diz que L’une bévue, isto quer dizer um tropeço, uma vacilação, um deslizamento de palavra a palavra..Ao associar l’une bévue ao som de inconsciente, aponta para o sonho, o ato falho e o chiste como equívocos. O que se diz a partir do inconsciente participa do equívoco que está no chiste, equivalência do som e do sentido.Daí poder anunciar que o inconsciente está estruturado ‘como” uma linguagem. Na estrutura do inconsciente deve-se eliminar a gramática, mas não se deve eliminar a lógica. No frances há gramática demais. É preciso que a gramática esteja implícita para poder ter seu justo peso.

 

Ao estabelecer pontos de aproximação e de oposição entre as categorias modais e os modos de inscrição, Lacan realizará articulações que indicam as relações entre eles. Em Encore, ele afirma que “O necessário é o que “não cessa de se escrever.” O que ”não cessa de não se escrever”, é uma categoria modal que se opõe ao contingente. O necessário está conjugado ao impossível e esse “não cessa de não se escrever é sua articulação. O necessário, na medida em que ele “não cessa de se escrever”, é que, o que se produz é o gozo, que não seria possível, não faltaria. É esse o correlato de que não há relação sexual. E é o substancial da função fálica“.

 

Em outro ponto deste seminário Lacan continua: “É nesse “cessa de não se escrever” que reside a ponta do que chamei a contingência. A contingência, se, ela se opõe ao impossível, é na medida em que o necessário é o que “não cessa de se escrever”. Ora está bem aí a necessidade, a que nos leva a análise da referência ao falo. O “não cessa de não se escrever”é o impossível, que não pode se escrever em caso algum. É nisso que eu designo o que é da relação sexual. A necessidade da função fálica é que é, enquanto modo do contingente que o “não cessa de se escrever deve se escrever, cessando de “não se escrever”É como contingência na qual se resume tudo o que se refere ao que , para nós, submete a relação sexual a não ser, para o ser falante, senão o regime do encontro fortuito. É neste sentido que se pode dizer que o falo “cessou de não se escrever”. Ele não entrou no “não cessa”, no campo do qual dependem a necessidade e a impossibilidade”.

 

“O deslocamento dessa negação, a passagem de “cessa de não se escrever” ao “não cessa de se escrever”, a necessidade substituindo essa contingência, está bem aí o ponto de suspensão ao qual se apega o amor. Todo amor, por só subsistir pelo “cessar de não se escrever”, tende a fazer passar esta negação ao “não cessa, não cessará de se escrever” E é esse efetivamente o substituto que, pela via da existência – não da relação sexual, mas do inconsciente, que dela difere – por esta via faz o destino e também o drama do amor.”

 

Além dos seminários de Lacan citados, a leitura dos escritos de outros autores deram uma maior compreensão sobre as questões que o seminário levantou.

Délia Elmer, em RSI, faz uma leitura da lógica modal de Lacan e a escreve como segue abaixo:

 

 NECESSÁRIO                                                  IMPOSSÍVEL
Não cessa de escrever-se                     Não cessa de não escrever-se

Sintoma                                                         A relação sexual

POSSÍVEL                                                  CONTINGENTE
Cessa de escrever-se                                    Cessa de não escrever-se
Equivocação ( Unbewuste)                                             Amor

 

 

Diana Rabinovich, em Sexualidade e Significante, diz que “a escritura “não há relação sexual” deve ser entendida no contexto da lógica modal. A relação sexual é impossível de escrever porque o significante A mulher não existe. Existe o falo como significante do gozo, que permite inscrever a todo ser falante como respondendo à função fálica.

 

Segundo esta autora, a condição da lalangue é lógica. O não-todo é comum à lalange e ao significante da sexuação feminina ,A / mulher barrada. O A/ cruzado pela barra sigfica a inexistência , a impossibilidade de um universal de A mulher. S ( A/) marca o impossível do todo a nível do universo do discurso. Esta negação do universal é consequência do axioma de Lacan : não há Outro do Outro, não há metalinguagem. Esta formulação é inseparável do axioma “não há relação sexual”, que surge como ordenando a estrutura do inconsciente.

 

Nilza Ericson, em seu livro “Economia de gozo e final de análise”, diz que o Teorema de Gödel chega ao não demonstrável, nem refutável, mas que escreve um indecidível. A fórmula que traz na sua estrutura “Eu não sou demonstrável”, diz “Não há relação sexual”. Há alguma coisa que resiste como real, que não é demonstrável, que não é passível de ser escrito ou todo apreendido pelo simbólico… Falta algo ao saber que é da estrutura. Mas é algo que vai propiciar uma invenção. Invente uma forma singular… A invenção singular da resposta de cada um não é outra coisa senão a escrita do real da estrutura.

 

Delia Elmer, em RSI, diz que “homem e mulher são significantes, nem o inconsciente se reconhece como homem, ou como mulher, é uma questão de inscrição. Não há dois sexos, nem um só sexo, há um e um. Não são adicionáveis, não são opostos, não são complementares, são heterogêneos”.
Nilza Ericson entende que o que faz obstáculo à suposta relação sexual é o falo e o que ele faz limite e que ele limita ao mesmo tempo. O falo sustenta o limite do simbólico. Entre o homem e a mulher, entre um lado e outro, o falo faz obstáculo, impede que haja um encontro que faça de dois, um.

 

Delia Elmer menciona que não há relação sexual, uma das maneiras de dizê-lo é que não se pode gozar do corpo do Outro, daí a angústia. O que é da relação sexual é estritamente impossível de escrever xRy. Não há elaboração logicizável e ao mesmo tempo matematizável da relação sexual.

 

Em seu texto, Sinthoma e escritura, Eduardo Vidal entende que o sintoma foi introduzido como substituição de uma satisfação malograda. O sentido do sintoma toca o Real. O sintoma é escritura; ele efetiva a repetição da letra no inconsciente, que não cessa de escrever…o impossível da relação sexual.
A relação sexual é da ordem do impossível e o falo ali é contingência, que reduz o que é do sexual no ser falante ao regime do encontro.

 

Eduardo Vidal entende que conhecer seu sintoma é a forma de saber fazer com. Não é um saber mas um ato que tem alguma ressonância com o modo com que cada um se vira com a sua imagem, na medida que ela faz o corpo, habituando-se a suportar a estranheza própria à irrupção do Real.

 

Delia Elmer afirma que Lacan define uma mulher como sintoma do homem. O que não cessa de escrever-se deve passar antes pelo cesse de não escrever-se, que dizer, o amor. O amor é precioso, raramente realizado e dura só um tempo. O amor faz suplência à não relação sexual, fazendo desde o imaginário que cesse de não escrever-se, porém este não faz báscula e reaparece no não cessa de escrever-se, isto é, o sintoma. Lacan diz que para que não cesse de escrever-se é preciso que antes tenha cessado de escrever-se. Devemos entender que, para que uma mulher seja sintoma do homem, deve intervir aí o amor.

 

Para Diana Rabinovich, o axioma que marca o impossível, quer dizer, o real da sexualidade, culmina em uma logificação quantificacional da sexualidade e a redefinição da estrutura de linguagem do inconsciente como lalangue

 

Ao finalizar estas pontuações, ficam algumas questões que continuarão a ser pesquisadas. Uma delas é a dos movimentos que se realizam, na escrita de Lacan, entre os significantes mencionados. Nesta, o Impossível se opõe ao Contingente; e o Necessário está conjugado ao Impossível. Esta posição dos significantes que se opõem teria relação com o cessar e o não cessar ? E os que se conjugam, estariam ligados ao ato de ambos não cessarem? De se escrever ou não. E como os movimentos entre os significantes desta escrita de Lacan se articulam com a clinica?

El Uso de la Imagen en el Trabajo Comunitario

Leonor M. Cantera Espinosa

Universitat Autònoma de Barcelona

Departamento de Psicología Social

leonor.cantera@uab.es

 

Carmen Rodrigues Tatsch

Universidade Veiga de Almeida

Departamento de Psicología

carmenrodriguest@yahoo.com.br

 

Resumen

 

Seguir principios inherentes a la Psicología Comunitaria como el dar respuestas a los problemas sociales o facilitar el proceso de toma de conciencia y acciones encaminadas a la resolución o prevención de determinadas problemáticas; no es fácil y  representa una gran responsabilidad. Para ello, son muchas las personas que en el día a día tratan de buscar y utilizar métodos que lo faciliten. En nuestro trabajo hemos encontrado en el uso de la imagen una herramienta para facilitar procesos relacionados con las problemáticas y/o necesidades expresadas o detectadas en determinadas comunidades, ya sea en la toma de conciencia de aquello que le afecta y sus diferentes interrelaciones como en la construcción de diversas acciones dirigidas a su resolución.

 

Presentamos dos formas de uso de la imagen en el trabajo comunitario que tienen puntos de encuentros. Una, utilizando la metodología de video antropológico como herramienta para salud mental en comunidades de Río de Janeiro-Brasil para con una retroalimentación continua facilitar la transformación y resignificación. Verse en el video implica, como señala Paola Miele, una relación tridimensional del cuerpo en el espacio, el colocarse sobre y al lado del/la otro/a;  donde la cámara funciona como un/a otro/a. El/la  sujeto se confronta con su propia imagen a través del video; lo que le permite reconocerse a si mismo/a en el/la “otro/a”.

 

Por otro lado, la imagen es utilizada también en la fotointervención. Donde la imagen captada sea la propia o no, facilita la reflexión sobre las miradas y posturas que asumimos ante determinadas situaciones. Ambos procesos, facilitan el reconocer el cómo veo a la comunidad a la que pertenezco, a apreciar la propia singularidad y la historia propia. Y facilita si no el crear líneas de acción inmediatas, sí el darse cuenta, el despertar la reflexión y el tener sentido de partencia.

 

Palabras claves

 

Imágenes, fotointervención, sensibilización, empoderamiento

 

Trabajo de sensibilización comunitaria y de formación universitaria.

 

Entre los objetivos que tiene la psicología comunitaria está el facilitar el reconocimiento y el empoderamiento de las personas o grupos menos favorecidos socialmente. Y, a nivel de formación profesional, el poder ayudar a la sensibilización y toma de conciencia de los problemas sociales para poder ser instrumentos de cambio.

 

Nuestro trabajo consiste en ejemplificar a través de dos intervenciones llevadas a cabo en Brasil y España, el uso de la imagen como herramienta facilitadora de dos procesos: el empoderamiento y la sensibilización.

 

El trabajo comunitario en Brasil fue realizado en una comunidad descendiente de esclavos africanos en la Región de Rasa del Municipio de Armaçao dos Búzios del estado de Rio de Janeiro. Esta participación en la comunidad fue, al inicio, parte de una investigación que articulaba la escuela de comunicación de la universidad Federal do Rio de Janeiro con el apoyo de la Fundaçao de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro. El objetivo inicial era promover la salud mental y el bienestar de la comunidad enfocando principalmente: la autoestima de sus integrantes, la valoración de la cultural local y la re-elaboración de las identidades.

Nuestra hipótesis era que si se trabajaba con las expresiones singulares de cada cultura esto funcionaria como un sistema informal de promoción de la salud que a su vez contribuiría a la identificación propia con características particulares alejadas de una mirada masificadora dominante. De manera que cuando facilitamos la visibilidad de culturas minoritarias estamos promoviendo la salud mental de sus integrantes.  La salud mental entendida como la reafirmación de la vida, la búsqueda de cambios que faciliten el ser y el estar.

 

La metodología utilizada fue el vídeo antropológico para realizar un estudio etnográfico. El procedimiento fue  realizar videos de la comunidad en su vida cotidiana por sus propios integrantes y para ello se les dio apoyo en el uso de la cámara. Fueron tomadas escenas diversas como: los debates en asambleas realizadas por la comunidad, la vida en la calle, entrevistas con agentes-líderes de la comunidad, etc. La comunidad fue invitada a asistir a las proyecciones de los videos y a las discusiones sobre los mismos. Dicha actividad contribuía a visualizar aspectos varios; como por ejemplo, sus canciones, sus preocupaciones, los recursos que utilizaban para lograr sus metas, etc

 

. Todo ello contribuyó a que desde el 2005 al 2007 la investigación bajo el nombre de Derecho al Trabajo y Desarrollo Humano y Social facilitara y vigilara por preservar las características particulares de la comunidad. Contribuyendo a la memoria de la calidad de vida de sus integrantes buscábamos a promover la solidaridad e integración grupal.

 

La investigación arrojó que era imposible mejorar la calidad de vida de esta población si no era incluida la herencia cultural de los nativos de Búzio e incorporar esa memoria, hasta ahora excluida, en el mercado de trabajo de ese municipio. Esto era un derecho y respeto a su reconocimiento, a favorecer su autoestima y la ganancia de su sustento con dignidad.

 

Entre los resultados de la investigación-acción en la comunidad se constató que cuando la comunidad comenzó a convivir con otros miembros de la comunidad desde ese respeto y reconocimiento, se comenzó a articular un proyecto de turismo histórico-antropológico-ecológico que reúne a varios participantes pertenecientes a diversas asociaciones de la región como lo son: artesanos, pequeños agricultores, lideratos ligados a la ecología y preservación del medio ambiente, así como pescadores. La propuesta es un turismo alternativo que permita la valorización de la historia y la cultura y a través de ello la revalorización e inclusión de la sociedad buziana como forma de solidaridad y exaltación identitaria.

 

La comunidad de Rasa aún cuando mantenía formas auténticas de expresión (fruto de sus raíces históricas) y de diversidad cultural; no tenía conciencia de las mismas y de su importancia para una sociedad plural. Tendía a ocultarlas producto de años de invisibilización y ocultación de la cultura dominante. Sus habitantes  se encontraban excluidos de la vida social, cultural y económica reinante en el Municipio; y en fase de una desintegración cultural y de su historia. Se logró modificar las relaciones de poder existentes dando paso a deliberaciones políticas más participativas. Todo ello permitió un proceso de transformación y empoderamiento de los y las integrantes de dicha comunidad.

 

Experiencia en la formación universitaria

 

La experiencia tuvo lugar en el marco del máster sobre violencia de género y de una signatura de grado (Evaluación e Intervención psicosocial) en la Universidad Autónoma de Barcelona. Los objetivos eran: el facilitar a través del uso de las nuevas tecnologías la observación del entorno y el ejercicio de la reflexión y análisis de la cotidianidad. Posibilitar una nueva visión de sí mismo/a. y, facilitar el auto-análisis de formas expresivas y comportamientos desde una visión crítica.

 

La técnica utilizada para ello fue la fotointervención que es una herramienta de análisis y de acción psicosocial que articula la fotografía como medio de visibilización de realidades sociales problemáticas con los principios de investigación e intervención de la psicología social comunitaria comprometida con el cambio de estas realidades.

 

La metodología empleada es la que dicta la técnica resumiéndose en: entrega de la cámara, realización de fotos, presentación de las mismas, discusión-problematización y la elaboración de posibles acciones.

 

Los resultados obtenidos con el uso de la fotointervención son: la visualización y cuestionamiento de situaciones problemáticas tabú, la articulación de los niveles individual, interindividual y grupal. Y, finalmente, la interconexión de diversos problemas sociales  Todo ello facilitó no sólo la concienciación y sensibilización ante los problemas sociales sino poder visualizar como en la cotidianidad es fácil que los procesos se vivan y entiendan como propios y normales bajo el velo de la normalización.

 

A continuación mostramos algunas imágenes de la comunidad en Brasil donde se llevó a cabo el proyecto y algunas imágenes tomadas por el estudiantado del master sobre violencia en la pareja y a nivel de grado; como ejemplos del trabajo de identificación a través de las imágenes.

 

 

Bibliografía

 

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