Formas Expressivas e Discursos de uma Comunidade Urbana do Rio de Janeiro: Um Uso do Teatro e do Vídeo Antropológico

Esta tese aborda a questão das subjetividades da comunidade do Vidigal . O estudo foi efetuado a partir de um determinado recorte de suas  formas expressivas e discursos.

Interessou-nos pesquisar as posições estruturais ali encontradas e como estas se articulam com os eventos. Perguntamo-nos se os mitos deste lugar aproximam-se dos mitos das sociedades tradicionais ou daquele que freqüentemente é produzido naquelas inseridas nos processos de globalização. A estrutura do senhor e do escravo encontra-se em todo o Brasil e em várias partes do mundo. No Vidigal esta posição estrutural deu suporte ao Discurso do Mestre. Ali este discurso é representado pela mídia , pela política partidária e por seu contraponto , o tráfico de drogas .

Utilizamos a metodologia de teatro e de vídeo antropológicos , cujo objetivo é  a expressão da espontaneidade, da criatividade ,da auto-análise.

Mas, talvez por esta metodologia estar sendo empregada em uma comunidade que articula-se com Discurso do Mestre , ali o vídeo ficou identificado com a televisão .

A Linguagem Teatral como Recurso Expressivo na Transformação do Sujeito

O tema central deste livro, A Linguagem Teatral como Recurso Expressivo na Transformação do Sujeito , foi escolhido devido à experiência de muitos anos com o teatro voltado para a transformação da pessoa em relação consigo, com os outros e com o meio onde está inserida .

 

Ao constatarmos o quanto os recursos teatrais contribuem para uma vivência mais completa das possibilidades humanas, para o redimensionamento da pessoa, resolvemos entender melhor teoricamente quais os fatores que levam o teatro a contribuir para essa transformação.

 

Sentimos então a necessidade de fazer um estudo abordando conhecimentos de várias áreas, para que possamos ter uma visão abrangente de todo o processo que envolve a arte, o homem e a sociedade.

 

Ao realizarmos os estudos, pesquisas, trabalhos buscamos contribuir para uma saída para que as relações entre os homens e as sociedades não perpetuem-se nnma rigidez imobilizadora, alienada, consumista. O foco em relações mais verdadeiras, espontâneas, vivas é uma constante em nosso processo de trabalho. Na pesquisa de um caminho que nos auxilie a atingir uma vivência mais rica, mais completa das possibilidades humanas, encontramos o teatro.

 

Em nosso entender, o teatro por ser uma arte de síntese; por ter funções catárticas, lúdicas, conscientizadoras, integradoras; por sintetizar e reorganizar os signos de seu contento; por possibilitar a metamorfose e a expressão das emoções e de várias formas de comunicação, tem um potencial que nos permite a transformação do homem em sua relação com o contexto. Estas características do teatro nos auxiliam no resgate da identidade, dos valores e do sentido, permitem-nos compartilhar coletivamente experiências, sentir-mo-nos pertencendo a um grupo, uma cultura, a um coletivo. A vivência do processo teatral nos possibilita um redimensionamento, uma amplitude de vida.

 

 

 

 

A LINGUAGEM TEATRAL COMO RECURSO EXPRESSIVO NA TRANSFORMAÇÃO DO SUJEITO.

Carmen Rodrigues Tatsch

RINEIRO
2000

ED. PAPEL VIRTUAL
RIO DE JANEIRO
2000

Agradeço a Maria Inácia D’Ávila Neto, a Tânia Maria Freitas B. Maciel, a Edwaldo Cafezeiro e a Carmem Gadelha pela orientação e apoio recebido durante a elaboração da dissertação de mestrado.

Dedico este livro a meu filho , Gabriel Tatsch Torres , que tem em apoiado não só neste projeto, mas em muitos outros . Minha maior realização foi tê-lo parido e criado. Vivi muitos processos de gestação e parto e esta publicação é também uma forma de parir algo que há muito tempo estava em gestação. O parto só pode ser realmente finalizado quando a obra vem a público .

Dedico este livro também a meus pais , Mario Torres Tatsch e Gabriela Rodrigues Tatsch , com quem pude contar nas horas difíceis da minha vida e que me possibilitaram criar recursos pessoais para ultrapassar , desenvolver e redimensionar os processos de vida por que passei .

Dedico ainda este livro à memória de Raffaele Infante , com quem trilhei caminhos nunca dantes por mim navegados que me permitiram uma maior amplitude profissional e pessoal.

Dedico finalmente este livro a todos que me amaram e me amam e a todos a quem eu amei e amo , em todas as formas possíveis de se amar.

Este texto se origina da dissertação de mestrado apresentada em 1991 , por Carmen Rodrigues Tatsch ao Instituto de Psicologia – CFCH – Universidade Federal do Rio de Janeiro , como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre em Psicologia .
A dissertação foi orientada pela Prof. Dr.ª Maria Inácia D’Avila Neto.

Páginas
1. INTRODUÇÃO…………………………………………………………………………….. 1

2. A GÊNESE…………………………………………………………………………………… 3

3. O TEATRO COMO ARTE AUTÔNOMA……………………………………. 7
A Tragédia Grega…………………………………………………………………………. 7
O Teatro Cristão no Feudalismo……………………………………………………… 10
Commédia dell’Arte……………………………………………………………………… 13
O Teatro Educativo dos Jesuítas……………………………………………………… 13
O Teatro no Capitalismo………………………………………………………………… 14
Aspectos Relevantes ……………………………………………………. 18

4. O TEATRO CONTEMPORÂNEO…………………………………………………. 20
O teatro Socialista na Rússia…………………………………………………………… 21
O teatro Europeu…………………………………………………………………………… 22
O teatro Brasileiro…………………………………………………………………………. 32

5. FUNÇÕES DO TEATRO NA MODERNIDADE…………………………. 36

6. POR UM TEATRO VOLTADO PARA A TRANSFORMAÇÃO………. 38

7. CONCLUSÕES…………………………………………………………………………….. 42

NOTAS…………………………………………………………………………….. 43

BIBLIOGRAFIA……………………………………………………….. 45

A LINGUAGEM TEATRAL COMO RECURSO EXPRESSIVO NA TRANSFORMAÇÃO DO SUJEITO.

1. INTRODUÇÃO

O tema central deste livro, A Linguagem Teatral como Recurso Expressivo na Transformação do Sujeito , foi escolhido devido à experiência de muitos anos com o teatro voltado para a transformação da pessoa em relação consigo, com os outros e com o meio onde está inserida . Ao constatarmos o quanto os recursos teatrais contribuem para uma vivência mais completa das possibilidades humanas, para o redimensionamento da pessoa, resolvemos entender melhor teoricamente quais os fatores que levam o teatro a contribuir para essa transformação.
Sentimos então a necessidade de fazer um estudo amplo, abordando conhecimentos de várias áreas, para que possamos ter uma visão abrangente de todo o processo que envolve a arte, o homem e a sociedade.
Estes três elementos estão intrinsicamente interligados e se transformam através dos tempos.
É preciso estudá-los desde as origens, quando não havia, ainda, estes conceitos: arte, homem e sociedade e ir acompanhando a transformação destes fatores através da história, para que tenhamos uma compreensão global das relações existentes na atualidade entre estes elementos.
Partimos da idéia que o homem hoje está “desenraizado”, isolado, fragmentado e sofre com isso. E, na busca de reencontrar algumas experiências perdidas no tempo, que lhe permitam sentir-se novamente íntegro, a arte e, em particular, o teatro, tem especiais recursos que favorecem um redimensionamento do homem em seu universo.
Ao estudarmos o homem em seus primórdios, iremos entender a função que a arte desempenhava naquela cultura. Ao acompanharmos a transformação desse homem, dessa arte e dessa cultura, compreenderemos como veio a realizar-se a fragmentação, a alienação, o isolamento do homem moderno.
E compreenderemos que aspectos do teatro possibilitam um amplo campo de expressões, criações que permitam um engrandecimento, um enriquecimento da experiência e da dimensão humana. Há um potencial na linguagem teatral, uma dimensão que ultrapassa a experiência existencial cotidiana e nos leva a atingir graus mais amplos de comunicação, mais plenos de vida.
O homem contemporâneo não encontra mais unidade entre as suas diferentes manifestações, ele não percebe mais sentido, totalidade, processo contínuo entre o conhecer, o trabalhar, o amar, o divertir-se. Ele anseia por reviver certos processos de coletivização, de comunhão com o todo, que são experiências que ficaram perdidas num passado a que não é mais possível voltar.
O homem contemporâneo, em seu contato com a arte, a religião, o trabalho, a magia, perdeu a possibilidade de uma experiência coletiva, ritualística, de “re-ligação” com o todo.
Em meu entender, o teatro é uma das expressões criativas que possibilitam o reencontro com essa experiência plena, revivificante existente no passado.
Um dos aspectos que permitem este encontro é o fato de o teatro ser uma arte de síntese; nele estão presentes o ator, o bailarino, o músico, o artista plástico, o atleta, o mímico, o escritor, o diretor, o público.
Estas diversas expressões artísticas, que hoje se manifestam de forma autônoma, separada, nas sociedades arcaicas faziam parte de um todo único e integrado. Na nossa sociedade, que transforma tudo em produto a ser consumido esvaziado de sentido, há uma busca constante de estados mais completos de humanização.
Nossa proposta é a de um teatro que integre, possibilite a vivência de unidade, coesão, de experiências mais amplas de vida. Pensamos que o teatro, por possibilitar a metamorfose, o ser muitos ao mesmo tempo, auxilia no processo de encontrar a identidade. Mas como não existe o “eu sozinho”, isolado do resto do mundo, como o interno e o externo tem uma contínua comunicação, ao modificar-se eu também interfiro no meio externo e este volta a transformar-se.
No teatro, a pessoa não representa a si ou ao seu personagem somente, mas também a sua comunidade. O ator acumula os signos de sua época, ele representa condutas imaginárias dotadas de significação, que dão sentido, unem, transformam os valores de seu tempo. Os mitos de cada época são representados pelo corpo do ator e comunicam as formas de expressão de seu tempo.
Este re-ligar-se com seu tempo, sua cultura; a sensação de pertencimento a um grupo; encontrar identidade de valores, símbolos na relação com os outros; compartilhar coletivamente experiências, são fatores extremamente importantes e significativos para o homem contemporâneo.
O ator representa com seu corpo as condutas imaginárias esperadas por seus contemporâneos. Ele interioriza as manifestações de seu contexto e as exterioriza através de suas criações, reorganizando-as e integrando-as.
Ao trabalharmos com o teatro com o objetivo de conscientização e transformação, estes elementos do teatro desempenham uma função essencial.
Ao sintetizar e reorganizar os signos que estão implícitos no contexto e projetá-los, recriando-os através da minha imaginação, das minhas fantasias pessoais, estabelece-se uma relação revivificante entre eu e o contexto. Para quem vive em um contexto que propicia a alienação, o isolamento, o desamparo, o desalento, poder viver experiências revivificantes e reunificadoras é significativo para tentar atingir essa plenitude de vida que buscamos.
Para que possamos expor com maior clareza estas idéias, desenvolveremos um estudo que enfoca alguns aspectos históricos, sociológicos, antropológicos e psicológicos da arte e, especialmente do teatro, onde analisaremos as funções que as artes tiveram através dos tempos. Este estudo servirá de base para analisarmos os elementos específicos do teatro que o tornam, na sociedade contemporânea, um fator crivado de potencialidades expressivas que possibilitam uma plenitude de vida, difícil de ser vivenciada na asfixiante sociedade atual.

2. A GÊNESE

Qual a função da arte e do mito para o homem primitivo? Segundo diversos autores, para o homem da antigüidade, o homem se fez homem ao mesmo tempo em que se descobria como ser criador, social, mágico, trabalhador, lúdico.
ERNST FISCHER (1) se inspira em MARX ao dizer que “a arte é uma forma de trabalho e o trabalho é a condição necessária para que se efetue um intercâmbio entre a natureza e o homem”. O homem transforma a natureza através do uso de ferramentas. O trabalhador usa as ferramentas como meio de adquirir poder sobre outras coisas e para adaptar essas outras coisas aos seus designos. Ao utilizar as ferramentas, o homem conquista uma nova força, potencialmente ilimitada, sobre a natureza. Aí está uma das raízes da magia e da arte. O desenvolvimento do trabalho amplia um novo sistema de meios de expressão e comunicação que ultrapassam os sinais do mundo animal. Junto com o trabalho surge a linguagem. Então o homem, que via o mundo como um todo indeterminado, passa a diferenciar-se deste mundo e por um processo lento e laborioso, desenvolve a linguagem, a inteligência, a consciência.
A separação gradual do homem em relação à natureza deu origem a uma “dupla natureza”, passou a perceber uma dupla realidade: aquela que é sensorial e a supra-sensorial.
Para FISCHER (2):

“Por seu trabalho o homem transforma o mundo como um mágico e a magia é a verdadeira essência de toda arte. A arte era um instrumento mágico que servia ao homem na dominação da natureza e no desenvolvimento das relações sociais. A arte conferia ao homem poder sobre a natureza, sobre a realidade, sobre os outros homens. A arte era uma arma da coletividade humana em sua luta pela sobrevivência”.

A visão de FISCHER sobre a arte nos permite entender a função da arte nas sociedades pré-históricas e vemos como a arte surge juntamente com outras criações que permitiram ao homem diferenciar a natureza, do reino animal.
Uma outra criação do homem permitiu-lhe o desenvolvimento de um grau mais complexo do conhecimento consciente: o surgimento da sepultura e da pintura. Segundo EDGAR MORIN (3):

“O homem de Neandertal tornou possível, através da criação dos túmulos, a concepção da morte como transformação de um estado em outro. Aí se detecta a presença do tempo na consciência e a crença de uma outra vida na qual se mantém a identidade do renascido. Isso indica que o imaginário irrompe na percepção do real e que o mito irrompe na visão do mundo. Mito e magia passam a ser produtos e co-produtores do destino humano. A presença da morte passa a ser um problema que afeta a vida do homem e ele passa a solucioná-la no mito e na magia”.

Assim como Fischer vê a magia como forma de conferir poder ao homem no contato com a natureza, Morim também a vê como modo de conferir poder, mas para enfrentar a morte.
Para Morin tanto a sepultura, como as pinturas encontradas nas ossadas dos mortos e usadas no corpo pelo homem neandertalense provavelmente presumiram o nascimento do homo sapiens e o aparecimento da arte. O ocre vermelho e o negro do manganês usados na ocasião, para desenhar símbolos e sinais, revelam o aparecimento de uma atividade artística vinculada a uma finalidade ritual e mágica.
Para os dois autores, a arte e o mito têm a função de fortalecimento da coletividade humana, de integração com o todo. Freud vê o mito como o início da organização social. Para FREUD (4) :

“A sociedade primitiva era governada, despoticamente por um macho poderoso, um pai violento que guarda as fêmeas para si e expulsa os filhos. Um dia os filhos machos retornam, matam e devoram o pai. Ao devorá-lo, identificam-se com ele e adquirem parte de sua força. A repetição e comemoração deste fato foi o início da organização social, das restrições morais e da religião”.

No entender de Freud, a proibição do incesto e do sentimento de culpa iniciaram aí. Com o desenvolvimento social , veio a surgir o mito do herói(5):

“O pai foi exaltado como criador do mundo. Era o ideal de cada um, temido e honrado, o que conduzia à idéia de tabu. Ao matarem-no, ninguém podia tomar o seu lugar e todos renunciaram à herança do pai. Formaram a comunidade totêmica de irmãos. Aos poucos o macho tornou-se o chefe de uma família. ‘Havia grande número de pais e cada um deles era limitado pelos direitos dos outros. Foi então que talvez algum indivíduo, na urgência de seu anseio, tenha sido levado a libertar-se do grupo e a assumir o papel de pai. Quem conseguiu isso foi o primeiro poeta épico . Esse poeta disfarçou a verdade com mentira consoante com seu anseio: inventou o mito heróico. O herói era um homem que, sozinho, havia morto o pai – o pai que aparecia no mito como um monstro totêmico’.
Assim, o primeiro mito foi o psicológico, o mito do herói; o mito explicativo da natureza deve tê-lo seguido depois. O poeta que libertou-se do grupo em sua imaginação, é capaz de encontrar seu caminho de volta ao grupo na realidade – porque ele vai e relata ao grupo as façanhas do herói, as quais inventou. Esse herói não é outro senão ele próprio. Assim, desce ao nível da realidade e eleva seus ouvintes ao nível da imaginação. Seus ouvintes, em virtude de terem a mesma relação de anseio pelo pai primevo, podem identificar-se com o herói. A série de deuses seria cronologicamente esta: Deusa Mãe – Herói – Deus Pai.”

Também para Freud, o mito heróico tem a função de conferir poder ao homem, que se transforma no herói que vence o todo poderoso pai totêmico e se diferencia do grupo, só que aqui, o mito não é mais uma arma da coletividade, mas do indivíduo. O mito dá uma versão da realidade e pode contribuir para atingir graus mais complexos de conhecimento e experiência.
Para PIERRE CLASTRES , a divisão entre os homens e o poder de uns sobre os outros se dá com o nascimento do Estado.

Para CLASTRES (6):

“As sociedades primitivas são sociedades sem estado. Nestas sociedades o chefe não tem poder; ele é encarregado de assumir a vontade que a sociedade tem de aparecer como uma totalidade una: ele assume o esforço da comunidade de afirmar sua especificidade, sua autonomia e independência em relação às outras comunidades. O líder possui prestígio, não poder. As sociedades primitivas recusam a obediência, a relação de poder. Isso não é um traço psicológico individual, mas é parte do funcionamento das máquinas sociais resultado de uma ação e uma decisão coletiva. As sociedades primitivas desejam um ser-para-a-liberdade, onde não há desigualdade. Nestas sociedades não há separação da vida econômica, social, religiosa, ritual, etc. Estas são sociedades violentas, seu ser é um ser-para-a-guerra. Aí a guerra diz respeito à cultura. A extrema fragmentação com que a sociedade primitiva se apresenta por toda parte, seria a causa da freqüência da guerra neste tipo de sociedade. A comunidade primitiva é ao mesmo tempo totalidade e unidade, totalidade na medida em que é conjunto acabado, autônomo, completo, independente das outras comunidades. Unidade na medida em que seu ser homogêneo, persevera na recusa da divisão social, na exclusão da desigualdade, na interdição da alienação. É justamente o Outro como espelho – os grupos vizinhos – que devolve à comunidade a imagem de sua unidade e de sua totalidade”.

Clastres concorda com La Boétie quando diz que esta sociedade na qual o povo quer servir aos tiranos é histórica, tem uma data de nascimento; algo aconteceu para que os homens caiam da liberdade na escravidão. O malencontro que produziu a divisão da sociedade em aqueles que mandam e aqueles que obedecem deu-se com o nascimento do Estado. A relação de poder desnaturou o homem, dividiu a sociedade; criou o amor à servidão.
Clastres nos mostra aqui também a busca do homem em conquistar poder. Mas de forma diferente das teorias explicativas anteriores, onde vimos a busca do poder como um modo de fortalecer a coletividade humana. Aqui o poder é visto como uma forma de dividir, desnaturar, submeter, oprimir o homem.
Estas dualidades que estudamos através do pensamento destes autores, onde vemos, de um lado uma tendência à integração, a coletivização, à harmonia, ao amor, ao desenvolvimento da capacidade e de outro lado, uma tendência à desintegração, à individualização, à desarmonia, à opressão, ao ódio, estarão presentes em toda a história da humanidade; mas manifestando-se de forma específica, particular em cada momento.
Há muitas controvérsias sobre a gênese destas tendências. Algumas teorias explicativas sustentam o pensamento de que estas tendências divergentes teriam relação com o princípio matriarcal e o princípio patriarcal.
Segundo BACHOFEN, in BRANDÃO (7):

“O princípio matriarcal é o da vida, unidade e paz; é o da universalidade. O matriarcado é a base do princípio de liberdade e igualdade, de irmandade universal. É também a base da preocupação convicta com o bem-estar material e a felicidade terrena. Busca a paz e a ternura humana. O princípio matriarcal é o do amor incondicional, da igualdade natural, da ênfase sobre os vínculos de sangue e terra, compaixão e misericórdia.
Através de um longo processo histórico, o patriarcado veio a substituir o matriarcado. A mulher foi subjugada pelo homem, que se tornou o dominador em uma hierarquia social. Com a vitória do patriarcado rompe-se a era do amor, de éros, da natureza e instala-se a era do lógos, o respeito à lei e à ordem, o predomínio da razão. Na sociedade matriarcal todos os homens são iguais, na patriarcal se postula a obediência à autoridade.
O princípio patriarcal é o da restrição, do amor condicional, da estrutura hierárquica, do pensamento abstrato, da obediência, das leis feitas pelo homem, do Estado e da Justiça, da racionalidade.
A estrutura social patriarcal está intimamente ligada ao caráter classista da sociedade atual. A família patriarcal é um dos mais importantes núcleos de produção das atitudes psíquicas que operam para manter a estabilidade da sociedade de classes”.

Qualquer que seja a explicação que se dê sobre a gênese do homem, da sociedade, da arte, encontramos sempre o fato histórico da gradual diferenciação do homem em relação à natureza e em relação uns aos outros; da passagem de uma sociedade coletiva para uma individualista; da gradual opressão e subjugação das classes dirigentes em relação às classes dirigidas; de uma sociedade que valoriza a emoção, o instinto, o êxtase, para uma que valoriza a razão, a ordem, a lei. E a permanente luta das tendências vencidas buscando tornarem-se vencedoras.
Todos estes temas que abordamos fazem parte dos questionamentos contemporâneos. Para pensarmos sobre o “para onde queremos ir”, precisamos saber “de onde viemos”. Daí o interesse por nossa genealogia.
Vimos neste primeiro capítulo os primórdios da civilização, onde tudo começou. Vimos os primeiros passos do homem e de suas criações: o mito, a magia, a arte, o trabalho.
No próximo capítulo estudaremos a gradual divisão da arte, da sociedade, das classes.

3. O TEATRO COMO ARTE AUTÔNOMA

Somente com uma organização social mais firme as artes irão surgir de forma diferenciada.
Em ADORNO (8) encontramos que a separação e a unidade das manifestações artísticas surgem com uma organização social mais firme e que o comportamento estético inclui a razão e o instinto lúdico.

“A arte, desde os seus mais antigos vestígios, está já impregnada de racionalidade. Mas não de uma racionalidade total; o comportamento estético contém a eterna disposição do instinto lúdico. O sentimento e o entendimento não são algo de absolutamente diferente na estrutura humana e permanecem dependentes mesmo quando estão separados. Eros e conhecimento se unem no comportamento estético”.

Se para Adorno, a arte une Eros e conhecimento, instinto e razão; para outros autores, à medida que arte se organiza, ela tende para o racional em detrimento do instintivo. Toda a expansão livre, todo descomedimento, as experiências de êxtase, entusiasmo, alegria de viver, passam a ser reprimidas, proibidas. A razão, o poder dominante, passam a determinar o que deve e o que não deve ser feito.
O teatro, que inicialmente era uma expressão integrada aos ritos, às festas, às comemorações, cultos sociais, no estado grego passa a caracteriza-se como arte autônoma das outras e com regras específicas de atuação.
Para Fischer, com a quebra da comunidade primitiva e com a sua substituição por uma sociedade dividida em classes; a magia que correspondia ao sentido de unidade do homem com a natureza, vem a diferenciar-se em ciência, religião e arte. A arte, com a sociedade dividida em classes, se torna uma expressão dos primórdios da alienação. Para ele (9), “cabe a arte conduzir a vida individual de volta à existência coletiva, unir o pessoal ao universal, restaurar a unidade humana perdida”.
A sociedade grega é o marco de uma profunda transformação social: de uma organização social matriarcal em uma organização social patriarcal; de uma sociedade onde se busca o êxtase, a comunhão dos homens entre si e com o cosmos para uma sociedade onde predomina a lei e a ordem.
É neste momento histórico, que vê surgir a cidade-Estado grega, que possibilita um direcionamento do homem rumo à individualização; à racionalidade, à diferenciação, que nasce o teatro como forma estruturada, separada, distinta de outras formas de expressão. É aí que tem início a tragédia.

A Tragédia Grega

A tragédia nasceu do culto a Dionísio. Dionísio é o deus da renovação dos ciclos de nascimento e morte da vegetação que morre no outono e ressuscita na primavera, é ele que impulsiona a seiva na terra e nos homens. O termo tragédia significa, segundo alguns, o canto do bode e segundo outros, é assim chamada porque no início das festas a Dionísio, costumava sacrificar-se um bode em sua homenagem. Nas festas dionisíacas, após o festim:

“Todos caem fatigados. Quando as trombetas tocam, volta a ordenar-se o cortejo, que segue para o santuário de Dionísio. Em silêncio, o cortejo penetra no templo e agrega-se à volta da orquestra. Com solenidade, saem do templo doze dançarinos. Colocam-se à volta do altar erguido sobre a orquestra. Os flautistas tocam suavemente, eleva-se o canto e, uma vez terminado, soa a voz do corifeu. Invocam-se os deuses, lamenta-se a dor múltipla dos homens, até que a alegria de viver se apodera dos dançarinos. A felicidade e a paixão refletem-se no rosto dos que representam e dos que assistem”.(10)

Os devotos de Dionísio, ao entrarem em estado de êxtase, acreditavam sair de si. Esse sair de si, numa superação da condição humana implicava em ser possuído por Dionísio pelo processo do entusiasmo. O homem, em êxtase e entusiasmo, comungando com a imortalidade, ultrapassava o “métron”, a medida de cada um. Tendo ultrapassado o métron, tornava-se outro .
J. BRANDÃO (11) diz que:

“Essa sede nostálgica de imortalidade, preconizada pelos mitos de divindades da vegetação, que morre e ressuscita (Dionísio, sobretudo) chocava-se violentamente com a religião oficial e aristocrática da polis, cujos deuses olímpicos estavam sempre atentos para esmagar qualquer “démesure” (desmedida) de pobres mortais que aspirassem à imortalidade. Os deuses olímpicos e o Estado sentiam-se ameaçados, uma vez que o homo dionysiacus, através do êxtase e do entusiasmo, se libera de certos condicionamentos e de interditos de ordem ética, política e social”.

Segundo Brandão , o estado grego se apoderou da tragédia e a fez apêndice da religião política da polis.
Numa sociedade dividida em classes, as classes procuram recrutar a arte – a poderosa voz da coletividade – a serviço de interesses particulares. A antiga sociedade grega, pré-polis , veio a transformar-se em cidade-Estado e, sob a direção dos proprietários de terras, organizou-se numa sociedade de classes. No culto de Dionísio vem a destacar-se do coro da coletividade a figura do corifeu, que entoava hinos de louvor aos deuses. Nesta época, houve uma revolta dionisíaca de baixo para cima, a voz da antiga comunidade , que fora reduzida à servidão , se refugiava em sociedades e cultos secretos, protestando contra a violação e fragmentação da sociedade e contra a classe dominante.
O teatro grego marca não só o início do teatro como arte autônoma, mas também o nascimento do ator, daquele que se separa do coro dionisíaco e passa a falar na primeira pessoa – “EU DIONISIO” -. Essa passagem do coletivo para o individual, essa divisão dos papéis sociais e a capacidade do ator representar signos de sua época irão marcar profundamente o teatro e a sociedade.
Para NIETZSCHE (12), a tragédia é fruto de dois instintos diferentes: o Apolinismo e o Dionisismo, que caminham lado a lado, em estado de conflito. Apolo representa o princípio de individuação. Dionisio é caracterizado pela embriaguez, pela desmedida, pelo sentir as emoções. A psicologia dionisíaca é um sentimento de vida e de força, dentro da qual a própria dor se torna estimulante.
Na sociedade de classes privilegiou-se a razão, esta foi considerada superior à emoção, ao instinto, perdeu-se o contato com o corpo. Os instintos separaram-se, o corpo especializou-se. O apolinismo sobrepujou o dionisismo..
As artes surgiram de forma distinta quando passaram a imobilizar certos sentidos. O homem deixou de saber representar com o corpo tudo aquilo que sente. Foi preciso surgir o ator, o mímico, o bailarino, o músico, o poeta lírico, que formavam um todo e cujas partes vieram a se separar e especializar até a contradição.
Nietszche tenta retomar a importância do dionisismo. E crê que o melhor caminho para se readquirir o contato com o corpo, com as emoções, é através da arte. Ele considera que atualmente a expressão criadora que mais está em contato com a psicologia dionística é a expressão teatral. Acha que o comediante tem em mira a possibilidade do caráter grego dionisíaco, livre para sua metamorfose e para encarnar figuras diversas, que o manifestam escondendo-o e o dissimulam revelando-o.
Nietszche contesta a visão aristotélica da tragédia ao dizer que o herói é alegre, a tragédia não é uma evocação do temor e da piedade, não pretende purificar-se de uma paixão perigosa, suscitando a descarga veemente dessa paixão – tal como a entendia Aristóteles. Pretende, sim, exemplificar a alegria eterna do devir, alegria essa que está para além do temor e da piedade, uma alegria que compreende a alegria do aniquilamento.
Sócrates, Platão e Aristóteles introduziram uma nova visão do homem, ao privilegiarem a ordem e a razão, segundo Nietszche.
Aristóteles deu normas, regras à tragédia, moralizou a tragédia, que foi considerada como superior à comédia. Ao contrário de Platão, que condenava o “poeta mimético”, o ator, aquele que imita, que faz “mímesis” (imitação); Aristóteles aceita o ator trágico, mas para educar, para disciplinar.
Platão contestava a tragédia e a comédia por serem irascíveis, não controláveis pela razão.

“Quando o poeta está sentado no tripodo da Musa, já não é senhor de seu juízo: a modo de uma fonte deixa livremente correr o que lhe aflui e como sua arte é imitação, quando os personagens que ele compõe têm contrários sentimentos, crê-se forçado a contradizer-se a si mesmo, ignorando de que lado se encontra a verdade, entre as palavras que elas proferem”.

“… Ora, a parte irascível da alma é que se presta à imitação múltipla e variada… Portanto, justos motivos temos nós, para atacar o poeta mimético e confrontar com o pintor… visto que desperta, nutre e fortalece essa parte irascível da alma, e arruina a inteligência”.

“… espécie de possessão e delírio é o que vem das musas e arrebatam uma alma terna e casta, logo a desperta e transporta de furores báquicos”(PHAIDR). (13)

Aristóteles refuta a visão de Platão sobre a tragédia, e defende a sua existência. Mas para direcioná-la como purificação (Kátharsis) da paixões. As paixões devem ser canalizadas para serem vividas, por identificação, como o poeta trágico e… “uma vez satisfeitas nas condições daqueles gêneros poéticos, nos deixam imperturbados para o resto do tempo”. (13)

“… absurdo expulsar a tragédia e a comédia, pois com elas se pode satisfazer moderadamente as paixões, e uma vez satisfeitas, dispô-las para os fins da educação, se as sanarmos do que contêm de mórbido… “

“que o homem político também deve procurar alívio dessas paixões, também nós o diremos. Não, todavia, de modo a crescer e intensificar o gosto por elas mas sim, de modo a refreá-las e a dirigir-lhes moderadamente os impulsos”.

Aristóteles considera a comédia imitação dos homens inferiores, diz respeito àquela parte do torpe que é o ridículo, imita os homens piores. Já a tragédia, ele a considera a imitação de uma ação de caráter elevado, ela imita os homens melhores do que ordinariamente são.
Os textos dos gregos que conhecemos, até hoje são representados, mas não tem mais o mesmo impacto sobre o coletivo que na época antiga. O teatro na época ainda exercia a função de união dos valores, mentalidades, havia uma catarse coletiva, de integração com o público, havia uma unidade.
O predomínio da razão sobre a emoção, a subjugação das classes oprimidas pelo poder dominante, o cerceamento da liberdade são características que se intensificaram com o passar dos tempos. Mas sempre há um movimento de resistência, que busca o transe, a potência de viver.
Vemos no teatro grego uma modificação da função da arte, que era uma arma a serviço do fortalecimento da coletividade e uma via de expressão de tudo aquilo que os homens sentiam. Então, passa a estar a serviço dos interesses dos poderosos; as peças são censuradas e disciplinadas para dar alívio aos sentimentos considerados nocivos. Mas ainda é um meio onde se pode, em público, viver as paixões. Agora não mais o coletivo, junto em êxtase, mas por identificação com o herói.
Com a decadência do estado grego e com a ascensão do império romano, que foi um regime altamente hierarquizado, centralizado, repressor, a arte já não encontre o mesmo espaço. Predominava o pão e o circo para o povo.
Com a queda do império romano , com o advento do regime feudal, na Idade Média, as artes passam a ficar sob a influência da Igreja Católica.

O Teatro Cristão no Feudalismo

A união do feudalismo e da Igreja originou o nascimento de uma nova civilização: a da Cristandade. O cristianismo apresentou-se como uma saída à decomposição do mundo antigo e impôs uma nova religião universal. Ele passou a considerar todo o teatro pagão como um meio de corrupção do espírito e da carne.
LEON MOUSSINAC (14) conta que os cristãos, uma vez no poder, destroem todo teatro antigo, excomungando os atores, suas mulheres e descendentes.
IAN MICHALSKY (15) nos diz que o cristianismo considera a profissão do ator imoral pela própria natureza, pois o ator cede a sua personalidade aos demônios: a renúncia de si mesmo, a imitação de outros seres e a exposição em público do corpo batizado faz com que os cristãos vejam no ator um endemoniado ou um vendedor de alma. O teatro ocidental ingressa numa longa noite escura.
Durante este período de trevas, o que sobrevive são grupos de acrobatas e malabaristas ambulantes, que se exibem em feiras e outros locais de aglomeração popular, e os itinerantes menestréis.
JEAN DUVIGNAUD (16), diz que:

“Não se pode considerar a existência de atores nas sociedades da Idade Média. A profissão de ator não é diferenciada, confunde-se com múltiplas atividades lúdicas. Numa hierarquia e numa ordem que tem por modelo a ordem divina, não há lugar para o homem que não desempenha o papel imposto pela sua posição”.

O indivíduo desta época têm pânico diante da própria liberdade. A sociedade divide-se em ordens e cada ordem representa uma posição na hierarquia divina. Os papéis sociais são determinados e fixos, não há lugar para comportamentos livres. Assim, nesta sociedade o ator não tem espaço, pois ele representa condutas imaginárias, cria com o corpo e a palavra um universo de paixões e emoções que define uma imagem de pessoa que não se reduz à ordem estabelecida.
Com o passar do tempo, a Igreja começa a rever a sua posição e a admitir que não precisa contestar qualquer tipo de teatro, mas apenas aquele pagão.
Segundo MICHALSKI, bastará que o ator, em vez de representar heróis e divindades pagãs, passe a encarnar anjos, santos, apóstolos, para que sua missão volte a ser santificada. Começa assim o grande teatro cristão da Idade Média. Inicialmente era apenas pequenas dramatizações inseridas no ofício religioso. Os atores eram os sacerdotes. O Evangelho deu origem a uma liturgia dramática. Dela saíram o drama litúrgico, depois os jogos, os milagres e os mistérios. As manifestações deslocam-se do altar para a nave da igreja, para o adro, para a escadaria e para a praça pública. Os papéis passam a ser interpretados não só por sacerdotes, surgem as confrarias, formadas por burgueses e estudantes. Através das confrarias foram abertos caminhos para um teatro farsesco e de caráter profano.
A representação dos milagres agrupa todas as classes da sociedade numa participação e numa comunhão completas.
Parece-nos que, através do teatro religioso, as pessoas podiam entrar em contato com sentimentos de êxtase. Só que agora de forma diferente daquele êxtase vivido pelo coro dionisíaco da Grécia antiga. O êxtase do teatro cristão da idade média seria uma “viagem mística”, ao invés de uma “viagem sensual”. É como se toda energia, que está reprimida em vários campos de expressão (sexual, político, libertário, etc.), fosse canalizado para o lado transcendental, místico, espiritual.
Nesta época, há uma atitude de extrema submissão à autoridade. Autoridade era considerada: o Evangelho, o Imperador e os autores reconhecidos. Entre os autores reconhecidos está Aristóteles. Na Idade Média volta-se a ler os gregos, que haviam sido esquecidos e deturpados, durante o império romano.
UMBERTO ECO (17) em “O nome da rosa”, nos fala do medo que a Igreja Católica, neste período, tinha da valorização dos saberes dos simples, da liberdade, da perda do temor a Deus, da percepção do riso, da comédia, como força positiva. Ele nos passa essa idéia através de um personagem, um abade, que pretensamente teria escondido uma obra de Aristóteles: A COMÉDIA.
O abade argumenta:

“O riso é a fraqueza, a corrupção, a insipidez de nossa carne. É o folguedo para o camponês, a licença para o embriagado. Mesmo a igreja concedeu o momento da festa, do carnaval, da feira, essa ejaculação diurna que descarrega os humores e retém de outros desejos e ambições. Mas desse modo o riso permanece coisa vil, defesa para os simples. Mas aqui… a função do riso é invertida, elevada à arte, abrem-se-lhe as portas do mundo dos doutos, faz-se dele objeto de filosofia e da pérfida teologia. A igreja pode suportar a heresia dos simples. Seus desatinos nunca porão em crise a ordem divina. O riso libera o aldeão do medo do diabo, porque na festa dos tolos também o diabo aparece pobre e tolo, portanto controlável. Mas este livro poderia ensinar que libertar-se do medo do diabo é sabedoria. Quando ri, o aldeão sente-se patrão, porque inverteu as relações de senhoria. Mas este livro poderia ensinar a legitimar a inversão. Quantas mentes corrompidas poderiam entender que o riso é a finalidade do homem. A lei é imposta pelo medo, cujo nome verdadeiro é temor a Deus. A partir deste livro o riso seria designado como arte nova, para anular o medo. Este livro teria justificado a idéia de que a língua dos simples é portadora de alguma sabedoria”.

A preocupação do abade com o poder do riso mostra o início do desmoronamento dos valores feudais. Pouco a pouco, com a edificação de um tecido social coerente, é dado um impulso à reflexão crítica: por um lado, sai de cena a escola conventual da abadia e por outro, surgem os primórdios da universidade.
Além das modificações nas instituições escolares, na Igreja, nas relações com a Autoridade e a família, esta época vê surgir uma nova classe social: a burguesia.
A burguesia é constituída por mercadores e artesãos que habitavam as cidades e viviam de trocas. O aparecimento da burguesia como classe muda fundamentalmente a moral feudal.
Segundo ERNEST FISCHER (18), “a invasão do mundo feudal pelo dinheiro, pelo comércio, pelo lucro, irá desumanizar as relações sociais e desaparecer a estrutura da sociedade”. O comerciante e sua mercadoria passam a trazer para aquela sociedade a noção da alienação do produto em relação àquele que o produz e a noção do “eu” passa a ocupar o primeiro plano. Este momento é um marco importante na história da humanidade, em direção à individualização, à alienação.
O novo individualismo, entretanto, ainda se continha dentro dos limites de uma ampla armação coletiva. A partir desta época, profundas modificações irão acontecer na sociedade e a arte também irá sentir essas influências e contribuir para as transformações.
A burguesia apostará na restauração de um poder central forte, de uma autoridade monárquica capaz de lhe assegurar as condições propícias ao seu desenvolvimento. A nova comunidade urbana dominada pelos burgueses, constitui uma nova unidade territorial: a Nação.
Na nova sociedade, em que o capital ocupa o primeiro plano, em que a mais valia, o lucro, a acumulação pela acumulação, a produção pela produção são as novas palavras de ordem, o artista é transformado em produtor de mercadorias. A obra de arte foi subordinada cada vez mais às leis da competição.

“O capitalismo não é, em sua essência, uma força social propícia à arte. Ele necessita a arte como um bom investimento. Mas, ao mesmo tempo que era hostil à arte, favorecia o seu desenvolvimento, ensejando a produção de grande quantidade de trabalhos multifacetados, expressivos e originais”. E. FISCHER (19)

Na passagem da Idade Média para a Renascença, ao mesmo tempo em que inicia um maior profissionalismo no teatro, o teatro se torna instituição oficial, há também o nascimento de um importante gênero teatral, que irá influenciar profundamente, por muito tempo, o teatro mundial. É a:

Commedia Dell’Arte

A Comédia dell’arte é uma forma de teatro que atribuía ao ator uma responsabilidade e uma margem de criação que ele nunca tivera.
IAM MICHALSKY (20) nos diz que:

“Este gênero nasceu na Itália, a partir do reagrupamento dos acrobatas e comediantes populares que haviam atravessado as trevas da Baixa Idade Média e que continuaram funcionando paralelamente ao grande drama medieval religioso. Constituindo-se em pequenas companhias profissionais, eles passaram a apresentar-se inicialmente nas ruas e praças, só mais tarde conquistando acesso aos palcos. Não dispondo de elaborados recursos técnicos do teatro oficial, seus espetáculos teriam de depender quase exclusivamente das habilidades e do estilo dos atores.
A denominação completa do gênero é commedia dell’arte all’improviso. Trata-se de grupos de atores altamente treinados e hábeis; cada um dos quais especializava-se num determinado personagem-tipo, que reaparecia de uma peça para outra. Eles não recebiam textos completos para decorar, mas apenas roteiros básicos contendo as situações essenciais da ação. A partir destes roteiros, cada ator improvisava o seu próprio texto, enriquecendo e aperfeiçoando-o ao infinito ao longo da sua carreira.
Os atores interpretavam durante a vida inteira sempre o mesmo personagem-tipo e usavam máscaras que faziam parte de cada tipo.
Foi neste teatro que as mulheres, pela primeira vez na história, ganharam destaque, tornando-se atrizes profissionais e vencendo preconceitos que tornavam a profissão infamante para as mulheres”.

Espalhando-se da Itália para os países vizinhos, e posteriormente para toda a Europa, o gênero influenciou profundamente todo o teatro ocidental durante cerca de um século e meio, e muitos dos principais comediógrafos clássicos e inclusive muitos comediantes populares brasileiros e o nosso teatro popular foram influenciados pela commedia dell’arte.
Até hoje, o Carnaval europeu é profundamente influenciado por este gênero. Também influencia práticas terapêuticas atuais, tais como o psicodrama e o teatro terapêutico. Toda técnica teatral baseada na improvisação tem suas raízes na Commedia dell’arte.
Outro gênero de teatro que surgiu nesta fase de transição do feudalismo para o capitalismo foi o teatro educativo dos jesuítas, que foi sistematicamente desenvolvido durante a Contra-Reforma. E quando houve o descobrimento do Brasil, o teatro dos jesuítas foi o ponto de integração entre os índios e os colonos portugueses.

O Teatro Educativo dos Jesuítas

O teatro no Brasil iniciou de forma estruturada com os jesuítas. No século 16, quando foi descoberto o Brasil, o governo português sentiu necessidade de cultivar o espírito dos portugueses que aqui chegavam e dos índios.
CAFEZEIRO e GADELHA (21), nos contam que em 1553 chegou José de Anchieta ao Brasil e foi nosso primeiro dramaturgo. Segundo Anchieta, “os índios desconheciam qualquer religião e depois da morte não fazem outra coisa senão bailar”.
Os jesuítas, percebendo como os índios estimavam a música, a dança, o canto, as festas, os ritos e espetáculos e sentido a necessidade de se desenvolver uma linguagem gestual, uma mímica de expressão muito ampla, considerando o universo semântico cultural de tanto falantes, passaram a utilizar o teatro. O teatro foi a cartilha em que o Brasil aprendeu a ler.
O teatro de Anchieta trouxe uma tradição portuguesa. Aos colonos, recordava saudades e tristezas; aos índios o teatro iria mostrar uma nova forma de ritmo, de rito, novas danças, aquelas coisas pelas quais conseguiam se libertar das insatisfações e dos tormentos que os fenômenos naturais lhe causavam.
Os portugueses que aqui chegaram, encontraram hábitos e atitudes entre os índios, que nós poderíamos comparar com os que estudamos na antigüidade.
Nos dizem CAFEZEIRO e GADELHA (22):

“Daí que a mímica, os jogos cênicos, as danças e outras formas primitivas de representações instituídas em cerimônias eróticas, religiosas, estéticas ou mesmo políticas, em sentido mais amplo – são considerados elementos básicos de desenvolvimento da aprendizagem, na fixação de um saber. Por isso é que o teatro, saído desta necessidade de libertação do ser humano, tem uma função didática primitiva e natural. Como representação e saber estético, resulta de uma interiorização psíquica do contexto vivido e de uma projeção desse contexto. Confunde-se com a aquisição da linguagem”.

Esta linha de pensamento se aproxima em alguns pontos daquela desenvolvida por Jean Duvignaud ( conferir em Sociologie du Théatre, Paris, PUF , 1965). Para este autor, não é difícil encontrar formas de teatralização espontâneas. Ele entende que estas formas podem ser encontradas nas danças dos índios Zunis, nas celebrações do candomblé e do Voudu , nas danças chamânicas da Sibéria, nas festas que acompanham a Kula . Todas estas expressões são atos de dramatizações: aí representam-se os símbolos que encarnam a coerência da sociedade e a imobilidade de um tempo que escapa à história. Desta representação o homem tira a convicção repetida de sua existência e a confirmação de sua vida coletiva: certas sociedades não tem mesmo existência além destas dramatizações míticas.

A análise realizada pelos autores, confirma a de Fischer, onde vemos uma sociedade onde há o predomínio da cultura coletiva , onde estão interligados o mito, a magia, a arte, a linguagem, o conhecimento.
Com a chegada dos portugueses ao Brasil, passaram a conviver várias formas de expressão teatral: as férias dos índios, a festa dos portugueses e as peças dos jesuítas. Embora não houvesse uma forma mais estruturada, formalizada de teatro como um espetáculo oficial.
Enquanto, no século XVI, no Brasil, haviam essas formas mais espontâneas de teatro; na Europa, o teatro e a profissão do ator atingem uma grande oficialidade e profissionalismo que até então não tínhamos notícia.

O Teatro no Capitalismo

O teatro, a partir da Renascença, com o surgimento do Protestantismo e do Capitalismo, toma novos rumos. Estabelece-se o profissionalismo; o ator apoia os grupos e castas que compõem a burguesia.
Segundo JEAN DUVIGNAUD (23):

“É com as sociedades monárquicas que surge o ator profissional. E isso se dá porque nesta nova sociedade, pela alteração dos antigos comportamentos, é possível agora o aparecimento de condutas imaginárias não imediatamente expressas em ação”.

Para ele, os atores desempenharam o papel de intermediários entre as classes, exercendo a função de integração das mentalidades e valores.
Quando as monarquias centralizadoras, regionais, se impõem, surgem grandes transformações nas instituições econômicas, financeiras; a técnica e a industrialização modificam as estruturas tradicionais; surgem novas diferenciações em classes que levam à divisão social do trabalho, há uma intensa racionalização administrativa, uma ênfase na economia de mercado; há a ascensão de grupos burgueses ao poder. Essas mudanças ocasionaram modificações radicais na experiência coletiva e individual.
No ponto de transição entre dois tipos de sociedades que se sucedem na história, o aparecimento do personagem social do ator revela muito, dá a medida de uma participação em valores até então reservada a uma elite e mostra como a imitação ou a inter-relação dos modelos culturais pode tomar a forma de uma intensa manifestação social.
No período clássico a atividade do ator firma-se definitivamente como profissional. Surgem em diversos países escolas de interpretação.
O teatro torna-se autenticamente popular na Espanha e Inglaterra. Com popular quer-se dizer que conseguia sintetizar as preocupações e vivências de todas as camadas da população e reunir os representantes de todas estas camadas num mesmo espaço.
Também sobre este tema nos fala DUVIGNAUD (24):

“A atração exercida pelo teatro sobre as camadas sociais até então estranhas aos sentimentos e à condutas que ele implica supõe a imitação dos modelos aristocráticos por indivíduos oriundos da média e da pequena burguesia… há uma penetração recíproca de todas as consciências pelos modelos culturais até então reservada a uma elite. A decisão que leva um homem a tornar-se um ator fundamenta-se numa reivindicação: a que reclama a participação de todos os grupos e de todas as classes em um sistema de valor único e afirma a predominância da comunicação dos símbolos sobre a estreiteza dos grupos fechados”. (25)

Dois traços característicos expressam a situação social do ator nesse tipo de sociedade: o nomadismo e a transformação do ator em funcionário.
O nomadismo representou um papel decisivo na difusão da cultura e da moda, na irradiação dos modelos culturais.
Os comediantes ensinam para os provincianos que há paixões e sentimentos (que antes pareciam desconhecidos ou proibidos) e agora se tornam acessíveis. Diante da representação imaginária da experiência humana os provincianos despertam para novas necessidades, aprendem que existe uma liberdade cujo símbolo está no corpo visível dos comediantes.
O ator exerce a função de colaborar no aparecimento de uma participação universal em valores que representam o homem na totalidade de sua experiência.
Através da análise de Duvignaud, podemos ver a função que o teatro assume nesta época. Com a divisão em classes, com a divisão social do trabalho, com a ascensão do individualismo e do capitalismo, a sociedade cada vez mais se fragmenta, se aliena, se desumaniza. E a arte e, no caso, em especial o teatro, funciona como homogeneizador das mentalidades e como espaço para a manifestação de condutas imaginárias, para a fantasia, para a liberdade, para a conscientização de questões de sua época. Essa função, de reorganizar, de libertar, de conscientizar, o teatro irá desempenhar até nossos dias.
No século XVIII, a aristocracia será substituída pela burguesia, que toma a direção política do estado. É o século das Luzes. Este século verá profundas modificações sociais: a Revolução Francesa, as Guerras Napoleônicas, a Guerra da Independência Americana, a Revolução Industrial, etc. A noção de liberdade adquire um novo sentido, a vida intelectual toma nova orientação.
No final do século, as obras marcadas pelos sentimentos de ternura e moralidade, dão lugar a obras marcadas pelo individualismo. É o início do Romantismo. O melodrama atinge o auge da popularidade. O teatro ganha novo impulso.
FISCHER (26) nos diz que:

“O romantismo foi um movimento de protesto contra o mundo burguês capitalista, contra a prosa inóspita dos negócios e dos lucros. Em termos de consciência pequeno-burguesa, o romantismo foi, na arte e na filosofia, o reflexo mais completo das contradições da sociedade capitalista em desenvolvimento. O romantismo foi uma revolta pequeno-burguesa contra o classicismo da nobreza, contra as normas e os padrões, contra a forma aristocrática e contra um conteúdo que excluía todas as soluções comuns.

O romantismo não se opôs apenas ao classicismo, mas também, ao iluminismo e às suas idéias mecanicistas e às implicações otimistas”.

O artista romântico, contestando a sociedade capitalista, (que gerava sentimentos de isolamento, solidão, divisão, fragmentação, fragilidade, abandono), procurava revelar o coração humano, arremessando a dinamite das paixões contra a ordem aparente do disciplinado mundo burguês. A paixão relativizava os valores dos métodos capitalistas de produção e a intensidade da experiência aparecia como um forte valor.
A revolta romântica unia-se às lutas de libertação nacional. É nesta época que o socialismo vai travar seu primeiro embate, na Revolução de 1848. A idealização romântica do folclore e da arte popular tornaram-se uma arma para incitar o povo à luta contra condições degradantes. Segundo FISCHER (27):

“… em busca de uma unidade perdida, em sua procura de uma síntese da personalidade e da comunidade, com seu protesto contra a alienação capitalista, o romantismo descobriu as canções populares, a arte do povo e o folk lore e elaborou com eles o evangelho de uma entidade homogênea, organizadamente desenvolvida: ‘o povo’ (que era visto como uma essência independente da divisão da sociedade em classes). A arte do povo era visto como algo ‘natural’ “.

Para ele, o movimento romântico não conseguiu escapar de ser aquilo de que tanto fugiu: um movimento burguês.
Em toda Europa, nesta época, a classe operária começava a se erguer contra a burguesia. Mas os românticos isolaram-se da classe operária e escaparam do sistema vigente através de um passado feudal idealizado. A idealização do povo teve conseqüências reacionárias: atacou a burguesia, mas também atacou as manifestações da luta de classes.
O espetáculo de teatro é, nesta época, o único meio de integração para o operário, na vida coletiva. O proletário formou-se no isolamento e na solidão. O Mimo adquiriu uma importância enorme: o público procura na expressão dos gestos mudos uma linguagem de participação numa sociedade de que está excluído.
Para Duvignaud, os sinais e os símbolos que o ator deve utilizar, mudam com a pressão exercida pelo público e com a expectativa do público em relação ao comediante. O trabalho do ator, os sentimentos que expressa, os símbolos que representa, transforma-o em intermediário entre estes grupos. O teatro exerce uma função de homogeneização das mentalidades e de formação de uma sociedade coerente.
O romantismo alemão foi o precursor dos movimentos que mais tarde vieram a florescer, como o expressionismo, o futurismo, o realismo.
No Brasil, na época do romantismo surge um autor cujas características antecipam-se ao Teatro do Absurdo do século XX. Segundo Cafezeiro e Gadelha, Qorpo Santo ocupa a posição de vanguarda da vanguarda, antecedeu em décadas as idéias do teatro do absurdo. Ele produziu uma obra que colocou em choque estéticas e normas sociais, desafiando as regras do bem escrever, criando um mundo de imagens cheias de estranheza e perplexidade.
Nos dizem CAFEZEIRO e GADELHA :

“Certo é que Qorpo Santo em muito se distingue de seus contemporâneos e lança-se para um tempo radicalmente outro que não o seu. Traços que saltam à vista em seu teatro – e em sua poesia – situam-no entre aqueles que, no século XX, forçaram uma mudança de atitude em relação a noções como ação – aquilo que tradicionalmente se tem como espinha dorsal do teatro, próprio de seu modo de narrar. As dezessete peças de Qorpo Santo são fragmentos compostos de fragmentos que, tal como num calidoscópio, podem deslocar-se livremente e associar-se entre si , de modo a formar a cada vez novas combinações. “ ( 28)

“O princípio, o meio e o fim ( a ação , para Aristóteles) não são nada que se possa determinar no texto em si, mas na fruição do espectador. A noção de continuidade não é fixada por um enredo em que estas três partes se encadeiem. Dessa forma, o tempo: não é possível fixar as continuidades. Não se sabe exatamente quando ocorrem as situações, que , por sua vez, aparecem inteiramente despojadas da idéia de seqüência de fatos. O tempo, em Qorpo Santo, obedece , pois, à fragmentação da ação . E pode-se mesmo falar em ação? “ ( 29)

Cafezeiro e Gadelha entendem que ,em Qorpo Santo, a ação ( ou ausência de ) dá suporte a um sujeito que se dissolve e se desdobra. QS é personagem de QS( que é, por sua vez, personagem do autor ) e passa como um fluxo de identidade pelos outros personagens. Os personagens não se deixam apreender em definições claramente determinadas, são evanescências.
Em meu entender, Qorpo Santo também é vanguarda ao criar um teatro que não se vincula a um gênero ou a um estilo. Só se pode falar no teatro de Qorpo Santo. Essa virá a ser uma das características de Teatro Contemporâneo.

Aspectos Relevantes

Neste capítulo podemos ver como se transformou a função que a arte e o mito tinham em seus primórdios, quando sentiam como um fortalecimento da coletividade humana e como fator de integração com o cosmos. A arte, o mito, o trabalho, a religião faziam parte de um todo uno e total. A arte e o mito tinham a função de conferir poder, seja para enfrentar a natureza, seja para enfrentar o fantasma da morte. A partir desta época, começa uma gradativa diferenciação do homem em relação à natureza e depois dos homens em relação aos outros homens. Aí surgem as primeiras características do que veio a se chamar indivíduo. E para Freud foi através do mito que veio a dar-se essa separação.
A época em que surge o teatro grego, marca um ponto da história onde se concentram certas transformações que foram essenciais para o transcorrer de nossa história. Uma delas foi o nascimento da individualidade do homem. Podemos acompanhar essa fase pela história da tragédia, onde, de um coro onde todos, a uma só voz, chamavam a Dionisio, passou a haver vários personagens. Além do coro, surge o próprio Dionisio, que passa a falar na 1ª pessoa – Eu Dionisio -, e após, surge o protagonista, que se destaca do coro e passa a dialogar com Dionisio. Esta fase marca o nascimento do indivíduo, do ator e do teatro como arte autônoma, diferenciada do mito, da religião, do trabalho. O teatro tinha nesta época a função de catarse coletiva visando a purificação dos sentimentos indesejáveis, tais como as paixões, para que pudessem fluir as características nobres do homem, tal como a razão. Este fato marca outra divisão importante na formação da atual sociedade, que é a divisão entre a razão, que passa a ser privilegiada e a emoção, que passa a ser considerada indesejável.
O teatro então passa a ser subjugado ao Estado, por ele deve ser censurado, a ele deve obedecer. Esta divisão da sociedade, entre uma minoria que manda e a coletividade que deve obedecer, essa divisão de poder hierarquizado, estratificado, é outra marca que irá forjar os caminhos da humanidade. Essa nova forma de organização social, irá privilegiar a autoridade, a lei, o patriarcado, em detrimento dos antigos valores de igualdade, fraternidade, maternidade.
Com a ascensão do cristianismo, o teatro ocidental passa a uma coerção e proibição maiores ainda e representa uma repressão que havia em relação ao todo da sociedade. Os signos que podiam ser representados no teatro, aqueles da ordem divina, eram os mesmos que eram possíveis serem vividos e pensados pela população da época.
Com o desmoronamento dos valores feudais e a ascensão da burguesia ao poder, dá-se um movimento de desagregação da sociedade. O capital passa a ocupar o primeiro plano; ao invés da ordem divina, tem lugar a ordem do dinheiro. Isso irá desumanizar as relações sociais e alienar o homem em sua relação com o trabalho. O indivíduo passa a ter predominância em relação ao coletivo.
Nas sociedades monárquicas o teatro funciona como homogeneizador das mentalidades, como espaço para a manifestação de condutas imaginárias e para a conscientização de questões de sua época.
O movimento romântico contestou a sociedade capitalista e uniu-se às lutas de libertação nacional, mas isolou-se da classe operária, que começaria a se erguer contra a burguesia. Nesta época, o espetáculo de teatro é um dos meios mais importantes de integração para o operário, na vida coletiva.
Embora se observe em cada fase citada marcas que causaram modificações profundas na sociedade, na arte e no homem, pode-se até então falar de uma arte por estilo, ou gênero: pode-se falar de um movimento conjunto, uma direção determinada em relação à arte. Podemos ver algumas reações que certas características artísticas desencadearam na sociedade em geral.
Na sociedade e na arte contemporânea já não se pode mais falar em estilo ou gênero, nem em reações da sociedade como um todo.

4. – O TEATRO CONTEMPORÂNEO

A Arte no século XX vem a fragmentar-se e a pluralizar-se cada vez mais. Aquela unidade de linguagem que encontramos no passado cada vez se torna mais distante. Durante séculos as artes se inscreveram em um mesmo estilo fundamental, tudo era feito neste estilo e não podia haver o menor deslize em relação a ela. No teatro da Idade Média, no teatro barroco, no teatro elizabetano, havia uma profunda unidade da linguagem, que correspondia à sua consonância radical com o mundo, com a sua época. Gerd Bornheim, em seu artigo, “Os Caminhos do Teatro Contemporâneo” (30), faz uma análise desta questão afirmando que:

“Em nossa época não há mais possibilidade dessa experiência de unidade, tudo se faz no plural e há uma fragmentação que tende a expandir-se no infinito. Essa pluralização se dá em diversos níveis em diversos pontos. O da dramaturgia, por exemplo. Exige-se que o dramaturgo hoje ofereça o seu estilo próprio e inconfundível. Hoje não se consegue aceitar aquela unidade à maneira antiga, pareceria insuportável”.

Outra tendência que se pode notar é a da dissolução geral da forma. Hoje monta-se de tudo, todas as formas são experimentadas, monta-se a totalidade da dramaturgia universal e começa-se a perder o senso da necessidade histórica da forma.
Também a realidade do ator já não pode ser mais o que era no passado. A mistura dos gêneros, o fato de que interpreta tantos, das mais diversas épocas e culturas, tudo isso exige do ator um trabalho inédito. Surgem então as escolas de arte dramática, que dão formação ao ator, que agora deve dispor de uma técnica universal.
A partir da nova situação do ator, surge a necessidade de um novo personagem, o diretor de cena. No passado, enquanto função autônoma, responsável pela unidade do espetáculo, ele não existia. Hoje, exige-se do diretor que tenha a sua linguagem própria, que ele seja um criador, um artista. O diretor se torna o principal artista do espetáculo; inventando uma linguagem cênica, ele se faz responsável pela unidade do espetáculo. Agora a unidade do espetáculo só pode existir de modo artificial, ou seja, como arte.
A missão do diretor é estabelecer sobre o palco uma linguagem o mais original possível. No teatro antigo, tudo já era sabido pelo público. Isso acompanhava o caminho da sociedade, que era essencialmente repetitiva, as estruturas sociais desconheciam mudanças drásticas. Mas o público burguês começou a mexer na estaticidade daquelas estruturas; a repetição o aborrece, ele sonha com um outro mundo, novo. E é o novo que ele quer em cena, ele quer a surpresa, o rompimento da monotonia.
Hoje, o homem de teatro já não é mais dramaturgo e o dramaturgo já não é mais o homem de teatro. A idéia de espetáculo já não coincide necessariamente com a do texto e é a criatividade do diretor que passa a ser o elemento essencial do espetáculo.
Este processo de repensar radicalmente o fato cênico, com os protocolos, a gramática compositiva, as leis de organização cênica estabelecendo-se de modos específicos, levam os homens de teatro a preocuparem-se com uma nova questão: o que é a essência teatral.
Em busca de uma resposta para esta questão, vários diretores teatrais desta época vêm a formular inovadoras teorias que procuram suprir alguns ângulos deste imenso prisma que é a realidade novecentesca. Cada uma destas teorias retrata alguns aspectos desta fragmentada sociedade contemporânea.
No século XX, as sociedades passam a dividir-se em sociedades capitalistas e sociedades socialistas. Nas primeiras, impera a ideologia individual em relação à coletiva. Na Segunda, predomina a ideologia coletiva em detrimento da individual. A Revolução Russa vem a marcar o ponto inicial de uma profunda transformação social que passa a se dar no mundo todo e marca mais uma fase da luta de classes: ascensão do proletariado.

O Teatro Socialista na Rússia

Após a revolução de outubro de 1917, a arte européia passa a ser rejeitada pelos russos, que a consideram uma arte burguesa decadente. No novo teatro socialista, as funções fundamentais são o teatro de agitação e de propaganda de um lado e o teatro demonstrativo ilustrativo de outro.
Nesta época, o teatro de massa (que havia sido utilizado pelos burgueses na Revolução Francesa) ressurge com grande força e impacto. “A tomada do Palácio de Inverno”- arquétipo da força imbatível dos soviéticos – se configura como o espetáculo mais representativo da vida russa no teatro de massa.
A palavra teatro deixa de ser pronunciada pela “Escola Técnica de Ação de Massa” e a disciplina histórica do teatro é substituída por uma nova ciência que se ocupa dos exames estatísticos, cronométricos e estudos dos reflexos das massas. Estrutura-se um projeto que visa a dissolução do teatro, da arte em si e instaura-se uma disseminação do “agir teatro” na massa proletária. É um projeto de construção de uma arte proletária que, enquanto proletária, não é mais arte, mas vida. Prega-se a organização científica do trabalho, a racionalização dos movimentos na vida de todos os dias. ANATOV solicita aos companheiros diretores que abandonem o palco cênico e andem pela vida a ensinar os métodos de edificação universal, social e a montagem na vida quotidiana.
KERZENCEV (31) elabora um documento onde divulga os princípios, regras e normas do novo teatro proletário:

“A criação do novo teatro proletário deve ter início localmente, nos distritos, para estimular os laços de parentesco e se chamará ‘teatro de vizinhança’. O teatro de vizinhança nascerá entre vizinhos de um quarteirão proletário, operários da mesma oficina, da mesma profissão, etc.”.

Ao mesmo tempo em que proliferam o teatro proletário e o teatro de massa, surgem novas pesquisas teatrais voltadas para a integração com a nova realidade soviética. O “teatro das atrações” situa-se entre estas pesquisas. Segundo EJZENSTEJN (32):

“Fazer o espetáculo do ponto de vista do “teatro das atrações” significa descobrir a força exasperante da emoção e organizá-la após em atrações em ordem crescente na direção à descarga final da emoção em função do objetivo pré-fixado (a ‘montagem das atrações’)”.

Segundo ERNST FISCHER (33):

“O realismo socialista implica uma concordância fundamental com os objetivos da classe trabalhadora e com o mundo socialista, ele antecipa o futuro. A arte socialista requer sempre novos meios de expressão, para representar novas realidades. Usa-se diversos tipos de expressão a fim de que a arte reflita uma realidade infinitamente diferenciada”.

O TEATRO EUROPEU

Algumas buscas que encontramos no teatro russo, tal como a relação entre a arte e a vida, também vamos encontrar no teatro da Europa capitalista. Mas na última, esta busca se dará de modo fragmentado, pluralizado. Podemos falar, não mais em gênero, mas em movimentos e autores teatrais, que trazem as mais diversas contribuições. No teatro novecentesco, vemos surgir expressões as mais diversas coexistindo no mesmo espaço. No mesmo século, vemos surgir um Stanislavski, que procura, com seu naturalismo, um extremo realismo (mas um realismo diverso daquele da arte soviética); também vemos aparecer trabalhos como o dos simbolistas, que lidam com o sonho, com o simbolismo, com a imaginação; assim como há o expressionismo, que busca a integração do homem com o cosmos.
Ernest Fischer chama a atenção para a alienação, o niilismo e a desumanização que tomam conta da arte capitalista do século XX. Para ele, é preciso um elevado grau de consciência social para se distinguir entre as dores da morte e as dores do parto da transformação social. O homem na sociedade capitalista, levado pelo sentimento de alienação, entra em desespero e adota uma posição niilista. O niilismo traduz a convicção de que a existência é insuportável, o mundo está perdido e não tem possibilidade de transformação futura. Para Fischer, na arte burguesa, o homem se torna um objeto entre objetos. Com o impressionismo, o ser humano foi dissolvido em luz e cor e tratado com fenômeno natural idêntico a qualquer outro. Ou então sofre deformações, com o expressionismo, tal qual o desmantelamento de um mecanismo, sendo transformado em marionete, em robô, alienando-se; o homem adquire consciência de si mesmo com um fetiche, um boneco.
Um movimento surgido no início do século que marca profundamente o teatro até nossos dias é o:

NATURALISMO

O naturalismo celebra o ato de nascimento da cena moderna. Para UMBERTO ARTIOLI (34):

“Há uma busca obsessiva da naturalidade, de fazer fluir no palco cênico a vida em sua dimensão cotidiana. Estabelece-se a convenção da quarta parede, buscando que o espectador se esqueça que está no teatro. O espectador desempenha o papel de um intruso que espia como que pelo buraco de uma fechadura. Ele é, enquanto presença invisível ao ator, o silencioso testemunho do palco cênico como espaço fechado, como um lugar onde não se imita a ação, mas se vive uma ação”.

Artioli entende que, no naturalismo de Stanislavski , a essência do teatro está no ator. Ele cria um ‘sistema universal’, capaz de assegurar ao intérprete o controle das emoções. Segundo Artioli :

“A premissa da psicotécnica stanislavskiana nasce da solicitação de um sistema capaz de aliviar a anormalidade da condição do ator, pressionado a abster-se da própria personalidade para endossar o espaço de uma partitura psicofísica estrangeira. A criação do ator é atrelada à ação de forças inconscientes, as quais não se pode conhecer internamente, mas somente seus efeitos”. (35)

Para Stanislavski, o ator deve agir indiretamente sobre a emoção, através da “memória emotiva e do pensamento.Na primeira fase de seu trabalho, ele dá mais atenção à reconstrução interior do ator e à relação entre a personalidade do ator e a do personagem. Mais adiante, ele passa a dar ênfase à ação física.
Segundo Fischer, o naturalismo é uma forma radical de realismo. Para alcançar uma interpretação realista, Stanislavski sistematizou uma técnica capaz de criar condição favorável para surgimento da inspiração, por meio da vontade. Para criar tal condição favorável elaborou centenas de exercícios que possibilitam a capacidade de concentração, de atenção, de solidão em público do ator, levando em conta que a emoção teatral tem códigos internos que a distinguem da existência em si. Stanislavski montou inúmeras peças do teatro chamado psicológico. Ele pertence a uma época que verá o desenvolvimento da psicanálise, da psicopatologia, do exacerbamento da subjetividade. Será influenciado e influenciará seu tempo.
Jacob Moreno, criador do psicodrama, tem como uma das bases para seu trabalho, a técnica do ator stanislavsquiano. Ele trabalha com a identificação do espectador com o personagem, que através da catarse das emoções, se aliviará de suas tensões e sofrimentos, tal como no teatro grego.
Apesar de todas as transformações e experiências porque passou o teatro moderno, o método de Stanislavski é ainda hoje muito usado em toda a cena teatral. Mas o teatro atual também é marcado pela influência de outros movimentos:

O SIMBOLISMO

O simbolismo busca o ponto de partida da escritura dramática; direciona-se para uma “reteatralização”; realiza uma revisão global do conceito de representação. Segundo Atioli : (36)

“O simbolismo é demarcado pela magia encantatória, pela relação com o supra sensível, com base em uma imaginativa individual que se torna caixa de ressonância de uma palavra que fala, não da linguagem da psicologia, mas da polivalência fantástica do sonho”.

Neste movimento, há a busca de uma expressão que ultrapasse a corporeidade e se inscreva em uma escritura capaz de constituir-se em signo puro, em idéia. A entonação do ator é conduzida em um registro monocorde, negando as tonalidades emotivas.
O princípio guia é desmaterializar o ator, transformando-o em neutro portador de uma palavra soberana. Impõe-se uma gestualidade congelada, de desvitalizada marionete. Feita de movimentos pausados, de trajetória lenta, como se esta lentidão quisesse condensar toda a possibilidade de significação. Formula-se a hipótese de um teatro-quadro. A nova palavra de ordem é estilizar, assumir a imagem cênica como uma partitura de linhas e cores.
O simbolismo pesquisa as leis específicas da teatralidade.
Dois nomes representativos deste movimento são Craig e Appia.
Craig trabalha com a supermarionete, que é uma antítese das características emocionais humanas; ele busca o inorgânico, os atores são colocados na função de materiais; seu espetáculo é confiado no jogo de formas puras e volumes em movimento.
Para Appia, o corpo do ator, enquanto função musical, vem a ser o elemento com o qual conforma-se a composição cênica.
Umberto Artioli nos diz que: (37)

“Por seu sublinhar o ritmo orgânico, pela sua projeção do corpo do ator como tangível metáfora do corpo social, pela utopia de um socialismo estético, a visão de APPIA transborda os limites da representação para fazer do teatro o lugar de culto de uma sociedade que pretende celebrar o próprio caráter comunitário”.

Essa desumanização, essa desvitalização da pessoa humana retrata a sociedade onde esse homem está inserido, e essa expressão anti-emocional, anti-humana irá se desenvolver entre vários autores e diretores teatrais contemporâneos.
Outra questão que aparece no nosso século é o trabalho do corpo do ator. Há muitos modos de representar, de acordo com cada movimento teatral. Mas todos buscam o controle total do ator em relação a seu corpo. Sua recitação deve funcionar como um mecanismo de relógio.
Ao mesmo tempo em que surge no teatro essa tendência à desvitalização, ao ator marionete, surge também um movimento que busca a unidade originária, a integração com o todo, a união da coletividade. Esses dois movimentos estarão presentes em toda expressão da sociedade moderna.
Fuchs é o representante desse movimento cósmico, que foi chamado:

O EXPRESSIONISMO

Para UMBERTO ARTIOLI (38):

“A cena fuchsiana é já, expressionisticamente, o espaço da redenção que atravessa a Paixão, sagrado recinto onde se renova a vida regredindo à unidade originária. Para Fuchs, o coro não é só o símbolo da coletividade reunificada: o ritmo orgástico que o anima é também o signo da fusão com o espírito do mundo, que é fluxo heraclitiano, força sempre renovada. Tal força é inserida no coração e no sangue do homem, fazendo do ator o portador do divino e do espectador a figura no qual o divino se manifesta”.

Tal linha de pensamento está de acordo com os princípios do expressionismo, que volta a revivificar o ânimo (isto é, o núcleo animado, vivente, participante do princípio de energia cósmica) do espectador.
O teatro de Fuchs é construído sobre o ritmo e sobre a dança; o ritmo, para ele, é o instrumento através do qual o homem, enquanto individualidade finita, experimenta seu retorno ao todo. O palco cênico é o microcosmo onde se realiza o jogo do mundo.
A partir de certo momento histórico, já nem se pode falar mais em movimentos, passa-se a falar em autores, isoladamente.
Entre os autores que tem fundamental importância para o teatro contemporâneo está:

ANTONIN ARTAUD

Artaud exerceu muita influência no teatro ocidental, mas mais por sua teoria que por sua prática. O que escreveu é estudado por pensadores das mais diversas áreas de conhecimento. Mas em sua prática, não obteve o mesmo sucesso. Artaud foi influenciado pelo surrealismo. Seu teatro busca uma relação direta, intensa com a vida. Ao contrário de alguns contemporâneos, que trabalham com o anti-emocional, ele procura a vida intensificada, a consciência do drama que aflige os homens. Seu teatro surge como lugar de inovação do mágico, como cerimônia coletiva onde se celebra o rito da unificação das forças conscientes e inconscientes.
Para Artaud, o ator é um atleta do coração.
Em “Manifesto por um Aborto de Teatro” (1927) ARTAUD (39) diz:

“Nós concebemos o teatro como uma verdadeira operação de magia. Nós mostramos aos olhos aquelas emoções diretas da alma; aquilo que procuramos produzir é uma certa emoção psicológica capaz de meter a nu os mecanismos mais secretos do coração”.

Ele procura a sinceridade vital, atingir não só o espírito ou os sentidos do espectador, mas toda a sua existência.

“O espectador irá ao teatro como vai ao cirurgião ou ao dentista. Com o mesmo estado de ânimo, sabendo que não morrerá, mas que se trata de um ato perigoso e que não sairá intacto dali: o espectador deve saber que estamos em grau de fazê-lo gritar”.

Em “O Teatro e a Peste” ele diz que: (40)

“Como a peste, a representação teatral é um delírio e é comunicativa; como a peste, o teatro é um formidável apelo às forças que conduzem o espírito às fontes dos seus conflitos. O teatro é essencial como a peste, não porque é contagioso, mas porque como a peste é revelação. O ator, assim como o pestilento, é inteiramente penetrado e transtornado pelos próprios sentimentos, ele se lança à pesquisa da própria sensibilidade, inventa intempestivamente seus personagens. O teatro, como a peste, se situa no plano de uma autêntica epidemia, ele existe para furar abcessos coletivamente. A ação do teatro, como a da peste, é benfazeja, pois levando os homens a se verem como são, faz cair a máscara, põe a descoberto a mentira, a tibieza, a baixeza, o engodo; a ação do teatro sacode a inércia que asfixia os sentidos e revela para as coletividades seu próprio poder obscuro, sua força oculta, convidando-as a assumirem uma atitude heróica”.

Alain Virmaux, em “Artaud e o Teatro” diz que Artaud visa nada menos que a restruturação integral da condição humana. Teatro metafísico cujo objetivo é duplo: exercer um papel terapêutico e empreender uma recriação. Funções estreitamente ligados entre si. Ele cita Artaud (41):

“Proponho restabelecer no teatro essa idéia mágica elementar, retomada pela psicanálise moderna que consiste em fazer com que o doente assuma a atitude exterior do estado ao qual desejaria conduzí-lo, para assim obter a sua cura”.

“Mas a exteriorização dos sentimentos, a reativação dos estados estáticos, o recurso à alucinação, ao transe, não devem implicar numa total desintegração de si: só a manutenção de um resíduo de consciência pode permitir o domínio do homem sobre as forças naturais”.

Ao entrar em contato com os bailarinos balineses, passa a ser profundamente influenciado por eles. Dedicou muitos estudos sobre o teatro de Bali e passa, de um teatro onde impera o acaso, a espontaneidade, o improviso, o imprevisto, que trata do sonho como idéia base; para uma pesquisa da ciência do corpo, para a busca de um sistema organizado sobre a ciência. Uma ciência tão exata quanto possível relativa aos recursos do corpo, aos efeitos da luz e do som sobre os corpos.
O ator do teatro balinês, ao entrar em transe, tem controle sobre suas ações. Cada gesto ritual é passado de geração em geração, há precisão em cada movimento, significação em cada gesto, representação de símbolos em cada ato vivido pelos atores. E o coletivo dos membros daquele grupo participa do transe que vivem os atores.
Essa procura por uma ciência do corpo iremos encontrar em todo o teatro moderno, mas de formas diferenciadas quanto à orientação, quanto à política do corpo. Se em Artaud o corpo do ator deve ser estudado, trabalhado para que possa atingir a sensibilidade plena, a expressão total dos sentimentos, o êxtase, o transe; já no teatro Brechtiano o ator deve buscar desenvolver o senso crítico no espectador.
Aí temos as duas funções primordiais do teatro: a catarse e a reflexão crítica. Brecht e Artaud simbolizam, no teatro moderno, essas duas tendências.

BRECHT

O teatro de Brecht surge em uma época que vê aparecer a força do operário na arte. Com o surgimento do teatro operário na Rússia e Alemanha, o local tradicional dos espetáculos, o palco cênico, dá lugar a um teatro que tem por lugar as ruas, as fábricas, as aldeias.
Para Brecht, a arte teatral deve oferecer ao espectador representações da consciência humana, de modo que seja possível organizar um posicionamento crítico frente aos fatos representados. A arte teatral deve ajudar a transformar o mundo. Para isso, torna-se necessário uma reforma radical da técnica teatral tal como tem sido realizada.
Ele questiona Aristóteles e seu conceito de Katharsis. Segundo ele, a catarse em Aristóteles é a purificação do espectador do temor e da compaixão, mediante a imitação.
Tal purificação vem seguida da identificação do espectador com os personagens imitados pelos atores. Tal identificação tornou-se hoje um obstáculo para a função social da arte representativa. Hoje, a personalidade singular deve ceder a própria função às grandes coletividades. Ele transforma a função social das emoções. Pensa que podemos realizar um espetáculo que renuncie à identificação e que permita uma tomada de posição na qual o lado sentimental concorde com o lado crítico.
Segundo UMBERTO ARTIOLI (42):

“O teatro brechtiano, enquanto serviço social deve afastar-se dos valores místicos e religiosos, fundo de envolvimento emotivo e de perda de lucidez intelectual. Brecht cria o que chamou ‘efeito de distanciamento’ para que a total identificação do ator com o personagem não se processe, pois o público o seguiria por este caminho e, tomado pelo ponto de vista emotivo, excluiria qualquer problematização da figura dramática. Ao contrário, colocando a nu o caráter convencional do evento cênico, treinando o personagem de modo a citar a partitura, ao invés de vivê-la diretamente, o ator brechtiano entra e sai do papel, evidenciando a própria imitação, a própria reserva. Neste processo de auto-estranhamento, mediante o qual o intérprete observa a si mesmo no ato de recitar, o espectador recebe o estímulo, decodifica a cena e assim promove a atividade crítica”.

A epicidade do seu teatro consiste em manter entre evento e oposição de sujeito e objeto, o diafragma da distância. Ele busca o efeito de distanciamento através de alguns artifícios tais como a transposição do diálogo à terceira pessoa, ao tempo passado e a pronúncia em voz alta das legendas e comentários. O encontro entre o ator e o público deve ser o mais franco e direto possível. O ator deve simplesmente comunicar, apresentar alguma coisa. Brecht elimina a “quarta parede” propagada por Stanislavski. Para Brecht, o ator não deve limitar-se a fornecer ao espectador a ocasião de viver uma experiência, mas também deve dar-lhe a oportunidade de adquirir uma cognição. O teatro tem a dupla função de divertimento e de ensinamento.
Brecht vê a função da arte teatral profundamente interligada com as funções sociais. Tal como na arte socialista, o seu teatro privilegia o coletivo em relação ao individual. A luta entre estas duas tendências: o individualismo em confronto com a coletivização da experiência humana, iremos encontrar em todo o teatro moderno.
Muitos outros prismas dessa relação homem/sociedade serão abordados por vários autores. Entre eles , alguns críticos determinaram através de alguns pontos em comum, a classificação no que veio a se chamar:

O TEATRO DO ABSURDO

O teatro do absurdo é imbuído da filosofia do após-guerra. Considera-se que pertencem a este teatro diferentes autores tais como: BECKETT, GENET, IONESCO, KAFKA, SARTRE.
Segundo JEAN PIERRE SARRAZAC (43):

“Entre os pontos comuns deste teatro, encontramos a idéia do trabalho mortífero que a linguagem realiza, tornando-nos mais falados que falantes. Somos inconscientemente atravessados pela linguagem e nos situamos em um trágico isolamento nesta linguagem”.

Os personagens de Ionesco são reduzidos a autômatos. No teatro de absurdo, os personagens se dilaceram num novo inferno dantesco, torturam-se incessantemente. As relações inter-individuais extrapolam o conflito ao infinito. O espaço externo é apresentado como invasor, devorador; não é dotado de um valor social e político preciso, há uma ausência de sociabilidade.
Este tipo de teatro é questionado por alguns críticos de formação marxista, por não trazer qualquer proposta de transformação social, de crença no futuro; por ser alienado e niilista. Já outros críticos vêm imenso valor no teatro de absurdo, por retratar com criatividade a realidade em que vivemos e por denotar uma pesquisa da linguagem e da estética teatral originais.
Para ADORNO (44):

“… Beckett é mais realista do que os realistas socialistas, que falsificam a realidade em virtude do seu princípio. Se eles tomassem esta realidade suficientemente a sério, aproximar-se-iam do que Lukács condenou quando, durante a sua detenção na Romênia, declarou que sabia agora que Kafka era um escritor realista”.

Se na década de 50, o que predominou no teatro foram expressões individuais, niilistas, descrentes da participação social, marcados pela filosofia do pós-guerra; na década de 60 vimos surgir no mundo todo movimento de participação social, de busca de coletivização da experiência. A música teve um importante papel de transformação social nesta época. No teatro, um dos grupos que buscam essa participação com o coletivo foi o:

LIVING THEATRE

O Living Theatre foi fundado por Julian Beck e Judith Malina, em Nova York. Seu objetivo é: “Fazer do teatro um lugar de experiências intensas, que leve o espectador a uma compreensão de si mesmo e a um conhecimento da natureza das coisas”, nos diz BECK (45). O teatro não deve ser separado da vida e das convicções pessoais. Seus primeiros espetáculos eram happenings, a maior parte não verbal, não interligados por trama ou narração. A criação coletiva, a não separação do espaço dos atores e dos espectadores, a consciência política, e outros fatores existentes nestes happenings irão influenciar todo o teatro experimental dos anos 60.
ALAIN VIRMAUX (46) , ao analisar alguns autores do teatro contemporâneo conclui que:

“Living Theatre e Grotowsky têm muitas coisas em comum com Artaud, tais como a valorização da expressão corporal, o abandono do ‘trampolim que era o texto’ e uma passagem para sua utilização ‘como material para construir o som’, a pesquisa de uma linguagem física, fundada sobre o corpo do ator e que o leva ao transe; uma modificação radical e constante da relação palco-platéia; a idéia de representação como uma cerimônia sagrada. Mas seria falso colocá-los no mesmo saco, pois metodologicamente eles diferem, cada um tem sua característica particular.

Artaud é anarquia e explosão, Grotovski é artesanal e rigoroso. O Living Theatre cultiva uma provocação ativa do público, Grotovski provoca o público de forma apenas indireta”.

Entre os autores teatrais que surgem na década de 60 e que trouxeram inúmeras contribuições para o teatro contemporâneo encontra-se:

JERZY GROTOWSKI

RENATA MOLIENARI (47) nos diz que:

“Grotowski evidenciou em nossa época um novo significado para o teatro. Ele fundou o Teatro Laboratório – o Instituto para a Arte do Ator, em 1965, onde pesquisou um modo diverso de ser no teatro e alargou a brecha no muro que assinalava os limites do teatro, construindo um espaço para as novas exigências da nossa realidade”.

Em 1968 publicou “Por um Teatro Pobre” que influenciou todo o teatro ocidental. ALAIN VIRMAUX (48) diz que:

“Em Grotovski, o trabalho corporal do ator é concebido como uma técnica de despojamento absoluto: o ator ao desempenhar deve fazer uma doação total de si mesmo. Ele busca o confronto com nossos tabus interiores. O teatro é visto como um ato de transgressão, com a esperança de ‘arrancarmos a máscara, despojando-nos de um território íntimo, habitualmente inviolável’. O teatro é um ritual, uma religião sem religião”.

Nesta busca de um teatro pobre, ele orienta-se para um despojamento de todas as técnicas: cenografia, iluminação, projeções, música, maquilagem e centra suas pesquisas no ator, único elemento fundamental do teatro. O ator de Grotowski não deve recriar o personagem, mas se descobrir através dele.
Grotowski, tal como outros autores de nossa época, vai estudar os rituais, as representações nas sociedades primitivas. Ao estudar o rito vodu, chama a atenção para a organização, para o sistema preciso de signos que é conhecido por parte de todos os participantes.

“Nos ritos primordiais tudo é bem codificado e conhecido por todos antes de iniciar, desde quando se é uma criança. Há uma série de sistemas, de escolas, de ritmos diversos de tambor e um modo preciso de dominar os tambores. Quando se dá o transe e a possessão, durante o ritual, é baseada em toda uma articulação que é conhecida tradicionalmente. A pessoa é possuída por um deus, um ‘mistério’ preciso, segundo certas regras, e cada ‘mistério’ faz sempre coisas muito precisas”. (49)

Em cada linguagem certas coisas são codificadas de determinada maneira. Mas a primeira linguagem de nossa vida define a nossa “Mind Structure”. Há diversas “Mind Structures”, e diversas imagens do corpo, assim como diversas imagens do mundo. Na cultura ocidental, agimos como se estivéssemos divididos em duas partes: uma parte vigia a outra; não testemunha, comanda a outra parte.
Grotowski passa a desenvolver trabalho e pesquisa teatral onde aplica “técnicas nascentes”. Para explicar melhor o seu “teatro nascente”, ele fala dos processos. Há o processo orgânico e o processo artificial. O processo artificial se funda sobre os sistemas de signos, que se repetem em ordens diversas. O processo orgânico existe junto às técnicas artificiais como um estado de concentração, de energia, de decisão. No processo orgânico, não há uma divisão do homem, ele está unificado e em situação de alerta, “… observa o que respira, o que bate, como pulsa, percebe como todo o corpo vive, ao redor do coração, respira-se para lavar o coração. É como observar a vida. É a vida, é o testemunho e é o alerta. A coluna vertebral é ondulatória, vivente, mobilizável. Além do processo artificial e do orgânico, ele faz a diferenciação entre a transe sã e malsã. Nos fenômenos de transe sã, o grau de vigilância, o estado de alerta é muito alto. A pessoa que entra em transe malsã perde toda sua vigilância e faz movimentos que ferem, bate nos outros, machuca-se, entra em estado como que de sonambulismo, como no sonho. A consciência na transe sã está acordada, ela é como que transparente.
Tanto no ritual quanto no teatro existem o processo orgânico e o artificial, existem a transe sã e a malsã, e também pode existir uma ausência de transe. Em Brecht, há uma pesquisa de evitar a transe e de demonstrar cada coisa como ação fria e precisa e isso funciona.
No teatro realista imerso no método de ações físicas de Stanislavski, podemos ver o processo orgânico pleno, mas não é um estado de transe e também funciona.
Outra questão é a da técnica pessoal e a da técnica inter-humana que ocorre seja no teatro de participação, seja no teatro de espetáculo. Stanislavski foi quem dissociou primeiramente estes dois aspectos. Ele falou da psicotécnica do ator, no sentido de um trabalho sobre a própria psique, sobre o si mesmo do ator e a distinguiu do trabalho sobre o personagem. O trabalho sobre o personagem é o trabalho para um fenômeno inter-humano que é o espetáculo; o trabalho sobre si mesmo diz respeito à técnica pessoal, embora tenha seu aspecto inter-humano.
Se vemos um ator que prepara um monólogo, está no espaço de uma ação inter-humana, porque trabalha sobre uma obra que é, pela natureza do teatro, inter-humana; o espaço vazio, em verdade, é povoado de pessoas que não estão presentes.
Todo trabalho que tem por objetivo a expressão, a comunicação, é inter-humano.
A expressão pode estar baseada no processo orgânico ou no artificial; mas toda técnica inter-humana, seja isso um espetáculo ou uma ação de participação, é expressão.
Quando fala da consciência transparente, Grotowski não está se referindo à consciência como é considerada na nossa cultura. No mundo ocidental, a consciência é ligada aos processos mentais e isso faz com que o ego seja o centro da consciência, mas é um centro que é extremamente ligado aos condicionamentos da educação e das condições sociais. A consciência transparente é uma abdicação do ego. O ego está sempre ali, mas começa a perceber-se um outro espaço muito mais amplo.
Para ele, se quisermos atingir o estado da consciência transparente, devemos entrar neste processo de maneira fria. Quanto estamos em poder de certas emoções, a nossa consciência está longe de ser transparente. Então devemos manter uma certa distância destas emoções, para que não sejamos possuídos por elas. A respiração é um instrumento auxiliar neste processo.
Grotowski tem permanentemente reformulado e aprofundado sua experiência teatral. Não é um teórico do teatro, como Artaud; tudo o que veio a escrever ou falar publicamente, veio como conseqüência de sua prática.
Em 1987, ele dá entrevista (50), onde define sua função como “teacher of performer”:

“O Performer é o homem em ação. O Performer primário através do seu trabalho, da sua batalha, unificava em si mesmo as qualidades de um guerreiro, de um dançarino, de um cantor e de um homem de sabedoria. Ele investigava os movimentos, a ação física e as danças e essa investigação se tornava uma pesquisa sobre as próprias raízes da dança e dos movimentos, que significava na verdade, trabalhar sobre as raízes de si mesmo”.

O seu verdadeiro adversário era ele mesmo. Eram as suas próprias fraquezas, incapacidade, auto-indulgência, sentimentalismo e confusões que o Performer Primário devia confrontar. Ao mesmo tempo, ele se observava testemunha muda e atenta de seu próprio processo. O seu verdadeiro “teacher of Performer” deve descobrir em si mesmo.
Ele diz que decidiu concentrar sobre este ponto, o seu trabalho.

“Para isso é preciso um núcleo bem limitado de pessoas. Inicialmente o ‘teacher’ e o ‘Performer’, depois, só o ‘Performer’. É preciso também um pequeno grupo de assistentes que funcionarão como uma micro-sociedade: são ‘partners of Performance’.

Quem trabalha como Performer, perceberá que há um certo fluxo energético liberado através do trabalho do Performer Primário, que traz à tona uma antiga personalidade – alguém de ancestral que também tivesse sido um Performer espiritual. Você busca com seu corpo o ancestral e você passa a sentí-lo em você. Mas você não está interpretando um personagem, nem interpretando você mesmo. Você está estudando esse ancestral, através das próprias ações deles. Com os subprodutos deste trabalho, descobrimos uma maneira nova de interpretar (ou não interpretar) o personagem, e uma enorme gama de possibilidades aparecem para quem participar temporariamente deste trabalho”. (50)

A pesquisa sobre a linguagem teatral desenvolvida por Grotowski questiona os métodos desenvolvidos até então e extrapola os limites da área teatral. Sua experiência e teoria alcançam outros campos tais como a psicologia e a antropologia.
Grotowski e Artaud continuam atuais, suas questões ainda representam as indagações de nosso tempo. O teatro europeu sempre influenciou e continua influenciando o teatro brasileiro. Mas nós também temos a nossa história repleta de experiências significativas.

O Teatro Brasileiro

Qorpo Santo, o autor precursor do teatro do absurdo, a vanguarda da vanguarda do final do século passado, continua sendo vanguarda e pouco aceito e conhecido entre nós. Suas peças, seus temas, questionamentos continuam sendo atuais.
No início deste século surgem manifestações de um teatro operário. GADELHA e CAFEZEIRO (51) nos informam que com a vinda dos anarquistas italianos para iniciar experiências libertárias aplicadas ao trabalho do campo, realizaram-se muitas manifestações culturais que colaboraram para a formação da nascente classe operária.

“O teatro foi escolhido para pregação e difusão de um ideário social de libertação às vezes anticlerical que , de um lado, pelo caráter político de suas atividades teatrais; e de outro, pela simples busca de conhecimento , fez o operariado refletir sobre manifestações populares e descobrir problemas básicos de sua existência como classes”.

A Revista e a Comédia de Costumes estão presentes no cenário teatral até o final dos anos 20.
Gadelha e Cafezeiro denominam o período que vai de 1908 a 1932 como pré-modernista. Nesta fase encontramos como tendência abordada a sátira social e o simbolismo, uma atitude de exaltar a decadência de civilização e a consecução do “teatro da natureza”, que se realizava ao ar livre.
De 13 a 17 de fevereiro de 1922 realiza-se a Semana de Arte Moderna, que teve repercussões profundas na arte brasileira e a influencia até hoje.
Um dos principais veios de Modernismo foi a antropofagia, de Oswald de Andrade:

“A descoberta e a valorização da primitividade tem, no contexto das vanguardas, a dimensão daquilo que a arqueologia e a etnologia modernas haviam recentemente revelado como um dos panos de fundo de um passado com o qual a arte passa a dialogar”. (51)

Cafezeiro e Gadelha entendem que, sob a influência de Nietzsche, Oswald fez do canibal um símbolo do homem contemporâneo, que se dilacera a si mesmo, dilacerando os seus mitos. Seu primitivismo não é mais idealizado como no Romantismo Europeu; ele significa que cabe triturar os produtos do encontro para buscar a identidade. Não se trata de ir ao encontro de uma imagem idealizada do popular, mas de captar o seu modo crítico de fazer cultura e de aprender o modo de convivência entre etnias, religiões, dominadores e dominados.
Oswald deseja o reconhecimento da lógica selvagem, da qual o homem portador da lógica tecnizada não pode prescindir, ele lança seu não à racionalidade.
A modernidade impõe um imenso desafio à linguagem: o da representação de um mundo multifacetado, complexo, fragmentário.
Em 1934, Getúlio Vargas assume o poder e tem início o Estado Novo. Acirra-se a censura com a criação do Departamento de Imprensa e propaganda e surge o Serviço Nacional de Teatro que passa a disciplinar a produção cultural e a controlá-la. Nesta época está no auge a “Chanchada”.
No final da década de 30, surgiu o Teatro do Estudante e o Teatro Universitário como resultado de uma classe que quer uma arte mais “elevada”, com um repertório universal e que procura “educar” as classes sociais menos favorecidas.
Com a consolidação da industrialização no Brasil, que veio a gerar uma burguesia, passou a haver um maior desenvolvimento dos setores culturais. Na década de 50, surgem o TBC e a Escola de Arte Dramática. O teatro de Arena busca uma experimentação de novos estilos e uma linguagem popular. O teatro popular apresenta-se em sindicatos, clubes, favelas, etc.Houve nesta época uma “frenética floração dramatúrgica nacional”.
No fim da década de 50, início da década de 60, período marcado pelas transformações democráticas que ocorrem no Governo de Juscelino, houve ampla agitação das mobilizações populares, um expressivo movimento cultural onde o Cinema Novo e a Bossa Nova são os mais expressivos exemplos.
EDELCIO MOSTAÇO (52) conta que:

“Nesta época, inúmeros grupos teatrais formados de bases estudantis universitários surgem. Um deles firmou-se: O Oficina. Nesta fase, o Oficina tem um projeto existencial; influenciados por Sartre e Camus, agiam derrubando tabus e equivocados princípios morais. José Celso Martinez Correa e Amir Haddad encontram-se entre seus fundadores”.

Os anos compreendidos entre 1960 e 1964 apresentaram intenso movimento de implementação de uma cultura participante e popular no Brasil. Amplos setores da população participavam dos movimentos de massas.
Havia a inserção de um modelo socialista nas organizações políticas, nas lutas pelo desenvolvimento nacionalista, na sindicalização rural, na economia, no florescimento cultural, etc.
A UNE projetou-se como expressiva força nacional. Os sindicatos articulavam-se em coligações. Surgem as Ligas Camponesas.
Surge a necessidade no meio teatral da constituição de uma central que produzisse uma cultura específica destinada à difusão da propaganda política. Sob a tutela da UNE e do ISEB, é fundado o Centro Popular de Cultura. O Movimento, inicialmente ligado ao teatro, passa a incluir os setores de cinema, literatura, alfabetização, artes plásticas, música e cultura popular. Ele se propõe a produzir “conscientização em massa, em escala industrial, para fazer frente ao poder econômico que produz alienação em massa” (Oduvaldo Vianna Filho).
Após o Golpe de 1964, o CPC foi posto na ilegalidade e desmantelada sua central que funcionava no prédio da UNE, incendiado pela polícia.
Os sonhos de democracia acabam e se instala uma total falta de caminhos. É necessário agora iniciar novas táticas, consoantes com o novo momento histórico. O teatro foi o primeiro setor a se reorganizar e propiciar uma espécie de “modelo” para a arte de resistência. Os remanescentes do CPC criam o Opinião, que caracterizou-se mais como um show musical apoiado na personalidade de seus intérpretes, que passaram a mitos, simbolizando o protesto que não podia ser falado de outra forma.
Nesta fase após o golpe, destaca-se como ponto importante nos movimentos de resistência a estréia do Rei da Vela, pelo Grupo Oficina. O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, redescobriu a linha evolutiva de nossa cultura iniciada no Modernismo de 1922 e inicia um movimento estético denominado tropicalismo, que vem a revolucionar os padrões estéticos e políticos da época.
A partir de 1968, com o “endurecimento” da ditadura, o Oficina engaja-se no movimento de contracultura.
A contracultura abrangeu todos os segmentos e foi a expressão cultural da “geração AI-5” aparecendo como uma das contraposições do pensamento autoritário. A contracultura desafiava o sistema como um todo, negando toda a estrutura da civilização e seus modelos de reprodução, a burocracia, a concentração de renda, a espoliação da natureza, a estratificação das interrelações humanas, a baixa qualidade de vida, a repressão social e procurava encontrar alternativas.
E o que acontece no teatro de nossos dias? Finda a ditadura militar, com o processo de transição democrática, e final da repressão e da censura, esperava-se que florescesse a criação teatral e artística em geral, havia a expectativa de mudança. E o que vemos não é isso. Carmen Gadelha e Cafezeiro chamam a esta época de “os anos de perplexidade”. Não há nada de novo e a crise é total. Não é possível definir nem ao menos qual o problema, qual o tema, qual a linguagem.
O público e a classe esqueceram a história do teatro das últimas décadas. O teatro se ausentou da educação, a literatura dramática deixou de ser lida, há um esvaziamento de conteúdo, de busca humana, artística, política.
Entre as tendências que se pode verificar no teatro de hoje está a de resgatar a história do teatro contemporâneo, do final do século passado, até nossos dias.
Luis Antonio Martinez Correa, inaugurou este movimento que hoje vemos se alastrar por várias outras criações teatrais. Ele teve a iniciativa de realizar uma pesquisa das músicas que eram apresentadas no teatro brasileiro, desde o final do século passado até nossos dias. Infelizmente sua pesquisa foi abortada devido ao fato de ter sido brutalmente assassinado na noite de Natal de 1987. Realizou dois espetáculos: O Teatro Musical Brasileiro I, que apresentava teatralmente as músicas de 1860 a 1910, e o Teatro Musical Brasileiro II, que representou as músicas de 1914 a 1945.
Estes movimentos de resgatar a história do teatro musical brasileiro parecem-me uma tentativa de repensar, a partir de um distanciamento no tempo, os caminhos do teatro de hoje. Numa época de crise total, esvaziamento de conteúdo, idéias, criatividade, mudanças, surgiu a necessidade sair de si, de seu tempo, para redimensionar nosso cotidiano.
O assassinato de Luis Antonio levou seu irmão José Celso Martinez Correa a declarar para a imprensa: (53)

“O ato de criação é capaz de tornar o homem mais forte que o crime, mas poderoso que a morte, mais rico que a economia”.

“O trabalho de teatro faz com que as pessoas descubram que são potentes, que elas podem inventar o mundo de outra maneira. O teatro possui uma força de transformação visível, imediata, vai buscar o coração humano, a sexualidade”.

O teatro no Brasil hoje reflete todas as contradições do mundo contemporâneo. Por um lado, encontramos o teatro burguês, que participa do circuito comercial e tem estreita relação com o trabalho de ator desenvolvido nas novelas de televisão; por outro lado, surgem aqui e ali novamente trabalhos de teatro popular. Popular tanto no sentido de ser representativo do povo, quanto no sentido de ativar a consciência crítica do público. Segundo GERD BORNHEIM (54):

“O teatro popular deve mostrar a realidade humana, no que ela é e no que ela pode vir a ser, para que o espectador perceba o que foi feito com ele, o que as circunstâncias históricas fizeram dele; deve atentar para as transformações por que passou”.

No Brasil, coexistimos com várias mentalidades ao mesmo tempo. Nossa arte reflete isso. Temos o teatro popular tradicional, folclórico, regional; ao mesmo tempo temos o teatro popular crítico, que aponta para a consciência da história de nossa realidade e nosso papel nela; temos o teatro burguês clássico, conservador, que mostra autores de todos os tempos; temos ainda as pesquisas baseadas no teatro contemporâneo pós-moderno.
Ainda não assimilamos a antropofagia modernista, mas já estamos mergulhados no pós-modernismo.

5. FUNÇÕES DO TEATRO NA MODERNIDADE

Vimos como nas sociedades arcaicas a arte e o mito serviam para o fortalecimento da coletividade humana e para conferir poder aos homens, que tentavam, através da criação de mito e expressões artísticas, dominar o desconhecido, a morte, a natureza.
Nas sociedades contemporâneas, que perderam a capacidade de dar significação, de entusiasmar-se; que devoram qualquer alternativa que surja; que consomem toda tentativa de mudança, transformando os atos sócio-políticos contestatórios em moda, também os mitos e a arte absorvem essa função de consumo.
ROLAND BARTHES (55), nos fala sobre o mito da “vedette”:

“No teatro burguês o ator “dourado” pelo seu personagem deve parecer inflamado por um verdadeiro incêndio de paixão. É indispensável que se “ferva”, isto é, que se arda e se derrame. E deve haver formas úmidas nesta combustão. Os personagens devem desfazer-se em todos os tipos de líquido: choro, suor e saliva. A intenção desta tempestade visual é fazer da “psicologia” de um fenômeno quantitativo, obrigar o riso e a dor a adquirirem formas métricas simples, de modo que a mercadoria se transforme numa mercadoria como as outras, um objeto de comércio, inserido num sistema numérico de troca: eu dou meu dinheiro ao teatro e em troca exijo uma paixão bem visível, quase computável. A grande vantagem da combustão é de ordem econômica: o meu dinheiro de espectador tem um rendimento controlável”.

A arte dramática burguesa repousa numa pura quantificação de efeitos. Para Barthes, o mito é uma fala escolhida pela história, ele não surge da “natureza das coisas”. O princípio do mito é transformar a história em natureza. A burguesia criou representações das relações entre o homem e o mundo e ao propagá-las as “naturalizou”. É como se elas estivessem ali desde o início e pertencessem a todos nós. As normas são vividas como leis de uma ordem natural.

“Passando da história à natureza, o mito faz uma economia: abole a complexidade dos atos humanos confere-lhes a simplicidade das essências, suprime toda e qualquer dialética, organiza um mundo sem contradições, plano, que se ostenta em sua evidência; as coisas parecem significar sozinhas, por elas próprias. O objetivo preciso dos mitos é imobilizar o mundo”. (56)

Quando o “status quo” tem sucesso na sua tentativa de imobilizar o mundo através dos mitos, da cultura televisiva, do consumo, da pluralização e multiplicidade de alternativas que vão ao infinito, esvaziando todo sentido das coisas, está também destruindo duas funções importantes para o homem: a catarse e a reflexão crítica.
A catarse tinha uma função primordial nas sociedades arcaicas. Era através do processo catártico que se atingia o êxtase, o transe, a integração com o coletivo e com o cosmos. Na sociedade grega ela veio a ser posta a serviço da razão, por Aristóteles. Nas sociedades atuais ela tende a desaparecer. No teatro moderno burguês, ela se resume em uma determinada quantidade de lágrimas ou sorrisos que o ator consegue arrancar da platéia. Quando se busca um teatro voltado para a mudança, é fundamental tornar viva a presença da catarse para o processo de integração, comunhão, re-ligação que se pretende.
A reflexão crítica, que está presente no teatro popular, em geral está ausente no teatro burguês, impedindo que se perceba as transformações históricas e pessoais, os caminhos percorridos.
Conscientizarmo-nos de nossas trajetórias, percebermos a complexidade dos atos humanos, termos noção da influência em nossas vidas do jogo de forças que giram junto com as instituições organizadas pelo Estado, a Família, a Religião, a Produção, o Mercado, a Arte, a Moral, entendermos como nos instituímos e como fomos instituídos, são aspectos importantes de serem resgatados pelo teatro.
Quando o teatro alcança seus objetivos, ele abre fontes de prazer ou de fruição em nova vida emocional… dando às pessoas a sensação que tanto desejam de elevar o potencial de seu estado físico. Mas não é só catártico o objetivo do teatro. Já nos dizia FREUD (57) que:

“Estar presente como espectador interessado num espetáculo, representa para os adultos o que o brinquedo representa para as crianças, cujas esperanças hesitantes de poderem fazer o que os adultos fazem são, desta forma satisfeitas”.

Além da catarse, há uma reelaboração das experiências. A função de brincar, de deixar fruir o prazer, são vitais para o homem, Winnicott desenvolveu interessante teoria sobre a importância do criar, do brincar e da espontaneidade na estrutura da pessoa.
A possibilidade de poder criar livremente, de metamorfosear-se em aparências múltiplas, de encontrar canais que estimulem a espontaneidade, são possibilidades do teatro, quando consegue atingir suas finalidades.
O teatro lida permanentemente com a criatividade e o criar amplia nossa abertura para a vida. Ao criar, interligamos os dados mais diversos, numa sistematização profunda, que abrange toda uma visão nova de vida.
A sociedade moderna e a arte que ela produz, orientam seu funcionamento em duas direções: ou estão a serviço do “status quo”, do consumo, do imobilismo; ou estão voltadas para a busca da criatividade, da catarse, da reflexão crítica, da vida, da plenitude, que funcionam a favor do instituído, do poder dominante, que quer cristalizar, aprisionar, hierarquizar; ou do instituinte, que quer libertar, criar, instituir novas alternativas; que busca a mudança. Os homens irão se posicionar ao lado de um, ou de outro.
O estudo das funções do teatro na modernidade, nos possibilita maior aprofundamento em nossas pesquisas com a linguagem teatral. As práticas desenvolvidas experimentalmente com o teatro, devem levar em conta a sua função híbrida: de imobilização, alienação, consumo, do teatro dominante; e catártica, lúdica, orgástica, conscientizadora, integradora, revivificadora, reelaboradora, do teatro voltado para a transformação do homem e do meio onde está inserido.

6. POR UM TEATRO VOLTADO PARA A TRANSFORMAÇÃO

Quando falamos em um teatro voltado para a transformação, nos colocamos a favor de um teatro que afirme a vida, que busque a mudança, que esteja em permanente processo de instituir-se.
Com vida, queremos dizer tudo aquilo que se opõe à morte, à imobilidade, à inércia. E para isso, é preciso mudar o próprio homem. O homem aprende a aprisionar a vida dentro de si. É necessário extrair forças dentro do próprio homem para haver uma vida mais ampla, mas afirmativa, mais rica em possibilidades.
Para FOUCAULT (58), “não se sabe do que o homem é capaz enquanto ser vivo, como conjunto de forças que resistem”. Mas é difícil libertar de dentro de si essa alegria, essa potência de vida, quando estamos permanentemente sendo instituídos por um mundo esfacelado, alienado, onde nosso corpo é aprisionado, imobilizado.
As relações internas são interdependentes das relações externas e estão em constante transformação. A relação consigo deriva do sistema institucional e social e se reintegra nestes sistemas. Os modelos da nossa sociedade levam à introjeção dos seus valores e é preciso um intenso trabalho consigo mesmo para sair da “natural” paralisação a que somos levados.
No mundo atual ainda restam algumas experiências que não se deixaram imobilizar pela massificação imposta pelo poder dominante. Entre estas experiências, destacamos aquelas que sobreviveram em algumas sociedades tradicionais, tais como certas culturas asiáticas, africanas e das américas onde ainda há a possibilidade da vivência coletiva, ritualística, de re-ligação com o todo. Nestas culturas mantém-se uma ligação integrada entre o pensar, o fazer, o cultivar os ritos, o lidar com as energias cósmicas; ainda há um sentido comum entre todas estas coisas; encontramos presente uma forte identidade simbólica, religiosa, mágica, tal como encontrávamos nas sociedades primitivas. Como exemplo, daremos o teatro de Bali, o candomblé e o vodu (que são por nós pesquisados).
Se nas culturas primitivas e tradicionais essa vivência de coletivização da experiência, de êxtase, de transe, de alegria de viver é integrado ao mágico, ao sacro, ao lúdico, ao sensual; no homem contemporâneo que vive nas grandes metrópoles, essa vivência se dá de forma individualizada, singular.
Essa vivência, em meu entender, é encontrada na experiência do louco, do místico, do amante e do artista.
O místico, ou religioso, se eleva da esfera do real cotidiano para uma esfera transcendental, espiritual.
O louco ultrapassa a dimensão real, racional, objetiva e voa para um mundo próprio, sem limites, onde ele pode ser tudo e ser nada.
O amante vive a experiência de plenitude, de êxtase no momento do grande gozo, conhece uma dimensão extra cotidiana, supra sensível.
O artista, e em especial, o ator, ao lidar com as forças e símbolos que envolvem seu espaço, ao trabalhar com o redimensionamento do seu corpo, descondicionando as marcas, cicatrizes, nós, nele produzidos, ao funcionar como equilíbrio das forças externas e internas, ao pertencer a uma arte de síntese, pode vir a conhecer a experiência da comunicação plena.
Na experiência destas pessoas o elemento comum é a vivência extra-psíquica, extra-sensorial, supra real.
Outros modos de buscar a sensação de êxtase encontrados nas nossas sociedades são as drogas, a velocidade, os encontros coletivos tais como os festivais de música. Mas agora, esse estado de embriaguez não tem mais o sentido integrador das sociedades arcaicas.

“Nas sociedades arcaicas, tal como nas sociedades históricas, por meio das ervas, do álcool, da dança, do rito, há busca de estados de embriaguez, de êxtase que, por vezes, parecem unir a desordem extrema no espasmo ou a convulsão e a ordem suprema na plenitude de uma integração com o outro, a comunidade, o universo. Esses dados parecem expurgar as ansiedades, transformar as violências em brincadeiras e as alegrias em delícias”. (59)

Se não é mais possível ao homem das sociedades modernas a unidade original, a integração com o todo, o que podemos propor para que ele possa se sentir vivo, pleno, participante, integrado ao meio em que vive?
Muitas pesquisas tem sido desenvolvidas com o objetivo de alcançar essa integração, esse enriquecimento da experiência humana.

PESQUISA / AÇÃO DRAMÁTICA DESENVOLVIDA

Desde a década de 70, alguns pesquisadores da UFRJ, reuniram-se no Instituto de Psiquiatria e vieram a desenvolver várias linhas de pesquisa sobre teoria e ação da linguagem teatral. Hoje em dia estes trabalhos vieram a reunir-se sob a sigla S.P.A.D.A. (Setor de Pesquisa e Ação Dramática). Além do estudo sobre as culturas sobre as culturas regionais que preservaram seus rituais e formas próprias de expressão, mantendo assim seus valores, arte, identidade, desenvolvemos vários trabalhos junto às comunidades acadêmicas da UFRJ, às comunidades de favela e asfalto da zona sul do Rio de Janeiro e com os usuários do serviço de saúde mental do Instituto de Psiquiatria e outras instituições psiquiátricas.
Estes trabalhos, por um lado, direcionam-se ao estudo da cultura, dos modos de organização social, das formas de expressão e dos rituais que se mantém preservados nestas populações.
Ao mesmo tempo em que tentamos compreender essas culturas locais, buscamos a interação com as comunidades através de atividades de teatro, vídeo, etc. Levamos nosso saber, nossos valores, nossa proposta e buscamos o seu saber, seus valores, suas propostas. Nesse intercâmbio, nesta inter-relação ativa, queremos trocar, tocar e sermos tocados, influenciar e sermos influenciados, mudar, transformar nossas realidades. Todos nossos campos de ação (pesquisa, ensino, assistência, extensão) são envolvidos neste processo. E todas as formas de organização e expressão da comunidade são abordadas.
Neste processo de pesquisa/ação o enfoque primordial é o grupo, a comunidade, o coletivo. O núcleo do interesse é a inter-relação entre o sujeito e o meio onde está inserido e como esta cultura se relaciona com outras culturas diversas.
O teatro aqui surge como objeto de intermediação, como forma de expressão através do qual buscamos a comunicação, a interação com os outros. A atividade teatral neste contexto desenvolve-se de forma livre, improvisada, com um roteiro básico, aberto à participação do público. Pensamos ser importante nesta pesquisa teatral, levar em conta as funções catárticas, lúdicas, conscientizadoras e reflexivas do teatro. Pensamos que a abordagem através do teatro e do vídeo permitem uma participação mais ampla que aquela que nos é possível pelo debate verbal.
As pessoas que participam do processo teatral não são mais elas apenas, nem aquela história contada é apenas a história daquelas pessoas. No teatro esses personagens ganham outra dimensão, eles acumulam os signos daquela comunidade e representam significados mais amplos que os de uma história pessoal. A comunicação teatral amplia a noção daquele espaço e daquele tempo, tem um potencial mais rico que a comunicação verbal. As emoções podem ser mais livremente sentidas, tornando mais completa essa relação.
Desenvolvemos também trabalhos onde o enfoque primordial é o indivíduo, sua relação consigo e com os outros.
No caso de pessoas que tem particular dificuldade em lidar consigo e na inter-relação com o meio e que vem a buscar tratamento no serviço de saúde mental, entre os modos alternativos de relação que propomos, estão as práticas que utilizam o recurso teatral. Várias pesquisas e grupos terapêuticos tem sido desenvolvidos com o teatro terapêutico e o Psicodrama.
Este trabalhos tanto podem desenvolver-se em uma forma teatral improvisada, em grupos fechados, com um sentido terapêutico, de transformação do indivíduo e do grupo; quanto podem transformar-se em um teatro voltado para a apresentação em público, onde o aspecto terapêutico se dilui na proposta de uma ampliação do espaço de comunicação. Num teatro realizado com o objetivo de apresentação, espetáculo, o enfoque não é mais a relação do sujeito consigo e com os outros, mas a entrada no mundo real.
Estas práticas também levam em conta as funções do teatro.
Pensamos que as práticas tradicionais de tratamento em saúde mental não dão conta de toda a complexidade que envolve a pessoa em sofrimento. Às vezes é difícil a comunicação verbal e o entendimento dos diferentes códigos do usuário do serviço e do terapeuta.
No teatro a pessoa poderá expressar-se do modo que lhe for possível. Cada gesto, cada balbucio, cada imagem real ou alucinatória, naquele espaço é aceita e entendida.
O teatro é um espaço imaginário onde a pessoa pode apresentar suas fantasias, nas mais variadas formas de expressão (mímica, artes plásticas, música, dança, poesia).
O teatro contém e ultrapassa o campo da experiência real. Há dimensões da pessoa que não são possíveis serem vividas no cotidiano e que podem vir a serem percebidas na experiência teatral.
O ato de representar outros personagens permite-nos redimensionar nossa imagem, nosso “tamanho”. Ao meu ver no outro e ao ver o outro em mim, eu posso compreender melhor a questão da identidade e da alteridade, da relação consigo e com os outros e entender melhor esses limites.
Outro elemento que nos dá o teatro é o fato de, por se tratar de um outro que está ali – o personagem – e não a pessoa em si mesmo, torna-se possível viver seus temores, fantasias sem riscos. Podemos soltar nossos sentimentos, viver nossas ansiedades de forma compartilhada com o grupo, com a segurança de que nada de mal vai acontecer; não há perigo, tudo não passa de um “faz de conta”.
No teatro, além da linguagem, podemos trabalhar com a imagem. Estes dois sistemas – a linguagem e a imagem – são os que nos permitem operar simbolicamente. A linguagem teatral auxilia neste processo às vezes tão difícil, de operar com a dimensão simbólica.
Se na psicoterapia o grupo funciona como um “espelho social”, onde há a “possibilidade da diversidade, da pluralidade e da recriação puramente do universo social humano” (60), na pesquisa da linguagem teatral também há a possibilidade de que o grupo venha a viver essa mesma experiência.
Os grandes temas que são trabalhados na psicoterapia: morte, sexo e identidade, também são os grandes temas abordados no teatro. Os homens exaurem no acontecimento trágico seu poder de sonho e de dominação sobre a morte, sobre o sexo e sobre a identidade. Há algo na ação do ator que engrandece desmesuradamente os limites do corpo.
A linguagem teatral inclui e amplia os recursos próprios da psicoterapia exclusivamente verbal.
O teatro amplia o próprio campo da saúde mental. Quando trabalhamos com os recursos teatrais no lidar com pessoas com dificuldades, em sofrimento, ultrapassamos o campo estrito do terapêutico e alargamos nossos horizontes para incluir os campos da arte, da cultura, da comunicação social.

7. CONCLUSÕES

Acreditamos que ao realizarmos os estudos, pesquisas, trabalhos citados, estamos contribuindo para que as relações entre os homens e as sociedades não perpetuem-se na rigidez imobilizadora, alienada, consumista. A busca de relações mais verdadeiras, espontâneas, vivas é uma constante. Na pesquisa de um caminho que nos auxilie a atingir essa vivência mais rica, mais completa das possibilidades humanas, encontramos o teatro.
Em nosso entender, o teatro por ser uma arte de síntese; por ter funções catárticas, lúdicas, conscientizadoras, integradoras; por sintetizar e reorganizar os signos de seu contento; por possibilitar a metamorfose e a expressão das emoções e de várias formas de comunicação, tem um potencial que nos permite a transformação do homem em sua relação com o contexto. Estas características do teatro nos auxiliam no resgate da identidade, dos valores e do sentido, permitem-nos compartilhar coletivamente experiências, sentir-mo-nos pertencendo a um grupo, uma cultura, a um coletivo. A vivência do processo teatral nos possibilita um redimensionamento, uma amplitude de vida.

NOTAS

(1) FISCHER, E. – A Necessidade da Arte, pg. 21.
(2) FISCHER, E. – A Necessidade da Arte, pg. 42.
(3) MORIM, E. – O Enigma do Homem, pg. 103.
(4) FREUD, S. – Psicologia de grupo e análise do ego, obras completas, vol. XVIII, pg. 171, 172.
(5) FREUD, S. – Totem e Tabu, pg. 170.
(6) CLASTRES, P. – Arqueologia da Violência, pg. 121, 144.
(7) BACHOFEN, I. N. – Teatro Grego – Tragédia e Comédia, pg. 28 e 29.
(8) ADORNO, T. W. – Teoria Estética, pg. 363.
(9) FISCHER, E. – A Necessidade da Arte, pg. 52.
(10) GEISENHEYNER, M. – História da Cultura Teatral, pg. 12.
(11) BRANDÃO, J. S. – Teatro Grego – Tragédia e Comédia, pg. 11.
(12) NIETZSCHE, F. – A Origem da Tragédia, pg. 95.
(13) ARISTÓTELES, Poética, pg. 70 e 71.
(14) MOUSSINAC, L. – História do Teatro, pg. 86.
(15) MICHALSKY, I. – O Ator Através dos Tempos, mimeo.
(16) DUVIGNAUD, J. – Sociologia do Comediante, pg. 41.
(17) ECO, U. – O Nome da Rosa, pg. 532, 553.
(18) FISCHER, E. – A Necessidade da Arte, pg. 54.
(19) Idem, pg. 60.
(20) MICHALSKY, I. – O Ator Através dos Tempos, mimeo.
(21) GADELHA, C. e CAFEZEIRO, E. – História do Teatro Brasileiro , pg.26 e 27.
( 22) DUVIGNAUD, J. – Sociologie du Théâtre , pp. 3 e 4 .
( 23 ) DUVIGNAUD, J. – Sociologia do Comediante, pg. 49.
(24) Idem, pg. 56.
( 25) Idem, pg. 76.
( 26) FISCHER, E. – A Necessidade da Arte, pg. 63, 64.
( 27) Idem, pg. 74.
( 28) CAFEZEIRO, E. e Gadelha, C. – História do Teatro Brasileiro, pg. 288.
( 29) Idem, pg. 289.
( 30) BORNHEIM, G. – Teatro: A Cena Dividida, pg. 99.
( 31) MAROTTI, Ferruccio – Attore e Teatro nelle Teorie Scheniche del Novecento – artigo “Il teatro creativo” – Kerzencv, pg. 38.
( 32) MAROTTI, Ferruccio – Attore e Teatro nelle Scheniche del novecento – artigo “Il Montaggio delle Atrazioni” – Eisenstein, pg. 237.
( 33) FISCHER, E. – A Necessidade da Arte, pg. 125.
( 34) ATTISANI, A. – Enciclopédia del Teatro del’900. Artigo “L’attore nelle concezioni delle avanguardie storiche – Umberto Artioli, pg. 357.
(36) Idem, pg. 357.
( 37) Idem, pg. 358.
( 38) Idem, pg. 359.
( 39) VIRMAUX, A. – Artaud e o Teatro, pg. 43.
( 40) ARTAUD, A. – O teatro e seu duplo, pg. 31.
( 41) VIRMAUX, A. – Artaud e o Teatro, pg. 16.
( 42) ATTISANI, A. – Enciclopéia del Teatro del’900 – artigo “L’attore nele concezioni delle avanguardie storiche – Umberto Artioli, pg. 363.
(43) Teatro dell’assurto – Jean-Pierre Sarrazac, pg. 517.
( 44) ADORNO, T.W. – A Teoria Estética, pg. 280.
( 45) ATTISANI, A. – Enciclopédia del Teatro del’900. Artigo “Living Theatre – Arnold Aronson, pg. 243.
( 46) VIRMAUX, A. – Artaud e o Teatro, pg. 249.
( 47) ATTISANI, A. – Enciclopédia del Teatro del’900. Artigo “Jerzy Grotowski” – Renato Molinari, pg. 216.
( 48) VIRMAUX, A. – Artaud e o Teatro, pg. 251.
( 49) GROTOWSKI, J. – Seminário realizado no Centro Teatro Ateneo, Universidade de Roma, em 1982.
( 50) GROTOWSKI, J. – Cadê Grotowski, artigo da Revista Palco e Platéia nº 6, pg. 12 e 13.
( 51) CAFEZEIRO, E. e Gadelha, Carmen – História do Teatro Brasileiro pg. 382 e 383.
( 52) MOSTAÇO, E. – Teatro e Política: Arena, Oficina e Opinião, pg. 49, 62, 76.
( 53) CEZIMBRA, M. – A Fera Ferida do Teatro Brasileiro, artigo Jornal do Brasil, RJ, 30/12/87
( 54) BORNHEIM, G. – Teatro: a Cena Dividida, pg. 33.
( 55) BARTHES, Roland – Mitologia, pg. 70.
( 56) Idem, pg. 163, 164.
( 57) FREUD, S. – Tipos Psicopáticos no Palco, pg. 321.
( 58) DELEUZE, G. – Foucault, pg. 100.
( 59) MORIN, E. – O Enigma do Homem, pg. 114.

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VIRMAUX, Alain – Artaud e o teatro. Editora Perspectiva, São Paulo, 1978.

O livro “A LINGUAGEM TEATRAL COMO RECURSO EXPRESSIVO NA TRANSFORMAÇÃO DO SUJEITO ” busca entender quais são os recursos que são específicos do teatro e que favorecem um redimensionamento do homem em seu universo. Desenvolveremos um estudo da arte, do homem e da sociedade desde os primórdios até nossos dias, para acompanharmos a mudança destes através dos tempos e entendermos como veio a realizar-se o desenraizamento, a fragmentação, a alienação do homem moderno e os reflexos disso na arte. Defendemos a idéia que há um potencial na linguagem teatral que ultrapassa a experiência existencial cotidiana e permite uma “re-ligação” com os outros, os grupos e a cultura a que pertence; refletimos sobre algumas experiências que desenvolvemos com o teatro voltado para a transformação da pessoa humana.

Carmen Rodrigues Tatsch

Discursos e Formas Expressivas de Comunidades Rurais e Urbanas da China.

Projeto de Pós-doutorado (Universidade de Paris VIII, França) 
Discursos e Formas Expressivas de Comunidades Rurais e Urbanas da China.
Profª Drª Carmen Rodrigues Tatsch

A presente pesquisa resultará em um projeto de pós-doutorado que contará com a orientação do Prof. Remi Hess, do Laboratoire Experice, Department de Sciences de l’Education, Université de Paris 8.

 

Desde 2006 temos realizado intercâmbio com este professor e, a partir do presente projeto, teremos a oportunidade de aprofundar questões previamente levantadas nos estudos e trabalhos efetuados sobre a pesquisa na comunidade da Rasa, Búzios, RJ. Adotaremos as metodologias da pesquisa-ação e da escrita implicada.

 

Quanto à questão das imagens obtidas através do vídeo e da fotografia, contaremos com a orientação do Prof. Ferruccio Marotti, do Centro Teatro Ateneo, da Universitá di Roma “La Sapienza, que vêm acompanhando nossas pesquisas e atuado como consultor na área de vídeo antropológico desde 1988.

 

Nossas pesquisas têm sido desenvolvidas, desde a década de 80, junto a instituições de saúde mental e em comunidades do Rio de Janeiro. Inserem-se em uma perspectiva inter-disciplinar, com ênfase nas áreas de saúde mental, análise institucional, psicologia social comunitária e comunicação visual.

 

Trabalhamos com a hipótese de que as expressões singulares de cada cultura funcionam como um sistema informal de promoção de saúde e contribuem para a formação dos processos identificatórios com características particulares, em contraposição ao movimento massificatório dominante. Esta hipótese tem sido confirmada em anos de pesquisas cujo trabalho de campo é realizado em comunidades urbanas desfavorecidas sócio-economicamente. Em nosso entender, quando buscamos valorizar, dar visibilidade e dinamização a estas culturas estamos realizando promoção de saúde mental.

 

O trabalho de campo do presente projeto será realizado na China. A escolha deste país como campo de estudo deve-se à extrema complexidade desta sociedade, tanto em relação à sua história, quanto à contemporaneidade.

 

Pensamos que a constituição das subjetividades desta apresenta uma multiplicidade de expressões singulares e multifacetadas. As informações que obtemos através da mídia e as leituras que temos realizado sobre este lugar levaram-nos ao desejo de estudar as populações chinesas e de averiguar algumas questões e contradições surgidas no decorrer de nossos estudos.

 

O projeto será desenvolvido junto a sujeitos que residem em pequenas vilas e em grandes cidades chinesas. Entre as pequenas vilas que planejamos pesquisar, é nossa intenção escolher algumas que pertençam a grupos étnicos majoritários e outras que estejam inseridas em culturas dos grupos étnicos minoritários.

 

Nas grandes cidades (Shangai e Pequim) estudaremos os entrecruzamentos dos diversos modos de viver e trabalhar. Buscaremos entender se os sujeitos que vivem nestes lugares, encontram-se em forte conexão com sua história, ou se a preocupação com as modernas tecnologias e a inserção em uma visão de mundo globalizado é mais significativa.

 

Nestas cidades realizaremos visitas a universidades com o intuito de conhecer programas acadêmicos nas áreas de ciências humanas e sociais. Pretendemos contribuir com informações para futuros estudos e pesquisas que possam vir a ser realizados neste país, que dia a dia cresce em importância no Brasil e no mundo.

 

No intercâmbio com os orientadores iremos abordar questões que contribuam para uma análise comparativa dos resultados encontrados nas pesquisas realizadas no Brasil (junto às comunidades do Vidigal e da Rasa) e na China (nas pequenas vilas e nas grandes cidades pesquisadas).

 

Esperamos que o enfoque escolhido para este estudo traga contribuições particulares a um campo de conhecimento que; por um lado, apresenta inúmeras pesquisas e estudos já consolidados no meio acadêmico; por outro, possibilita espaço a novos saberes e novas orientações metodológicas.

 

Esta é uma abordagem aberta a novas construções. Cada campo de trabalho, cada comunidade, cada agrupamento humano é constituído de maneira ímpar, com características singulares e pode ser abordado de diferentes modos.

 

1.Objetivos Gerais

– Consolidar a cooperação já existente, aprofundar questões e elaborar trabalhos conjuntos com a Profª Carmen Rodrigues Tatsch, coordenadora do Projeto de Pesquisa Subjetividade, Cultura e Desenvolvimento Social, desenvolvido no Brasil, com o Prof. Remi Hess, diretor do Laboratório Experice, da Université de Paris VIII, e com o Prof. Ferruccio Marotti, coordenador do Centro Teatro Ateneo, da Universitá di Roma “La Sapienza”.

 

– Realizar pesquisa junto a sujeitos que residem em pequenas vilas e em grandes cidades da China, visando entender as inter-relações dos sujeitos que ali vivem com sua história e suas tradições. Verificaremos ainda a influência nestes lugares do atual modus vivendi globalizado e das recentes e intensas mudanças sócio-econômico-político-culturais que encontram-se em curso.

 

– Analisar comparativamente o material pesquisado na China e no Brasil (comunidades do Vidigal e da Rasa) e estudar as inter-relações existentes entre os resultados encontrados.

 

1.1.Objetivos específicos

– Averiguar os efeitos das metodologias utilizadas (pesquisa-ação, vídeo antropológico) nos sujeitos e coletividades estudados na China.

 

– Visitar as Universidades de Shanghai e Pequim com o intuito de conhecer programas acadêmicos nas áreas de ciências humanas e sociais e contribuir com informações para futuros estudos e pesquisas que possam vir a ser realizados neste país.

 

– Realizar pesquisa bibliográfica nas Universidades de Paris e de Roma, visando a atualização das concepções teóricas e metodológicas utilizadas nas intervenções e dar fundamentação às argumentações desenvolvidas no projeto.

 

2.Plano de trabalho

 

O trajeto a ser percorrido, do sul para o norte da China, será previamente planejado e utilizaremos os instrumentos (vídeo, fotografia, gravação de entrevistas, observação participante, escrita implicada) de acordo com as circunstâncias e possibilidades.

No sul, as comunidades que nos interessam estudar são aquelas que vivem em pequenas vilas e preservam seus modos de viver e fazer. Entre as comunidades que se adéquam a este perfil e pretendemos pesquisar encontram-se algumas descendentes da etnia Han (majoritária) e outras de etnias minoritárias. Entre as minoritárias estão os Zhuang, que se situam nas regiões do Guangxi. Pensamos documentar aspectos de sua cultura, tal como, o ato de cantar enquanto plantam. Na região do Guangxi, e nas províncias de Guangdong e Yunnan encontram-se descendentes da etnia Miao, que é uma das mais antigas do país. Estes descendentes possuem casas tradicionais. Escolheremos algumas destas comunidades, a partir de um prévio contato e da aceitação por parte dos sujeitos envolvidos em participar da pesquisa.

 

Entre os eventos que nos interessa estudar encontram-se: A Festa de Ano Novo (data flexível), a Festa das Lanternas (15 de Janeiro), a Festa da Primavera (9 de fevereiro), o Dia de Qinhming (5 de abril), a Festa do Barco Dragão (5 de maio), a Festa da Lua (5 de agosto).

Há outros lugares interessantes que poderemos vir a visitar por sua história e cultura. Entre eles encontram-se Lhasa, Shenzen e Xian. A ilha de Hainan chama nossa atenção pelo contraste, de um lado, um símbolo de vitalidade econômica; por outro, os moradores nativos são pobres e temem por seu futuro.

 

Entre as grandes cidades, escolhemos pesquisar Shangai e Pequim. Esta última situa-se no norte e nos interessa estudar devido aos seus lugares históricos (a Cidade Proibida, a Grande Muralha da China, o Templo do Céu, o Templo do Sol, o Templo de Confúcio, a Praça da Paz Celestial); à sua contemporaneidade, contrastando com a antiguidade; por sua importância científico-cultural. Realizaremos estudos na Universidade de Pequim e na Universidade de Shanghai.

 

Shangai situa-se a leste e é a maior cidade chinesa. É o cartão postal da nova economia de mercado. Entre os principais eventos ali celebrados que pretendemos documentar estão: Feira do Templo Longhua (budista), Festa do Ano Novo Lunar, Festa da Flor de Pessegueiro, Festa do Jasmin Flagrante, Festival Internacional do Chá, Festa da Laranja. Shanghai também apresenta interesse para nosso estudo devido à sua contemporaneidade, em contraste com sua antiguidade e por sua importância científico-cultural.

 

3.Histórico dos projetos realizados

 

Vimos desenvolvendo pesquisas com as metodologias da pesquisa-ação, do vídeo e do teatro antropológicos desde a década de 80. Neste período, as pesquisas foram realizadas em instituições de Saúde Mental do Rio de Janeiro ¬(Instituto de Psiquiatria da UFRJ; Hospital Pinel – atual IPP; Colônia Juliano Moreira).

 

Em 1987, assinamos acordo científico-cultural entre o Instituto de Psiquiatria da UFRJ (cujo Diretor era o Prof. Raffaele Infante e eu atuava como co-coordenadora dos convênios internacionais e como pesquisadora) e o Centro Teatro Ateneo da Universitá di Roma “La Sapienza” (coordenado pelo Prof. Ferruccio Marotti) e desenvolvemos o projeto “Tecnologia Áudio-visual como instrumento de análise e auto-análise de grupos comunitários”, com o apoio do CNPQ – BR e do CNR- Itália. Este projeto, desenvolvido a partir da década de 90, propiciou o desenvolvimento de pesquisas em comunidades do Rio de Janeiro (Chapéu Mangueira, D. Marta e outras).

 

O contato com a Université de Paris VIII iniciou na década de 80 quando René Lourau, professor desta universidade ministrou Curso de Análise Institucional no Instituto de Psicologia da UFRJ. Em 2006, vimos a realizar intercâmbio com o Laboratoire Experice, da Université de Paris VIII, através do Prof. Remi Hess, com o qual desenvolvemos trabalhos conjuntos, participamos em reuniões e palestras, no Rio de Janeiro e em Paris.

 

3.1.Pesquisa-ação na comunidade do Vidigal – Rio de Janeiro.

 

Durante o período de 1993 a 1997, realizamos pesquisa que resultou em Tese de Doutoramento intitulada “Formas Expressivas e Discursos de uma Comunidade Urbana do Rio de Janeiro: um uso do Teatro e do Vídeo Antropológicos”, defendida no Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Contamos com bolsa da CAPES e do CNPq. O trabalho de campo foi realizado na comunidade do Vidigal, Rio de Janeiro. Trabalhamos com as metodologias da pesquisa-ação e do vídeo antropológico.

 

O estudo foi efetuado a partir de um determinado recorte das formas expressivas e dos discursos encontrados nesta comunidade. Interessou-nos pesquisar se os discursos deste lugar aproximam-se daqueles relativos às sociedades tradicionais ou dos que freqüentemente são produzidos nas sociedades inseridas nos processos de globalização.

 

A comunidade do Vidigal está atravessada por ambas as influências: tradicionais e contemporâneas. Mas em sociedades que estão fortemente inseridas nos processos globalizadores, a mídia desempenha um papel de homogeneização das mentalidades.

 

A metodologia do vídeo antropológico tem como proposta a busca da espontaneidade. Esta metodologia pretende inventar novos tipos de relações entre os indivíduos e as coletividades. O vídeo antropológico busca uma integração dialética e de, a partir do distanciamento e “espelhamento” possibilitados por esta tecnologia, chegar a uma nova visão de si e de sua relação com o meio, a um auto-conhecimento e a uma auto-análise das formas expressivas e comportamentos psicossociais existentes.

 

No Vidigal a função do vídeo antropológico ficou identificada com a da televisão e os discursos produzidos assemelham-se àqueles apresentados pela mídia e pela política partidária.

 

3.2.Pesquisa-ação na comunidade da Rasa.

 

Em 2001, iniciamos pesquisa na comunidade da Rasa, Município de Armação de Búzios, com o apoio da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Nesta época, obtivemos bolsa de fixação de pesquisador e a pesquisa era vinculada à Escola de Comunicação da UFRJ. Em 2005, obtivemos bolsa de bancada e o projeto passou a vincular-se à Universidade Veiga de Almeida, Rio de Janeiro. O atual projeto intitula-se “Subjetividade, Diversidade Cultural e Desenvolvimento Humano e Social”.

 

A comunidade pesquisada, localizada na região da Rasa, é descendente de um Quilombo. Ao iniciarmos a pesquisa, os moradores desta região encontravam-se excluídos da vida social, cultural e econômica existentes no município, em processo de desintegração da sua cultura e da sua história, em estado de isolamento uns dos outros e dos grupos sociais existentes.

 

A partir dos processos deflagrados pela pesquisa, novos movimentos passaram a instituir-se: dos membros da comunidade entre si, destes com diferentes grupos locais, nacionais e internacionais; criaram-se novos espaços para a divulgação e reflexão sobre questões relativas à comunidade alvo. As relações de poder existentes passaram a modificar-se, abrindo campo para lideranças comunitárias nas deliberações políticas locais. Iniciou-se um processo de transformação do lugar de exclusão e isolamento em que se encontravam.

 

No momento, estamos repensando as fases anteriores da pesquisa e delimitando as novas etapas. O projeto desenvolveu-se em processo de auto-gestão com a comunidade e resultou em duas propostas que estão em andamento: a criação de um circuito turístico histórico-antropológico-ecológico e a criação de um centro cultural. Ambos serão geridos pelas lideranças comunitárias.

 

Na comunidade da Rasa, a metodologia do vídeo antropológico atendeu a seus objetivos de busca da espontaneidade e da criação de novos tipos de relações entre os indivíduos e as coletividades. O vídeo antropológico, por possibilitar o distanciamento e o “espelhamento”, permitiu aos sujeitos da pesquisa uma nova visão de si e de sua relação com o meio.

 

Mas, na Rasa, talvez por ser uma comunidade descendente de escravos africanos, os resultados obtidos de integração grupal e de auto-gestão ficaram condicionados à presença da equipe de pesquisadores e de especialistas convidados. Quando estávamos presentes, a criatividade e a originalidade nas propostas eram a tônica. Mas quando nos ausentávamos, eles não conseguiam reunir-se e dar continuidade aos projetos formulados conjuntamente: a criação de um circuito turístico histórico-antropológico-ecológico e a criação de um centro cultural. Estes projetos encontram-se em andamento. Estamos debatendo com a Prefeitura de Armação dos Búzios sobre a implantação do centro cultural nesta comunidade.

 

Se, por um lado, as propostas advindas do processo de auto-gestão necessitam da presença dos pesquisadores para sua continuidade, por outro, entre os resultados obtidos, observou-se que: houve sujeitos que transformaram-se a nível individual; alguns desenvolveram-se como líderes da comunidade; outros foram cursar nível superior; um dos líderes passou a ensinar seu ofício (artesanato em madeira) para seus companheiros e formou um grupo de artesãos que vivem de seu ofício; alguns pequenos produtores rurais reuniram-se e criaram uma feira de produtos horti-fruti que ocorre semanalmente.

 

Entendemos que, no atual estágio desta pesquisa-ação, houve transformações a nível individual, nas relações entre a comunidade da Rasa e a cidade de Búzios e em determinado grupos. Para a realização das propostas do circuito turístico e do centro cultural, faz-se necessária a integração dos esforços da comunidade, da equipe de pesquisadores, da sociedade civil e do poder público.

 

4.Concepções teóricas

 

Nossa proposta de intervenção na comunidade é atravessada por diversas abordagens. Trabalhamos com a metodologia da pesquisa-ação, mas esta é desenvolvida de um modo particular, devido à nossa formação que é perpassada pela psicologia social, pela análise institucional, pela psicanálise e outras disciplinas. A forma de intervenção que desenvolvemos junto à comunidade segue os trâmites da pesquisa-ação, mas a escuta, a direção do trabalho, a relação pesquisador / sujeito pesquisado apresentam-se segundo uma perspectiva inter-disciplinar.

 

Em nossas pesquisas, entendemos a pesquisa-ação como uma metodologia que busca a produção de novas formas de conhecimento social e de relacionamento entre pesquisadores e pesquisados e de novas articulações destes com o saber.

 

Buscamos auxiliar no fortalecimento do sentimento de pertinência, de participação social, na ampliação dos laços comunitários, no estímulo à inserção do sujeito em inter-relações com diversas redes sociais, na elaboração e na criação de novas construções singulares e coletivas. Desenvolve-se a partir de uma problemática não só instrumental, mas que pressupõe uma visão crítica da realidade e que possibilite a criação coletiva dos resultados.

 

As formulações teóricas a respeito desta metodologia baseiam-se nos preceitos utilizados por autores brasileiros e latino-americanos, entre eles Thiolent (1987) e Montero (2000).

 

Quando falamos em comunidade, abordamos este conceito tal como Vidal (2007) que a compreende como uma motivação positiva de sociabilidade, incluindo desfrute mútuo, cooperação, identidade coletiva e individual interconectada. A comunidade é pensada por este autor como um tecido social onde haja vinculação, interdependência, reciprocidade, confiança mútua, compartilhamento, comunicação e diálogo.

 

A metodologia da pesquisa-ação busca favorecer os processos de auto-gestão e de feedback. Remi Hess, professor da Universidade de Paris 8, em seu “ Cours D’Analyse Institutionnelle”(2006), diz que tanto na pesquisa-ação, quanto na Análise Institucional, é pela participação comum a todos os participantes do processo que encontramos o caminho do conhecimento.

 

Este processo de pesquisa se inscreve em uma relação direta com a ação e com o processo de conhecimento e de mudança. Este autor entende que a análise, a reflexão permanente, o esforço de conscientização das estruturas visam a mudança, no sentido de uma maior emancipação, de uma maior responsabilidade dos autores e no sentido da auto-gestão. Os objetivos da pesquisa são os elementos constitutivos desta, busca-se fazer do processo da pesquisa um objetivo da pesquisa em si mesmo.

 

O Prof. Remi Hess, ao debater sobre a pesquisa realizada na comunidade da Rasa e apresentada no Colloque d’Analyse Institutionnelle da Université de Paris 8, em 2006, comentou sobre os vários níveis de ação e de análise do projeto que se atravessam e que apontam para diversos caminhos teórico/práticos interdisciplinares. Salientou a importância das novas tecnologias da imagem que são utilizadas em pesquisas como esta e falou em repensar a sociologia da intervenção a partir das atuais experiências.

 

A profª Luccette Colin, apontou a importância de uma pesquisa que desenvolve, ao mesmo tempo, um enfoque político e subjetivo; que trabalha a questão da cidadania e também da identidade. “Há um dimensão política e uma forma de intervenção que funciona como um mediador social que permite que a fala destas pessoas faça parte do discurso da comunidade. O pesquisador atua como um interventor que permite a intermediação de um ato de reconhecimento e a inscrição da palavra do homem, que até então não tinha escritura sobre o espaço público.”

 

Temos realizado intercâmbio com os professores Sidi Askofaré e Marie-Jean Sauret, do Laboratório Recherches Cliniques em Psychanalyse et Psychopathologie de l’Université de Toulouse Le Mirail – França e debatido sobre a questão da transferência e da contra-transferência na relação pesquisador / sujeito pesquisado. Interessa-nos entender quais são os limites da atuação do pesquisador, qual sua implicação no processo da pesquisa.

 

Um dos instrumentos utilizados para a transformação dos modos de subjetivação encontrados nesta comunidade é o vídeo antropológico. A questão da visibilidade dos diversos elementos que compõem a realidade destas populações é de suma importância. O vídeo utilizado como fator de intermediação da equipe com a comunidade e desta com as diferentes instancias sociais, contribui decisivamente para a visibilidade e a interlocução entre os segmentos existentes.

 

Em nossos estudos, buscamos entender os processos ocorridos no desenvolvimento da pesquisa e as contribuições do vídeo neste percurso. A psicanálise é uma das disciplinas que contribui para o estudo deste tema. Paola Miele, professora da School of Visual Arts de New York, com quem vimos realizando intercâmbio, comentou em uma entrevista a nós concedida nesta universidade sobre as possibilidades que o ato de ver e ser visto, proporcionado pela metodologia do vídeo antropológico, podem trazer à constituição da subjetividade dos sujeitos da pesquisa:

 

“Ver-se no vídeo implica em uma relação tridimensional do corpo no espaço e inscreve-se no interior de um colocar-se sob o olhar do outro. A câmera funciona como um outro. Sua própria imagem não é binária, mas trinária, na relação com o outro. O sujeito se confronta com sua própria imagem a partir do vídeo. Isso pode dar como efeito permitir ao sujeito reconhecer a si e ao outro. A chave é se reconhecer no meio social, inscrever-se num espaço simbólico. Este processo ajuda um sujeito a se reconhecer como pertencendo a uma comunidade, a apreciar sua própria singularidade e sua história. Podemos levantar a hipótese de que há uma dimensão de testemunho que se coloca em causa. Sentir-se no interior do grupo, perceber-se de seu pertencimento, de que não é um sujeito isolado. “

 

O olhar e a voz são constituintes do sujeito, o ver-se através do vídeo, pode permitir a reelaboração das identificações, que encontravam-se “coladas” ao discurso do outro, possibilitando assim formular novas significações.
No presente estudo, cujo trabalho de campo será realizado na China, iremos averiguar os efeitos do vídeo nos sujeitos implicados na pesquisa e analisar comparativamente os discursos encontrados com aqueles produzidos nas comunidades estudadas no Brasil.

 

5.Metodologia

 

O trabalho de campo será realizado na China, durante os meses de fevereiro a maio de 2011. A metodologia utilizada será a qualitativa. O material coletado será debatido com os orientadores: Profs. Hemi Hess (Université de Paris VIII) e Ferruccio Marotti (Universitá di Roma).

Trabalharemos com as metodologias da pesquisa-ação, da escrita implicada e do vídeo antropológico. Ao nos defrontarmos com situações propícias, aplicaremos questionário com questões abertas, pertinentes ao tema deste estudo.

 

5.1Pesquisa Bibliográfica

 

Realizaremos atualização bibliográfica de fontes primárias e secundárias em bibliotecas das Universidades de Pequim, Shanghai, Paris e Roma em áreas afins ao plano de estudo.

 

5.2Pesquisa-ação

 

Todo o processo perpassado pelo plano de trabalho será atravessado pela metodologia da pesquisa-ação. Do ponto de vista científico, a pesquisa-ação é uma proposta metodológica e técnica que oferece subsídios para organizar a pesquisa social aplicada sem os excessos da postura convencional ao nível da observação, processamento de dados, experimentação etc. Com ela se introduz uma maior flexibilidade na concepção e na aplicação dos meios de investigação concreta.

A pesquisa-ação é uma estratégia de pesquisa agregando vários métodos ou técnicas de pesquisa social, com os quais se estabelece uma estrutura coletiva, participativa e ativa ao nível da captação de informação.
Para Thiolent, a pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.

Esta metodologia será desenvolvida incluindo diferentes técnicas: entrevistas , vídeo, observação participante, jornal de pesquisa.
Segundo a perspectiva institucionalista, o pesquisador, na pesquisa-ação, precisa levar em conta a sua implicação. Ele está implicado, assim como todos os atores sociais envolvidos na intervenção. Toda a dinâmica da atividade de conhecimento, toda a práxis científica são atravessadas pelo engajamento pessoal e coletivo do pesquisador.

 

5.3Escrita Implicada

 

O trabalho de campo será relatado de acordo com o método da escrita implicada, tal como é abordado por Remi Hess e outros autores institucionalistas. A pesquisadora irá relatar as experiências vividas através do diário de pesquisa. No entender destes autores, o diário de pesquisa já é pesquisa.

Para Remi Hess (2005), “escrever sempre teve importância decisiva na prática da análise institucional”. Este autor utiliza o que chama de “diário de bordo” capta, no dia a dia, as percepções, as experiências vividas, os diálogos e as sobras do concebido que emergem. A técnica do diário foi escolhida para ilustrar a implicação da escrita.O diário de pesquisa é um mediador entre o sujeito e a escrita. O objeto do diário pode ser um pensamento, um sentimento, uma emoção, a narração de um evento, de uma conversa, de uma leitura, etc. Ele entende que “do ponto de vista da análise institucional, a prática do diário aparece como uma ferramenta particularmente adaptada para articular a exploração das relações entre o campo de intervenção e de análise.

 

5.4Vídeo Antropológico

 

Em nossas pesquisas, o vídeo ocupa um lugar ampliado; não se trata somente de uma técnica, mas de uma estratégia que têm seus efeitos nos resultados encontrados.O método do vídeo antropológico pressupõe o registro e a projeção do registro em vídeo para os sujeitos que participam deste processo e inclui debates , após a projeção , atuando em processo de contínuo feed-back..

 

O objetivo deste método é o de possibilitar uma integração dialética e de, a partir do distanciamento e “espelhamento“ possibilitados por esta tecnologia , chegar a uma nova visão de si e de sua relação com o meio , a um auto-conhecimento e a uma auto-análise das formas expressivas e comportamentos psicossociais existentes e a uma visão crítica da realidade .

 

No atual projeto, o vídeo será utilizado no registro de aspectos considerados significativos à pesquisa (rituais, festas, situações particulares de uma dada cultura…) e em entrevistas com especialistas e sujeitos que vivem nas diferentes cidades chinesas. A metodologia de vídeo antropológico não será realizada, neste projeto, do modo tradicional, onde é necessário um longo tempo de relacionamento com as populações estudadas.

 

Analisaremos alguns aspectos comuns e outros particulares encontrados neste modo de intervenção. Em determinados momentos de nosso trabalho de campo, poderemos apresentar vídeos produzidos por comunidades do Brasil.
Todo material produzido fará parte da análise dos resultados.

 

6.Forma de Análise dos Resultados

Dentre as diretrizes de análise dos resultados mais difundidas, destacamos as implementadas pela OPAS (Organización Panamericana de la Salud y Organización Mundial de la Salud, 1987; Hutchius et al., 1993), na década de 80. Já o desenvolvimento da abordagem participativa na pesquisa e prática de planejamento e gestão de programas sociais tem em Paulo Freire um precursor.

No entanto, trabalharemos com a perspectiva utilizada por Alípio Sanchez Vidal, desenvolvida no Manual de Psicologia Comunitária (2007), devido à maior identificação com a orientação proposta por este professor, ao fato de desenvolvermos intercâmbio e à possibilidade de podermos contar com sua colaboração no acompanhamento e avaliação das resultados do presente projeto.

 

Segundo este autor, a avaliação social visa organizar e racionalizar o processo de intervenção comunitária; é um ato metodológico e também uma interação entre sujeitos em um contexto social impregnado de interesses e poder. Este ponto de vista vai ao encontro do abordado pelos autores institucionalistas franceses ( Lourau, Lapassade, Remi Hess): a questão da implicação do pesquisador e dos atravessamentos das diversas esferas do poder nas relações sociais.

 

Em nossa proposta articularemos as seguintes formas de avaliação (citadas em Alípio Sanchez Vidal (2007):

1) análise prévia à investigação – o material bibliográfico sobre aspectos teóricos e metodológicos produzido a partir das experiências que vimos desenvolvendo há alguns anos, será comparado com os resultados da pesquisa na China;

2) avaliação formativa – buscaremos aprofundar questões e averiguar a realização das propostas;

3) avaliação do impacto dos resultados e efeitos da intervenção – este aspecto tem sido pesquisado por nós em nossos trabalhos e será uma preocupação central neste estudo;

4) acompanhamento do projeto visando verificar a adequação aos objetivos iniciais – será desenvolvido o acompanhamento durante todo o processo da pesquisa. 5) avaliação da avaliação – usando os dados obtidos na avaliação como material de novas análises. Este enfoque de avaliar, reavaliar, criar novas propostas e tornar a avaliar, em um movimento continuo é parte integrante de nossa proposta.

 

A avaliação social é uma parte integral do processo de intervenção social que o precede, o acompanha e o encerra. Para Vidal, a avaliação já é intervenção Realizaremos o acompanhamento de todo o processo através dos métodos da observação participante, da escrita implicada, do vídeo antropológico..

 

Em nossa análise dos resultados será levada em conta a produção bibliográfica do material escrito e áudio-visual produzido na pesquisa anterior, a pesquisa bibliográfica e áudio-visual realizada no atual estudo e o material obtido através de técnicas tais como: entrevistas, debates,etc.

 

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Vasconcelos, E. Mourão. Complexidade e pesquisa interdisciplinar.SP.Cortez, 2002.
Vidal, Alípio S. Manual de Psicologia Comunitária. Madrid: Ed. Pirâmide, 2007.

7.1Bibliografia específica : China

Basaglia,Paulo. (coord.) Contos Chineses. S. Paulo: Ed. Paulus.1996.
Couto, Sergio P. A Extraordinária História da China. S. Paulo: Ed. Universo dos Livros. 2008.
Henfil. Henfil na China: antes da Coca-cola. R. Janeiro: Codecri. 1983.
Hutton,Will. O Aviso na Muralha – a China e o Ocidente no Século XXI. S.Paulo: Ed. Larousse. 2008.
Trevisan,Claudia. O Renascimento do Império na China. S.Paulo: Ed. Planeta.2006.
______________ Os Chineses. S.Paulo: Ed.Contexto. 2009.
Tsé-Tung. O Livro vermelho. S.Paulo: Ed. Martin Claret. 2006.
Yutang,Lin. A Importância de Viver. S.Paulo: Ed. Círculo do Livro. 1974.

_____________________________________________________________________ 8.Cronograma de execução do projeto
Mês Atividades
_____________________________________________________________________
2010 – apresentação e debate do projeto (via web), com os Profs. Remi Hess, da Université de Paris 8 e Ferruccio Marotti, da Universitá di Roma.
– pesquisa bibliográfica sobre teorias e metodologias que permeiam o projeto e sobre a China, local onde se desenvolverá o trabalho de campo. ______________________________________________________________________
Fevereiro e março de 2011 – início do trabalho de campo em pequenas vilas do sul da China.
______________________________________________________________________
Abril e maio de 2011 – trabalho de campo em grandes cidades da China (Shanghai e Pequim).
____________________________________________________________________
Junho de 2011 – ida a Paris. Reuniões com o Prof. Remi Hess e debate sobre a elaboração do projeto de pós-doutorado.
-apresentação de trabalho no Colloque d’Analyse Instittucionnelle, na Université de Paris VIII

Julho de 2011 – ida a Roma. Reuniões com o Prof. Ferruccio Marotti e debate sobre a elaboração do projeto de pós-doutorado.

Agosto de 2011 a maio de 2012- elaboração do relatório final do projeto de pós-doutorado.
– elaboração de artigo sobre o projeto para a Revue Les IrrAIductibles, da Université de Paris VIII .
– produção de vídeo com o material áudio visual registrado na China.
– elaboração de publicação, a partir do material produzido com a metodologia da escrita implicada. A publicação poderá contar com fotografias registradas no decorrer do trabalho de campo.
_____________________________________________________________________
Junho de 2012 – ida a Paris. Apresentação dos resultados do estudo na Universidade de Paris VIII.
– apresentação de artigo no Colloque d’Analyse Institutionnelle, Universitá de Paris 8.
– apresentação de vídeo na Universitá di Roma.

_______________________Resumo Cronograma_____________________________
Atividades Datas

02/11_03/11____04/11___05/11___06/11___07/11
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tr.campo sul China ____________
tr. campo grandes cidades ____________
reuniões orientador U. Paris ______
apresentação de trabalho ___
reuniões orientador U. Roma ______

08/11 a 05/12
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– elaboração do relatório final _________________________
-elaboração de artigo ______
– produção de vídeo __________________________
– elaboração de publicação __________________________

06/12 07/12
______________________________________________________________________
– apresentação dos resultados Universidade de Paris VIII. _____
– apresentação de artigo no Col. d’Analyse Institutionnelle _____
– apresentação de vídeo na Universitá di Roma. _____
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Reality Show O Show do Olhar

Comentando sobre os ¨ Dating Shows ¨ , um dos tipos de ¨ Reality Shows ¨, a host de um desses programas afirmou que ¨ o conteúdo dos mesmos deve ser a expressão do Fim da Civilização , tal como a conhecemos¨. A essa observação , replicou o jornalista James Poniewozik, na revista Time ( agosto , 12 , 2002 ): ¨ Ao contrário, esse desmedido impulso para obter fama instantânea , sexo quase instantâneo e, ao lado disso, um pouco de dinheiro, está de acordo com a civilização , tal como a conhecemos – e em plena florescência ¨.

 

Dating Shows¨, ¨Reality Shows¨ , podem ser classificados como espetáculos voyeurísticos – via mídia- desenvolvidos em espaços delimitados previamente – quando não confinados num recinto determinado- embora abertos ao olhar invisível de milhões de espectadores, inclusive o olhar televisivo do Big Brother , que tudo controla. Nesta área restrita, ainda que disponha de uma fresta por onde transitam os fluxos magnéticos da TV , vivem e convivem os personagens do show , dando curso às suas fantasias de aventura , de sexo, de exibicionismo. Nesse campo de ilusão , eles induzem o público a acreditar que ali se desafia e se transgride a Lei, sob o olhar cúmplice das testemunhas sentadas diante se seus aparelhos de TV. Imprescindível tal cumplicidade, ¨sem o que não existiria o campo da ilusão

 

Há algo de perverso nessas encenações , por meio das quais os atores e sobretudo o Big Brother acenam com a possibilidade de um gozo do qual ¨tem a confiança de ter, seja como for, o domínio¨ . Que gozo? O que advém da neutralização da angústia da castração simbólica quando os participantes – os que atuam e os que assistem- se identificam imaginariamente com o objeto primordial, objeto de plenitude, que encobriria a falta , imposta pela instituição da Lei simbólica .

 

Faz-se então uma cena , uma ¨nova Lei¨, a do gozo ¨ que ordena buscar esse gozo seja lá qual for o meio¨. Instala-se aí o reino do narcisismo , o sujeito identificando-se imaginariamente com o objeto , tornando-se ele próprio objeto, enquanto o desejo está lá fora .

 

Enfim, se dissimula , se escamoteia o confronto com a castração e a falta no outro . Interessa ao Big Brother que a massa embarque na fantasia da totalidade. E isso está plenamente de acordo com a época em que vivemos.
O frenesi pessoal e coletivo deste tipo de espetáculo, visa a uma espetacularização da vida cotidiana, onde vale tudo pelo gozo perante o espetáculo , pelos quinze minutos de celebridade que nos falava Andy Warhol. Não importa o sentido, a enunciação, a significação. Não é uma identificação com borda, delimitada por significantes. É o estímulo a um gozo sem fim .

 

Passando uma rápida vista pela Internet sobre este assunto , vemos anunciados os próximos espetáculos: Uma mulher ficará isolada, junto com 40 homens e escolherá aquele que lhe dará o esperma para uma fecundação artificial. Casais ficarão em uma ilha deserta e serão promovidos encontros individuais com pessoas solteiras, com corpo escultural , para testar a fidelidade de cada cônjuge. Haverá divulgação na mídia da imagem dos participantes como criminosos de alta periculosidade e estes terão que andar pela cidade sem serem reconhecidos. Ganhará aquele que chegar ao término do Reality Show sem ser apanhado como criminoso.

 

Neste tipo de identificação, tudo vira espetáculo , onde procura-se dar a impressão dos personagens estarem vivendo a realidade. Mas trata-se de uma ¨realidade¨ manipulada , selecionada , controlada. E o que é selecionado , recortado ? Aquelas cenas que apelam para a exacerbação da sexualidade, das psicopatologias, das fofocas, dos atritos, dos escândalos . Mas não é um recorte que leva à busca de uma significação: é o consumo pelo consumo , o espetáculo pelo espetáculo. E o espectador se fixa num processo identificatório alienado , colado ao outro .
Este tipo de espetáculo apropria-se das técnicas do cinema direto , mas para transformar os sujeitos envolvidos em objetos , em cobaias.

Mas qual o poder deste instrumento que é a televisão?

Temos estudado a questão da influência da mídia e dos processos de globalização na constituição dos sujeitos e se estes encontram meios de recriar os conteúdos assimilados. Interessa-nos entender como as “máquinas de visão” intervém na constituição das subjetividades , de que modo estas influenciam nos discursos enunciados. E como o ser olhado , “ser quadro” intensificam o discurso do “che vuoi”( o que queres de mim ?) .

 

Lacan aborda a questão do olhar na constituição do sujeito. Entre o indivíduo e o mundo estabelece-se uma primeira relação através do olhar. Ao nascer, o indivíduo é inserido através do olhar neste mundo. Ao indivíduo que olha pré-existe um olhar, o olhar do mundo. “Eu só vejo de um ponto, mas em minha existência sou olhado de toda parte”.

 

Trata-se de um olhar que , ao lhe dar existência, o subjetiva. O olhar que vê de todos os pontos o constitui como pertencente ao mundo, pertencente a “uma paisagem”. Ao ser englobado pela paisagem, estando nela inserido, o sujeito adquire existência. No campo escópico, o olhar está do lado de fora “sou olhado, quer dizer, sou um quadro”.

 

Como se dá a constituição do sujeito no mundo contemporâneo, pós- moderno, mediatizado pelas ¨máquinas de visão?

Segundo alguns psicanalistas, o mundo contemporâneo tende a abolir o sujeito. A pregação política e a mídia utilizam a idéia imaginária do todo, do universal ,do que faz esfera. O senhor da modernidade se afirma em uma verdade que se conceitua por sua igualdade a si mesma. Trata-se de uma cultura que se afirma pela Eu-cracia , por um Eu que é idêntico a si mesmo cujo mandamento é : continua a gozar , a consumir . O jovem , muitas vezes, passa a identificar-se com um Outro imaginarizado pela figura da Internet, por exemplo. O Outro do saber passa a ser um outro que não responde, que não está encarnado, que não tem cheiro .

 

Qual o lugar das tecnologias audio-visuais na cultura contemporânea?

Um dos autores que estuda as tecnologias áudio-visuais, entendendo-as estreitamente interrelacionadas com a complexidade social e a mudança cultural , é Massimo Canevacci . Em ” Antropologia da Comunicação Visual”, ele desenvolve a idéia de que a comunicação visual está extremamente vinculada com a cultura contemporânea inteira e corta o novo projeto de aculturação planetária. Segundo ele, (2, pg.11) “a abordagem antropológica da comunicação visual configura-se em dois níveis:

a) com o primeiro se entende o uso direto por parte do pesquisador das técnicas áudio-visuais para documentar e ou interpretar a realidade, seguindo a metodologia antropológico cultural;

b) com o segundo, a análise dos produtos da comunicação visual reprodutível na sua totalidade, isto é, fenômeno global da cultura visual; seja para compreender os seus modelos simbólicos e formais; seja para reforçar a referida pesquisa numa relação iterativa”.

 

Canevacci conceitua seu trabalho como uma “antropologia da dissolução” e entende que o atual ambiente simbólico das sociedades complexas é de tipo visual e reprodutível.

 

Outro autor que estuda as interrelações entre a constituição da subjetividade, a cultura e as ¨máquinas de visão¨ é Guatari . Ele enfatiza a questão da subjetividade enquanto produzida por instâncias individuais, coletivas e institucionais. Em Caosmose , afirma que a subjetividade é plural , polifônica e que as máquinas tecnológicas de informação e de comunicação operam no núcleo da subjetividade humana. Ele entende que é preciso levar em conta as dimensões maquínicas de subjetivação e a heterogeneidade dos componentes que concorrem para a promoção da subjetividade .
Mas será que a influência destes sistemas maquínicos será necessariamente a de contribuir para constituição de ¨ Eu-cracias , de identificações coladas ao outro?

 

Em nossa experiência com o uso da tecnologia audio-visual , buscamos contribuir para a constituição de outras formas de subjetividade. Há vários anos trabalhamos com a metodologia de vídeo antropológico em comunidades do Rio de Janeiro e de outros municípios.

 

A abordagem utilizada tem como fundamento teórico-metodológico o cinema etnográfico de Jean Rouch e o método de vídeo antropológico de Ferruccio Marotti, da Universidade de Roma .
Os filmes etnográficos iniciaram com as inovações técnicas da sociedade industrial do século 19, quando foi possível o registro visual de outras sociedades. A partir deste método, é possível ver segundo um novo olhar, e em toda a sua riqueza, o conjunto de diversos modelos de comportamento humano. O que se busca não é dizer a verdade sobre o outro, revelá-lo, “traduzí-lo” aos nossos cânones de inteligilidade ; mas, tentar construir uma ponte entre duas culturas, para que elas possam finalmente dialogar!

 

Segundo Jean Rouch :
“O cinema direto contribui para liberar o homem (ou certos grupos de homens) do estado de dependência no qual se encontra, ajudando-o a tomar consciência de si mesmo, de sua originalidade, de sua força enquanto membro de um grupo.”

 

“As técnicas do direto permitiram a eclosão de um cinema novo que parece estar a caminho de se apropriar da experiência humana a mais vasta possível e inventar novos tipos de relações entre os indivíduos e as coletividades.”

 

A metodologia visa , a partir do distanciamento e “espelhamento” possibilitados por esta tecnologia audio visual , auxiliar no processo de chegar a outras visões de si e de suas relações com os outros e enfatiza a obtenção de uma relação que faça com que o objeto da pesquisa seja também o sujeito desta.

 

Recentemente, participei de uma experiência que me tocou de modo especial.
Desenvolvi pesquisa com a metodologia de vídeo antropológico em uma comunidade descendente de um Quilombo , na Rasa, Búzios. Trata-se de um local onde os moradores sentem-se excluídos , discriminados , isolados pela outra parte de Búzios – aquela representada pelo detentores do poder público e privado. Registramos em vídeo o dia a dia das pessoas e das diversas ¨ formas associativas ¨ e organizamos seminário com convidados do Brasil e da Itália . As diversas organizações, associações , grupos de auto-gestão, movimentos estavam presentes . Projetamos o vídeo e após a projeção , todos os participantes reuniram-se e houve uma confraternização coletiva, com expressões de júbilo, de entusiasmo que eu jamais experimentara. Havia uma força vital, uma comunhão, um êxtase que para tentar expressar verbalmente só consigo associar com o ¨entusiasmus ¨ e a catarse do teatro grego da antigüidade.

 

Claro que não podemos saber exatamente como era , pois o tempo e o espaço são outros, mas foi uma experiência que , penso, só pôde surgir devido ao processo de coletivização da experiência . O olhar , através do espelho/ vídeo , atravessado pelo coletivo e por diversas instâncias sociais, que ali estavam presentes através dos representantes das áreas municipais, estaduais, federais e internacionais.

 

Este é um exemplo de outras formas de utilização das tecnologias audio visuais, com a metodologia do ¨direto¨ , sem ser de forma alienada , colada ao outro. Mas não há interesse daqueles que detém o poder de controlar e massificar em chegar aos resultados obtidos na experiência coletiva, participativa e de auto-gestão.

Pesquisa-ação na saúde mental e na comunidade.

Carmen Rodrigues Tatsch

Resumo

Este artigo discute a questão da pesquisa-ação e suas inter-relações nas áreas de saúde mental e de psicologia comunitária. Desenvolvemos alguns enfoques teóricos e metodológicos que atravessam nossas intervenções e apresentamos as metodologias da pesquisa-ação, do vídeo antropológico e do teatro antropológico tal como as utilizamos em instituições de saúde mental e em comunidades do Rio de Janeiro, Brasil.

Palavras-chave: pesquisa-ação; saúde mental; comunidade.

 

Introdução

Há muitos anos vimos desenvolvendo pesquisas com as metodologias da pesquisa-ação, do vídeo antropológico e do teatro antropológico em instituições de saúde mental e em comunidades do Rio de Janeiro.

 

Trabalhamos com a hipótese de que as expressões singulares de cada cultura funcionam como um sistema informal de promoção de saúde e contribuem para a formação dos processos identificatórios com características particulares, em contraposição ao movimento massificatório dominante. Esta hipótese tem sido confirmada em anos de pesquisas cujo trabalho de campo é realizado em comunidades urbanas desfavorecidas sócio-economicamente. Em nosso entender, quando buscamos valorizar, dar visibilidade e dinamização a estas culturas estamos realizando promoção de saúde mental.

 

Entendemos promoção de saúde mental no sentido de um processo que afirme a vida, que busque a mudança, que esteja em permanente processo de instituir-se. Deleuze cita FOUCAULT (1988): “não se sabe do que o homem é capaz enquanto ser vivo, como conjunto de forças que resistem”.
Com vida, queremos dizer tudo aquilo que se opõe à morte, à imobilidade, à inércia. E para isso, é preciso mudar o próprio homem. O homem aprende a aprisionar a vida dentro de si. É necessário extrair forças dentro do próprio homem para haver uma vida mais ampla, mas afirmativa, mais rica em possibilidades

Pesquisa-ação – intervenção em instituições

 

Iniciamos as pesquisas com as metodologias da pesquisa-ação, do vídeo e do teatro antropológicos na década de 80. Estas foram realizadas em instituições de saúde mental do Rio de Janeiro ¬(Instituto de Psiquiatria da UFRJ; Hospital Pinel – atual IPP; Colônia Juliano Moreira); junto à comunidade acadêmica da UFRJ e às comunidades de favela e de asfalto da cidade do Rio de Janeiro.

 

Nas pesquisas em comunidades, interessa-nos o estudo das culturas regionais que preservaram seus rituais e formas próprias de expressão, mantendo assim seus valores, arte, identidade.

 

Em 2001 iniciamos pesquisa – ação junto à comunidade quilombola da Rasa, Município de Armação dos Búzios, Rio de Janeiro. Naquela ocasião, a pesquisa articulava-se à Escola de Comunicação, UFRJ. A partir de 2005, esta passou a vincular-se à Universidade Veiga de Almeida. Em ambas as fases, os projetos contaram com o apoio da FAPERJ.

 

Todo o processo da pesquisa é acompanhado pelo registro em vídeo e pela projeção do material áudio-visual para a comunidade, em um contínuo feed back. O método de vídeo antropológico baseia-se no cinema etnográfico, o qual possibilitou o uso da “câmara participante”. A pesquisa conta, nesta área, com a consultoria do Prof. Ferruccio Marotti, diretor do Centro Ateneo da Universidade de Roma.

 

Entre os resultados encontrados em nossa pesquisa, poderíamos dizer que houve um processo de “empoderamento” destes sujeitos. As relações de poder existentes passaram a modificar-se, abrindo campo para lideranças comunitárias nas deliberações políticas locais. Iniciou-se um processo de transformação do lugar de exclusão e isolamento em que se encontravam.

 

Podemos inter-relacionar estes processos com o conceito de empowerment, tal como o Prof. Alípio Sanchez Vidal, em seu Compêndio de Psicologia Comunitária, o desenvolve: empowerment é uma idéia emergente da Psicologia Comunitária e outros campos da política e da ação social. Implica, sobretudo, desfazer o foco da psicologia na saúde, para enfocar o poder sustentável, a análise e a mudança social y psicosocial. Há uma re-focalização psicológica no empowerment.. Os significados de empowerment mais usuais são : dar poder, autorizar ou capacitar, quer dizer,empoderar.

 

Vimos articulando um projeto de turismo histórico- antropológico- ecológico que congrega participantes de diversas formas associativas da região e visa criar um tipo de turismo que permita o desenvolvimento humano, social e econômico para esta população, de forma sustentável . O projeto oferece um contraponto ao movimento predatório existente, pois o enfoque na geração de renda se dará de forma a preservar a cultura, a história e o espaço da população local e a melhorar a qualidade de vida não só do ponto de vista econômico, mas também político e cultural.

 

Visando organizar este circuito temos realizado diversas visitas, acompanhadas por lideranças, a locais desta região que farão parte do percurso turístico. As visitas aos circuitos turísticos têm sido realizados com a presença de professores provenientes de diversas áreas acadêmicas, e participaram nos eventos realizados na Rasa, organizados pela equipe juntamente com lideranças da comunidade estudada. Contamos com a participação dos professores: Massimo Canevacci (Universitá di Roma), Carlos Lessa (UFRJ), Sidi Askofaré (Université de Toulouse), Alípio Sanchez Vidal ( Psicologia Comunitária (Universidad de Barcelona), Paola Mieli (School of Visual Arts, New York) e outros, que trouxeram interessantes contribuições ao projeto.

 

A partir destas visitas, veio a surgir, em processo de auto-gestão, a idéia da criação de um centro cultural onde as diversas associações da Rasa (artesãos, agricultores, costureiras, jardineiros…) virão a comercializar seus produtos.

 

Atualmente lideranças de diversas Associações (de Arte e Cultura, de Moradores, de Produtores Rurais, dos Quilombolas, do Fórum Inter-comunitário) estão realizando encontros, juntamente com a equipe de pesquisa, para tratar da criação do Centro Cultural da Rasa, a ser gerido por estas lideranças.

 

Esta é um momento de passagem de um percurso que terá diversos desdobramentos, que estão em fase de gestão. Através deste artigo esperamos multiplicar espaços de debate e reflexão.

 

Referências Bibliográficas

 

Alípio Sánchez Vidal. Manual de Psicologia Comunitária. Un enfoque integrado. Madrid: Ed. Pirâmide. 2007.
Boterf, Guy Le Pesquisa Participante: Propostas e reflexões metodológicas:.Brandão, C.R (Org) .Repensando a Pesquisa Participante. São Paulo: Ed. Brasiliense (3ª ed) 1987.
Deleuze, Giles. Foucault. S.Paulo,Ed. Brasiliense. 1988.
Hess, Remi. Colloque D’Analyse Instituttionnelle. Paris, Université de Paris 8. 2006.
Montero, Maritza. Construcción, desconstrucción y crítica: teoria y sentido de la psicologia social comunitária em América Latina. In: R.H.F.Campos & P.A.Guareschi (Orgs). Paradigmas em Psicologia Social. A perspectiva Latino-Americana. Petrópolis: Ed. Vozes (2ª ed.). 2000.
Negri, Antonio. Império. RJ: DP&A Ed., 2003.
Santos, Joel R. Épuras do Social. Como podem os intelectuais trabalhar para o social. S.Paulo, Ed. Global, 2004.
Tatsch, Carmen R O Teatro como Potencial para a Transformação. Dissertação de Mestrado em Psicologia – Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1991
_________Tecnologia Audio-Visual e Formas de Subjetivação. Monografia.Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1994
__________Formas Expressivas e Discursos de Uma Comunidade Urbana do Rio de Janeiro: Um Uso do Teatro e do Vídeo Antropológicos. Tese de Doutorado apresentada ao Programa em Pós-Graduação em Psiquiatria e Saúde Mental do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. 1997.
Thiollent, Michel. Notas para o debate sobre pesquisa-ação. In: C.A.Brandão (Org) Repensando a pesquisa participante.São Paulo: Ed. Brasiliense (3ª Ed.). 1987.

Autorización

Io, Drª Carrnen Rodrigues Tatsch, ID. 3131706, IFP, autorizo a las autoridades del III Congresso Argentino de Salud Mental y la Comission Directiva del de la Associación Argentina de Salud Mental a reproduzir em el formato que sea conveniente (editión em papel, em formato eletrônico o e-book, etc), el trabajo, comunicación libre, pôster, mesa redonda, etc. presenteado com el título “Pesquisa-ação na saúde mental e na comunidade”. Asimismo autorizo a los editores a vender la obra, consevandome los derechos para publicar mi articulo em forma total o parcial em otras publicaciones em el futuro.

Drª Carmen Rodrigues Tatsch

Pesquisa em uma comunidade quilombola do RJ: estudo sobre o lugar do sujeito e a função do olhar e da voz .

Carmen Rodrigues Tatsch

 

No primeiro semestre de 2016, quando vi o filme Menino 23, baseado na tese de doutorado de Sidney —, este causou-me impacto. Lembrei-me de uma pesquisa que realizei, entre os anos de 2003 a 2007? , em uma comunidade quilombola em Búzios, RJ.Resolvi escrever sobre o tema abordado por este filme, inter-relacionando-o com esta pesquisa.

 

Uma das questões suscitadas pelo filme foi a das relações entre as elites brasileiras e os descendentes de africanos que vieram escravizados para o Brasil. A história documentada no filme passa-se a partir dos anos de 1933, quando a família Rocha Miranda, protótipo de outras tantas, responsabiliza-se perante o Educandário Romão Duarte, situado na zona sul do Rio de Janeiro, pela criação de 50 meninos negros órfãos. Estas crianças são levadas para a Fazenda Cruzeiro do Sul, em São Paulo. pertencente a esta família Estes meninos, são tratados da mesma forma que seus antecedentes que foram escravizados. Eles trabalhavam de sol a sol, sem receber um tostão por isto, e sofriam punições e torturas .

 

Eles não eram chamados por seus nomes e sim pela numeração que lhes era dada, segundo a posição que ocupavam em relação à altura de cada um. Aloisio, chamado Menino 23, diz no documentário que foram escolhidos como quem compra gado e eram tratados como tal.

 

A historia destes meninos no filme é recortada por vídeos que relatam a ideologia nazifascista que predominava na época. O Brasil teve o segundo maior partido nazista do mundo e algumas pessoas da família citada eram membros deste partido. A eugenia era o paradigma de normalidade e a orientação do governo de Vargas era a melhoria da raça branca. . Segundo a concepção higienista, fundamentada na Eugenia, não era possível fazer uma grande nação com uma raça inferior, eivada pela mestiçagem, como eram os brasileiros.

 

A perspectiva higienista vem a ser questionada a partir do surgimento da psicanálise, que diz que há sujeitos, cada um com sua singularidade. A história, o lugar onde o sujeito vive e os laços que estabelece terão efeitos na constituição deste sujeito.

 

Quando, na década de 40, Getúlio Vargas rompe seus laços com a Alemanha e se associa aos EUA, o envolvimento com o partido nazista passa a ser mal visto e todos os documentos e símbolos, tais como a suástica, inscrita no lombo dos animais e nos tijolos das construções, são eliminados. Os meninos, agora adolescentes, são soltos na rua e ficam ser ter para onde ir. Este fato retrata o destino de tantos outros sujeitos descendentes de africanos que com o fim da escravatura ficam sem lugar na sociedade.
Ao lembrarmos nosso passado, impregnado pela ideologia nazifascista, podemos entender melhor as relações existentes entre as elites brasileiras e as populações advindas das classes populares.

 

O historiador José Rufino dos Santos apresentou, em encontro realizado em 1997, no CREMERJ, alguma teses sobre o corpo negro que podem contribuir para nosso trabalho. Ele lança a tese que o corpo do negro funcionou, na América, como gerenciador de arquivo. Seu corpo, como lugar social, ocupou os espaços de despossessão, tortura, resistência. Segundo Rufino, o corpo negro é o buraco negro das ciências sociais no Brasil. Tudo o que se aproxima dele é tragado. Sua função é esquecer . É o delete que se deve temer.

 

Na pesquisa realizada junto à comunidade quilombola da Rasa, Búzios, percebemos que os moradores desta região encontravam-se excluídos da vida social, cultural e econômica reinantes no município, em processo de desintegração da sua cultura e da sua história, em estado de isolamento uns dos outros e dos grupos sociais existentes.

 

O trabalho de campo foi realizado entre os anos 2003 e 2005 e inicialmente foi vinculado à Escola de Comunicação da UFRJ. Sua realização foi possível graças à concessão, pela FAPERJ, de uma bolsa de pós-doutorado. Trabalhamos com a hipótese de que as expressões singulares de cada cultura funcionam como um sistema informal de promoção de saúde.
No início de nossa pesquisa, em 2003, encontramos uma situação próxima à descrita no documentário. A população da Rasa em sua maioria vivia isolada da Búzios que era atravessada por processos de internacionalização e cosmopolitismo. Eles não conseguiam emprego por não terem os requisitos exigidos ( conhecimento de línguas estrangeiras,da etiqueta utilizada pelas elites, saber servir à francesa…). Ir à praia da Rasa era considerado perigoso, pois lá só havia negros.

 

Nas primeiras etapas do trabalho de campo, ao pesquisar nos sites sobre Búzios a respeito de sua história, encontrei que; primeiro havia os índios, depois vieram os portugueses e em 1960, chegou Brigite Bardot. Nenhuma palavra sobre os negros que chegaram escravizados e colonizaram a região.
Podemos pensar aqui no lugar do corpo do negro tal como Rufino menciona, como algo que se deve esquecer, deletar. Os africanos que chegaram escravizados a esta região desempenharam um importante papel na constituição do que vieram a ser as cidades de Cabo Frio, de Búzios e outras. Mas não tinham lugar na história, nem na mídia. O espaço onde foram jogados, com o final da escravidão, pouco a pouco foram tomados pelos grilheiros.

 

A pesquisa desenvolveu-se levando em conta três eixos: – o vertical – a história da comunidade da Rasa (descendente de um Quilombo); – o horizontal – o espaço sócio-histórico-antropológico-ecológico onde esta se situa e – o transversal – as questões surgidas foram trabalhadas em eventos atravessados por diversas instâncias. Buscamos produzir movimentos que permitissem uma circulação do macro para o micro e vice-versa, ampliando assim os modos de ver e de agir; estimular a ampliação dos laços comunitários e a inserção do sujeito em inter-relações com diversas redes sociais e contribuir para a elaboração, a ressignificação e criação de novas construções singulares e coletivas.

 

Há alguns anos vínhamos trabalhando com as metodologias da pesquisa-ação e do vídeo antropológico buscando favorecer os processos de auto-gestão e de feedback. Nesta comunidade a questão da visibilidade era especialmente significativa. O vídeo utilizado como fator de intermediação da equipe com a comunidade e desta com as diferentes instancias sociais, contribuiu decisivamente para a visibilidade e a interlocução entre os segmentos existentes.

 

A partir dos processos deflagrados pela pesquisa, novos movimentos passaram a instituir-se: dos sujeitos entre si e destes com diferentes grupos locais, nacionais e internacionais; criaram-se novos espaços para a divulgação e reflexão sobre questões relativas à comunidade alvo. As relações de poder existentes passaram a modificar-se, abrindo campo para lideranças comunitárias nas deliberações políticas locais. Iniciou-se um processo de transformação do lugar de exclusão e isolamento em que se encontravam.

 

O artesão Lelei, que vivia recluso em seu trabalho de talha em madeira, passou a dar aulas, vindo a constituir um grupo que passou a expor seus trabalhos de artesanato e a viver de seu ofício. Ele desenvolveu um lugar de liderança na comunidade e participou ativamente na criação do Circuito turístico- histórico- ecológico-cultural da Rasa e da gestação de um centro cultural onde as diversas associações da Rasa (artesãos, agricultores, costureiras, jardineiros…) viessem a comercializar seus produtos.
Carlinhos, um cadeirante que passou a fazer parte do grupo de artesãos, desenvolveu a capacidade de expor com clareza as ideias do projeto e passou a ocupar um lugar de palestrante nas palestras e outros eventos.
Diversos sujeitos começaram a estudar na universidade e outros vieram a ocupar um lugar na política partidária desta cidade.

 

Entre os diferentes enfoques metodológicos utilizados nesta pesquisa, foram enfatizadas as questões do olhar e ser olhado e a de dar voz a estes sujeitos que não tinham lugar naquela sociedade.

 

A psicanálise aborda a questão do olhar. Lacan desenvolve a idéia de que entre o indivíduo e o mundo estabelece-se uma primeira relação através do olhar. O mundo, enquanto estrutura simbólica, pré-existe ao indivíduo. Ao nascer, o indivíduo é inserido através do olhar neste mundo. Ao indivíduo que olha pré-existe um olhar, o olhar do mundo.”Eu só vejo de um ponto, mas em minha existência sou olhado de toda parte”.

 

Somente na relação do indivíduo a um outro, o olhar pode adquirir sua função de constituinte do sujeito. O olhar está do lado de fora “sou olhado, quer dizer, sou um quadro”. O primeiro símbolo que o ser humano alcança é a imagem, a forma de seu corpo na qual ele se precipita.

 

É a partir do estádio do espelho que se presentificará o enlaçamento dos três registros: Real, Simbólico e Imaginário. É com esta estrutura que o ser humano pode ter a ilusão de unidade frente à vivência de fragmentação do corpo , participar de relações sociais e inserir-se na cultura.
O estádio do espelho é fundamental na questão da identificação. Este estádio dá a compreender a divisão do sujeito desde seu surgimento . Dá a entender que a relação consigo passa por uma relação com o outro . O sujeito não é anterior a este mundo de formas que fascinam : ele se constitui nelas e por elas. O exterior não está fora , mas no interior do sujeito , o outro está nele.

 

Este estádio é um drama que maquina os fantasmas que se sucedem de uma imagem fragmentada do corpo à uma forma ortopédica de sua totalidade. As intenções agressivas surgem a partir da função formadora das imagens no sujeito – são as imagos do corpo fragmentado.“ A agressividade é a tendência correlativa de um modo de identificação que chamamos narcisista e que determina a estrutura formal do eu do homem e o registro de entidades característico de seu mundo. ”(Lacan, 1948, pg 73). Os instintos de destruição, de morte, têm relação com a libido narcísica e com a função alienante do eu, com a agressividade que se distingue em toda relação ao outro, mesmo aquelas que aparecem sob a forma de ajuda samaritana. Para Lacan, todo sentimento altruísta advém da agressividade, que sustenta a ação do filantropo, do idealista, do pedagogo e do reformador.

 

Buscando entender as contribuições do vídeo no percurso deste trabalho, entrevistamos Paola Miele, professora da School of Visual Arts de New York, que comentou sobre as possibilidades que o ato de ver e ser visto, proporcionado pela metodologia do vídeo antropológico, podem trazer à constituição da subjetividade dos sujeitos da pesquisa:

 

“Ver-se no vídeo implica em uma relação tridimensional do corpo no espaço e inscreve-se no interior de um colocar-se sob o olhar do outro. A câmera funciona como um outro. Sua própria imagem não é binária, mas trinária, na relação com o outro. O sujeito se confronta com sua própria imagem a partir do vídeo. Isso pode dar como efeito permitir ao sujeito reconhecer a si e ao outro. A chave é se reconhecer no meio social, inscrever-se num espaço simbólico. Este processo ajuda um sujeito a se reconhecer como pertencendo a uma comunidade, a apreciar sua própria singularidade e sua história. Podemos levantar a hipótese de que há uma dimensão de testemunho que se coloca em causa. Sentir-se no interior do grupo, perceber-se de seu pertencimento, de que não é um sujeito isolado.“
Outra questão trabalhada nesta pesquisa foi a da escuta. Estes sujeitos não tinham escuta, sua voz era apagada, deletada, como diz Rufino . A metodologia utilizada permitiu que a partir dos movimentos propiciados por entrevistas com o vídeo e projeção destas em palestras, debates,e outros eventos eles pudessem escutar-se uns aos outros e fazer conhecer suas ideias, sua história, seu desejo.

 

Para Jean-Michel Vives, Lacan propôs uma nova dialética das pulsões, ao conferir à invocação, como ao olhar, o estatuto de pulsão. A voz que vem do outro é a manifestação de seu desejo. Igualmente, é o desejo que se tem dele, o que leva Lacan (1965-66) a afirmar que o objeto a é diretamente implicado quando se trata da voz e isso no nível do desejo. Se o desejo funda-se como desejo do Outro, esse desejo enquanto tal manifesta-se no nível da voz. A voz não apenas o objeto causal, mas o instrumento pelo qual se manifesta o desejo do Outro. O termo é perfeitamente coerente, constituindo, se posso dizê-lo, o ápice em relação aos dois sentidos da demanda, seja ao Outro, seja vinda do Outro.

 

O infans nas origens de sua existência, sob o efeito de uma tensão endógena impossível de ser gerida, devido ao seu desamparo, lança um grito. O grito do recém-nascido não é, inicialmente, um apelo, sendo somente a expressão vocal de um sofrimento. Somente tornar-se-á apelo, pela resposta da voz do Outro, onde sinaliza seu desejo: “que queres tu que eu te queira?”. O sujeito é aqui chamado a ser.

 

O circuito da pulsão comporta assim dois tempos:

a) Ao grito do infans, o Outro responde, chamando-o a advir como sujeito
solicitando dele: “Torna-te!”

b) A partir daí, o infans não terá mais acesso diretamente à materialidade vocal que ficará, no melhor dos casos, velada pelo processo de significação. A busca da voz como objeto pode então acontecer. O infans, ao perder voz como objeto que se torna invocante, entabula seu processo de subjetivação e impulsiona seu percurso desejante: “Retorna!”

 

O infans, para advir como falante, deverá poder tornar-se surdo ao timbre primordial para falar sem saber o que diz, isto é, como sujeito do inconsciente. Para tornar-se falante, o sujeito deve adquirir uma surdez a este outro que é o real do som musical da voz. Do mesmo modo que um ponto cego estrutura a visão, a aquisição de um ponto surdo – constituído pelo recalcamento originário – é necessário para ser possível ouvir e falar. Vivés levanta a hipótese de que essa surdez estrutural é aquilo pelo qual somos protegidos da alucinação auditiva. O sujeito que era invocado pelo som originário, tornar-se-á, pela palavra, invocante. Nessa reviravolta de situação, o sujeito conquistará sua própria voz.Assim, a operação do recalcamento originário permite à voz permanecer em seu lugar, isto é, num primeiro tempo inaudível e depois inaudita. Aqui se enlaça, na sua dimensão subjetivante, a pulsão invocante da qual Lacan (1964, p.96), pode afirmar que ela era “a mais próxima da experiência do inconsciente” .

 

Para Miller, os objetos ditos a só podem se afinar com o sujeito do significante se perderem toda substancialidade, se estiverem centrados por um vazio que é a castração.

 

Lacan tomou a função da fala no campo da linguagem como ponto de partida para entender a experiência psicanalítica. Eu diria que a instância da voz merece inscrever-se como um terceiro entre a função da fala e o campo da linguagem. Neste sentido, a voz, no uso muito especial que Lacan faz desse termo, é sem dúvida uma função do significante –ou melhor, da cadeia significante como tal. “Como tal” implica que não é somente a cadeia significante como falada ou entendida, também pode muito bem ser enquanto lida e escrita. O ponto crucial dessa voz é que a produção de uma cadeia significante – eu lhes digo nos termos mesmos de Lacan – não está ligada a este ou aquele órgão dos sentidos, a este ou aquele registro sensorial.

 

A voz é uma dimensão de qualquer cadeia significante, na medida em que qualquer cadeia significante – sonora, escrita, visual, etc. – comporta uma atribuição subjetiva, ou seja, designa um lugar para o sujeito.

 

A profª Luccette Colin, da área de Análise institucional, da Universidade Paris 8, comentou sobre a pesquisa: “Há um dimensão política e uma forma de intervenção que funciona como um mediador social que permite que a fala destas pessoas faça parte do discurso da comunidade. O pesquisador atua como um interventor que permite a intermediação de um ato de reconhecimento e a inscrição da palavra do homem, que até então não tinha escritura sobre o espaço público.”

 

Referências Bibliográficas

LACAN,J.(1965-66). Le Séminaire Livre XIII, L’objet de la psychanalyse. (inédit).
_________( 1949).Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je.Comunicação realizada no XVI Congresso Internacional de Psicanálise.Zurich.
_______(1985). Do olhar como objeto a minúsculo. In: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro : Ed. Zahar .
MILLER J.A. “Jacques Lacan et la voix”. In: La voix. Paris: La Lysimaque, 1989, tradução Opção Lacaniana Online, Ano 4 • Número 11 • julho 2013 • ISSN 2177-2673
Tatsch, C.R. Formas expressivas e discursos de uma comunidade urbana do Rio de Janeiro : um uso do teatro e do vídeo antropológicos ,tese de doutorado, IP, UFRJ
________Projeto de Pesquisa Subjetividade, Cultura e Desenvolvimento Social. Relatório científico. ECO UFRJ. FAPERJ. 2005
———- Projeto: Direito ao Trabalho e Desenvolvimento Humano e Social.Relatório de pesquisa.FAPERJ.2007.
Vives,Jean-Michel”Pulsão invocante e os destinos da voz”, Tradução: Francisco R. de Farias, Revisão: Denise Maurano, Psicanálise & Barroco em revista v.7, n.1: 186-202, jul.2009.

Pontuações sobre L’Insu e a Lógica Modal.

Carmen Rodrigues Tatsch

Este trabalho resulta de uma questão que surgiu no decorrer do Cartel L’Insu que sait de l’une bévue s’aile a mourre. No momento estamos passando por um processo de dissolução deste que se iniciou com a saída de um participante que era presente/ausente, quer dizer, embora inscrito no cartel raramente aparecia, mas avisava de sua ausência. Após algum tempo, não mais compareceu e despediu-se com uma mensagem pelo watsapp.

A experiência que vivemos neste cartel instigou-me a escrever a respeito de duas questões: uma, sobre o processo deste; outra abordando a lógica que atravessa o Seminário l’Insu que sait de l’une bévue s’aile a mourre.

 

Quanto à primeira questão, em “A função dos Cartéis”, in: Documentos para uma Escola, Ano 1, nro 0, Mustafá Safouan comenta que o “mais um” é uma função que não tem nenhum equivalente social a que possa se referir. E Daniel Sibony diz que há no “mais um” a função de resto. O “Um” seria o resto, estaria abandonado, o mais próximo possível do ponto pelo qual o real vai insinuar-se no grupo. Lacan comenta : é justamente disto que se trata. De que cada um imagine ser responsável pelo grupo, tem que responder como tal… aquilo que faz o nó borromeano está submetido à condição de que cada um seja efetivamente, e não só imaginariamente, o que sustenta todo o grupo.

 

Creio que é esta função do “mais um” visto como um por um, que possibilita um giro, um movimento no cartel. Nos Documentos para uma Escola IV – O Que é a Escola?- há um escrito de Dalmara Marques Abla denominado Cartel, trabalho, formação, que relaciona uma poesia de João Cabral de Mello Neto “Uma bailadora sevilhana”, com o cartel .
Dançar flamenco é cada vez: é fazer, é um faz, nunca um fez.
Dalmara entende que, tal como o estribilho transcrito, o dispositivo do cartel é também cada vez ; é um faz, nunca um fez.

 

No decorrer do estudo de l’Insu buscamos entender que lógica atravessa este seminário. Lacan, em Encore, aponta para a lógica que o sustenta: é a modal.

 

Ao pesquisar sobre a Lógica Modal, vimos que esta tem sido estudada desde o início do século XX. Sua formalização deu-se com Lewis, em 1918. Na forma como a conhecemos hoje, foi concebida por Gödel, em 1933, por extensão modular da lógica proposicional clássica.

 

Conceitualmente podemos dizer que a lógica modal é o estudo do comportamento dedutivo de expressões que tratam de modos quanto ao tempo, possibilidade, probabilidade.

 

As proposições desta lógica podem ser classificadas como:

Necessárias – Proposições que necessariamente são verdadeiras ou falsas, ou seja, sua negação é impossível. “2+2 = 4”

Possíveis – Proposições que podem levar a uma ocorrência, ou seja, ela não é necessariamente falsa. “Pode estar chovendo em Natal agora”

Contingentes – Proposições que podem ser ou não verdades. “Sócrates era um filósofo”

Impossíveis – Proposições que marcam a impossibilidade de um acontecimento. “Uma pedra tem emoções”

 

Realizaremos algumas pontuações sobre trechos pinçados de escritos de Lacan e outros autores, que se relacionam com esta lógica.

 

No início do seminário 24, Lacan comenta que “L’insu que sait faz blá-blá-blá, isso equivoca”. E o título do seminário traz outras equivocações. Maria da Penha Simões, em seu texto “Um título em Anfiguri para um seminário acerca de “l’une bevue”, trabalha bem estas polifonias. A autora irá mencionar l’insu que sait, que pode ser traduzido como o não sabido, mas que soa como insuccès ( insucesso). Une bévue é entendido como equivocação, mas tem a sonoridade de Unbewusst ( o inconsciente). S’aile a mourre – mourre é um jogo popular, chamado no Brasil de “porrinha’, mas que pode ouvir-se como c’èst l’amour (é o amor).

 

A lógica modal classifica as proposições como necessárias, possíveis, contingentes, impossíveis. Lacan irá trabalhar estas de um modo singular.

 

Em Encore, ele irá associar estas categorias segundo se escrevem ou não, e se cessam ou não de escrever-se. À categoria do Necessário, Lacan irá relacionar o Sintoma; à do impossível, a “não há relação sexual”; ao possível, a equivocação (Unbewüst- inconsciente); ao contingente, o amor.
Lacan, em l’Insu, diz que L’une bévue, isto quer dizer um tropeço, uma vacilação, um deslizamento de palavra a palavra..Ao associar l’une bévue ao som de inconsciente, aponta para o sonho, o ato falho e o chiste como equívocos. O que se diz a partir do inconsciente participa do equívoco que está no chiste, equivalência do som e do sentido.Daí poder anunciar que o inconsciente está estruturado ‘como” uma linguagem. Na estrutura do inconsciente deve-se eliminar a gramática, mas não se deve eliminar a lógica. No frances há gramática demais. É preciso que a gramática esteja implícita para poder ter seu justo peso.

 

Ao estabelecer pontos de aproximação e de oposição entre as categorias modais e os modos de inscrição, Lacan realizará articulações que indicam as relações entre eles. Em Encore, ele afirma que “O necessário é o que “não cessa de se escrever.” O que ”não cessa de não se escrever”, é uma categoria modal que se opõe ao contingente. O necessário está conjugado ao impossível e esse “não cessa de não se escrever é sua articulação. O necessário, na medida em que ele “não cessa de se escrever”, é que, o que se produz é o gozo, que não seria possível, não faltaria. É esse o correlato de que não há relação sexual. E é o substancial da função fálica“.

 

Em outro ponto deste seminário Lacan continua: “É nesse “cessa de não se escrever” que reside a ponta do que chamei a contingência. A contingência, se, ela se opõe ao impossível, é na medida em que o necessário é o que “não cessa de se escrever”. Ora está bem aí a necessidade, a que nos leva a análise da referência ao falo. O “não cessa de não se escrever”é o impossível, que não pode se escrever em caso algum. É nisso que eu designo o que é da relação sexual. A necessidade da função fálica é que é, enquanto modo do contingente que o “não cessa de se escrever deve se escrever, cessando de “não se escrever”É como contingência na qual se resume tudo o que se refere ao que , para nós, submete a relação sexual a não ser, para o ser falante, senão o regime do encontro fortuito. É neste sentido que se pode dizer que o falo “cessou de não se escrever”. Ele não entrou no “não cessa”, no campo do qual dependem a necessidade e a impossibilidade”.

 

“O deslocamento dessa negação, a passagem de “cessa de não se escrever” ao “não cessa de se escrever”, a necessidade substituindo essa contingência, está bem aí o ponto de suspensão ao qual se apega o amor. Todo amor, por só subsistir pelo “cessar de não se escrever”, tende a fazer passar esta negação ao “não cessa, não cessará de se escrever” E é esse efetivamente o substituto que, pela via da existência – não da relação sexual, mas do inconsciente, que dela difere – por esta via faz o destino e também o drama do amor.”

 

Além dos seminários de Lacan citados, a leitura dos escritos de outros autores deram uma maior compreensão sobre as questões que o seminário levantou.

Délia Elmer, em RSI, faz uma leitura da lógica modal de Lacan e a escreve como segue abaixo:

 

 NECESSÁRIO                                                  IMPOSSÍVEL
Não cessa de escrever-se                     Não cessa de não escrever-se

Sintoma                                                         A relação sexual

POSSÍVEL                                                  CONTINGENTE
Cessa de escrever-se                                    Cessa de não escrever-se
Equivocação ( Unbewuste)                                             Amor

 

 

Diana Rabinovich, em Sexualidade e Significante, diz que “a escritura “não há relação sexual” deve ser entendida no contexto da lógica modal. A relação sexual é impossível de escrever porque o significante A mulher não existe. Existe o falo como significante do gozo, que permite inscrever a todo ser falante como respondendo à função fálica.

 

Segundo esta autora, a condição da lalangue é lógica. O não-todo é comum à lalange e ao significante da sexuação feminina ,A / mulher barrada. O A/ cruzado pela barra sigfica a inexistência , a impossibilidade de um universal de A mulher. S ( A/) marca o impossível do todo a nível do universo do discurso. Esta negação do universal é consequência do axioma de Lacan : não há Outro do Outro, não há metalinguagem. Esta formulação é inseparável do axioma “não há relação sexual”, que surge como ordenando a estrutura do inconsciente.

 

Nilza Ericson, em seu livro “Economia de gozo e final de análise”, diz que o Teorema de Gödel chega ao não demonstrável, nem refutável, mas que escreve um indecidível. A fórmula que traz na sua estrutura “Eu não sou demonstrável”, diz “Não há relação sexual”. Há alguma coisa que resiste como real, que não é demonstrável, que não é passível de ser escrito ou todo apreendido pelo simbólico… Falta algo ao saber que é da estrutura. Mas é algo que vai propiciar uma invenção. Invente uma forma singular… A invenção singular da resposta de cada um não é outra coisa senão a escrita do real da estrutura.

 

Delia Elmer, em RSI, diz que “homem e mulher são significantes, nem o inconsciente se reconhece como homem, ou como mulher, é uma questão de inscrição. Não há dois sexos, nem um só sexo, há um e um. Não são adicionáveis, não são opostos, não são complementares, são heterogêneos”.
Nilza Ericson entende que o que faz obstáculo à suposta relação sexual é o falo e o que ele faz limite e que ele limita ao mesmo tempo. O falo sustenta o limite do simbólico. Entre o homem e a mulher, entre um lado e outro, o falo faz obstáculo, impede que haja um encontro que faça de dois, um.

 

Delia Elmer menciona que não há relação sexual, uma das maneiras de dizê-lo é que não se pode gozar do corpo do Outro, daí a angústia. O que é da relação sexual é estritamente impossível de escrever xRy. Não há elaboração logicizável e ao mesmo tempo matematizável da relação sexual.

 

Em seu texto, Sinthoma e escritura, Eduardo Vidal entende que o sintoma foi introduzido como substituição de uma satisfação malograda. O sentido do sintoma toca o Real. O sintoma é escritura; ele efetiva a repetição da letra no inconsciente, que não cessa de escrever…o impossível da relação sexual.
A relação sexual é da ordem do impossível e o falo ali é contingência, que reduz o que é do sexual no ser falante ao regime do encontro.

 

Eduardo Vidal entende que conhecer seu sintoma é a forma de saber fazer com. Não é um saber mas um ato que tem alguma ressonância com o modo com que cada um se vira com a sua imagem, na medida que ela faz o corpo, habituando-se a suportar a estranheza própria à irrupção do Real.

 

Delia Elmer afirma que Lacan define uma mulher como sintoma do homem. O que não cessa de escrever-se deve passar antes pelo cesse de não escrever-se, que dizer, o amor. O amor é precioso, raramente realizado e dura só um tempo. O amor faz suplência à não relação sexual, fazendo desde o imaginário que cesse de não escrever-se, porém este não faz báscula e reaparece no não cessa de escrever-se, isto é, o sintoma. Lacan diz que para que não cesse de escrever-se é preciso que antes tenha cessado de escrever-se. Devemos entender que, para que uma mulher seja sintoma do homem, deve intervir aí o amor.

 

Para Diana Rabinovich, o axioma que marca o impossível, quer dizer, o real da sexualidade, culmina em uma logificação quantificacional da sexualidade e a redefinição da estrutura de linguagem do inconsciente como lalangue

 

Ao finalizar estas pontuações, ficam algumas questões que continuarão a ser pesquisadas. Uma delas é a dos movimentos que se realizam, na escrita de Lacan, entre os significantes mencionados. Nesta, o Impossível se opõe ao Contingente; e o Necessário está conjugado ao Impossível. Esta posição dos significantes que se opõem teria relação com o cessar e o não cessar ? E os que se conjugam, estariam ligados ao ato de ambos não cessarem? De se escrever ou não. E como os movimentos entre os significantes desta escrita de Lacan se articulam com a clinica?