Textos

Roda de Conversa Dia 26 com Julio e Regina

 

 Joyce e psicanálise

 

Joyce revolucionou a literatura. Ele, desde menino, destacou-se nos estudos. Sua família previa grande futuro, ele era tratado com deferência, tinha prestígio na escola. Era extremamente católico. Quando declinou sua fé no catolicismo, veio a substituir esta pela escrita. 

Lacan diz que o catolicismo e a escrita, a literatura, funcionaram como consistência, como ancoragem para Joyce.    

Lacan apresenta uma nova concepção de sintoma – o Sinthome- Saint Homme (Santo Homem) e o enraíza no real, na conjunção entre letra e gozo. O Sinthome como escrita de gozo.  

Joyce, com sua escrita enigmática, presentifica a carência paterna. Em sua obra ele renega o pai, mas permanece enraizado nele. 

Para Lacan, seu sintoma é elevado à potência de gozo da linguagem. 

 

A escrita em Joyce terá a função de suprir um desnodamento do nó. Sua linguagem segmenta frases, quebra palavras, se compõe e se decompõe, produzindo neologismos. 

Esta escrita é o que há de mais próximo ao lapso. E é a título de lapso que isso pode ser lido de uma infinidade de modos diferentes. 

Em Um retrato, ele disse que “havia diferentes tipos de dor para todos os diferentes tipos de som”. 

 Joyce vai triturar a palavra tirando dela mais o que se ouve, do que o que se lê. As palavras soam com ressonâncias variadas, em uma dimensão de puro equívoco. 

Diz-se que sua alegria se expressava ao escrever. Ali manifestava seu gozo, fazendo da letra (letter) lixo (litter).

 Lacan comenta que Joyce era o signo do seu embaraço.   

Joyce escreve poemas em forma de prosa que denominou Epifania. E a define como uma súbita revelação da essência de uma coisa. Como uma súbita manifestação espiritual, momento em que a alma do mais comum dos objetos …nos parece radiante.    

As mais eloqüentes epifanias, às vezes, são momentos investidos de paixão; outras retratam o acesso a uma súbita alegria. 

As epifanias eram escritas em papel de rascunho, que Joyce pegava nas bibliotecas e carregava sempre no bolso.  

Nesta Roda de Conversa teremos como convidados Os Leitores. Júlio Mafra e Regina Guariglia lerão trechos selecionados da obra de Joyce. 

 

JOYCE E LACAN: algumas notas sobre escrita e psicanálise 

 Doris Rinald

1 Psicanalista, membro de Intersecção Psicanalítica do Brasil, professora adjunta do programa de Pósgraduação em Psicanálise do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

 

Roda de Conversa Dia 29 com Luiz Paulo

Invisíveis

O tema da roda de hoje trata dos invisíveis, daqueles que são não só ignorados, mas considerados seres abjetos, que devem ser descartados. São considerados dejetos.

Nesta época de ascensão de lideranças autoritárias e populistas, vimos o crescimento de movimentos em que os sujeitos abrem mão da subjetividade, da escolha e se fundem na massa.

A intolerância desaparece, por meio da formação da massa e dentro da massa. Os integrantes de uma massa supõem-se todos irmãos indiferenciados, como se tivessem a mesma forma, uni-form-izados.
A massa pode ser constituída pelo ódio a um inimigo comum. Os sujeitos que podem ser colocados em esquemas preconceituosos, tais como o racismo, a xenofobia, homossexualismo são transformados pela massa em sujeitos que eles consideram abjetos. Há a queda da identificação, e aumento da rejeição ao que lhes é considerado estrangeiro.
Há o gozo da massa e o ódio como paixão. O outro tomado como abjeto é desumanizado, deve ser jogado fora.

Os homens fundamentam os sentimentos de estranheza e hostilidade entre eles em suas pequenas diferenças, apesar de sua semelhança em todo o resto.

A alteridade é vivida como uma ameaça e expurgada dos laços sociais.
A unidade só se forma e se mantém quando há um outro a quem se destina esse impulso agressivo.  Hà uma heterogeneidade intergrupal e, ao mesmo tempo, uma homogeneidade intragrupal.

Nas sociedades contemporâneas, dominadas pelas relações de mercado, sob o domínio do discurso capitalista, cresce a transformação dos laços sociais em mercadorias, reduz-se tudo ao valor de uso, às funções que os objetos ocupam. Há uma “coisificação” de tudo e de todos.

Os discursos que imperam são de dominação. O modo de derrubar o poder imperativo destes discursos é substituir estes dando lugar ao desejo.E que é de cada um. Um a Um.

O convidado para abordar a questão dos Invisíveis foi Luiz Paulo Ribeiro Barbosa, professor de História e Sociologia, com mestrado em Ciência Política, participante da Escola de Psicanálise letra Freudiana. Ele atua com moradores em situação de rua, especialmente aqueles que freqüentam a chamada “cracolândia”. Trabalha como cozinheiro voluntário na brinquedoteca da Mangueira e é coordenador de projetos sociais no morro da galinha e do Jacaré.

Mulher e gozo místico

Mulher e gozo místico

Carmen Rodrigues Tatsch

 

Com o advento da pandemia, após o susto, reiniciamos os seminários e cartéis. Não sabíamos como estes iriam ocorrer. O novo percurso se deu com vigor e entusiasmo, com debates instigantes. Um dos cartéis, o l’Insu, veio a dissolver-se. Foi um processo de resolução muito rápido e contou com a adesão de todos os participantes. Algo ali caiu, dando lugar para que outros processos possam vir a constituir-se.

Fui causada a apresentar o trabalho Mulher e gozo místico a partir das interlocuções surgidas no cartel Encore e nos seminários de Nilza Ericson e de Nestor Vaz.

No estudo das fórmulas da sexuação, aguçou-me a escuta sobre a posição da mulher. Lacan irá abordar esta pela via da lógica. O gozo infinito, o gozo do lado da mulher é suplementar á função fálica. Desse gozo a mulher nada sabe, a não ser que o experimenta.

Lacan vai trabalhar com diferentes lógicas ao escrever sobre as fórmulas da sexuação. Nilza Ericson, em seu livro Economia de Gozo e Final de Análise, ao discorrer sobre o Teorema de Gödel e a questão da incompletude, comenta que esta fórmula é uma escritura, não é demonstrável e diz que não há relação sexual.

Segundo Nélida Halfon, em El nombre de La falta, em Encore, Lacan ao abordar as fórmulas da sexuação estabelece quatro lugares  inter-independentes que têm uma rotação que indica a lógica em que se constituiram.

Neste seminário, Lacan reinterpreta o conceito de compacidade.  Vappereau apresenta a compacidade como uma noção da topologia geral. Nesta concepção, um espaço é aberto, ou fechado, conforme ele contenha ou não seus limites. Na reta real R, há o espaço fechado [ 0,1] enquanto que o espaço aberto  ]0,1[ não os compreende.

Lacan cita o paradoxo de Zênon ao abordar a questão da compacidade. Este paradoxo é ilustrado pelo argumento de Aquiles e da tartaruga. A tartaruga, assim como Aquiles, não chegará nunca ao limite. Aquiles só pode ultrapassar a tartaruga, ele não pode alcançá-la, ele só a alcança na infinitude.

Se tomarmos duas retas paralelas que se encontram num ponto no horizonte, este ponto é finito, aparece como um limite, mas ele supõe ali uma infinitude. Pode-se fazer uma divisão infinita entre o zero e o um.  Então, é um paradoxo porque é um ponto no qual nunca se chega.

Para Lacan, “nada mais compacto do que uma falha… se está dado que a intersecção de tudo o que aí se fecha sendo admitida como existente, num número finito de conjuntos, disso resulta, é uma hipótese, que a intersecção passa do finito ao infinito. Isso é a própria definição da compacidade.”

Questões surgidas no seminário de Nestor Vaz levaram-se a indagar sobre o transfinito, tal como Cantor aborda. Lacan irá relacionar este conceito ao lugar do homem entre os números inteiros e o da mulher entre os números reais, que são transfinitos. O homem faz conjunto, mas não se pode fazer o conjunto de uma mulher.

O feminino está no intervalo entre 0 e 1. Neste intervalo nunca se chega a zero e nunca se chega a um. Entre um número e outro sempre há mais um.

Nas fórmulas da sexuação, no lado do homem, o existe um X que diz não é o que sustenta o universal.  É o limite, é a função de borda, é o envolvimento pelo Um que permite que um conjunto se afirme com relação à castração.

Na mulher nada vem dizer não, nada vem negar a função fálica. Ela se situa em relação a outra coisa. Com relação à função fálica, a mulher só pode se inscrever como ‘não toda”.  O gozo do lado da mulher é suplementar á função fálica. O singular, o não-todo, o contingente permite infinitas versões do gozo feminino, do  gozo para além do falo.

Lacan comenta que há algumas mulheres, na maioria das vezes, ou pessoas de talento como São João da Cruz, que são chamados de místicos. Ele fala de Teresa de Jesus que dá o testemunho de sua relação com Deus. E considera esta experiência como exemplo de uma forma particular de gozo, o gozo místico.

O gozo dos místicos é algo que se experimenta e do qual nada se sabe. Lacan pergunta: “Será algo a caminho da ex-sistência? Poderíamos falar em uma face do Outro, a face de Deus como sustentada pelo gozo feminino”?  E comenta: Eu creio em Deus. Eu creio no gozo d’%, na medida em que ela é “a mais”.

Clara de Góes, em seu texto A escrita do corpo no Livro da Vida, diz que na escrita de Teresa d’Ávila se faz um corte entre gozo e corpo. Enquanto o corpo é sublevado, a alma é transportada a graus cada vez mais arrebatados de um gozo indizível.

Ela assim comunica suas experiências místicas: “Muitas vezes meu corpo me parecia ter ficado leve ao ponto de não ter mais peso… Quando o arrebatamento está em seu ponto culminante, em que as forças são suspensas, devido à sua íntima união com Deus, então não se vê, não se sente, não se ouve mais…nenhuma força tem o sentimento de si mesma, nem sabe o que se passa ali.

Para Lacan, o gozo é sentido pelo corpo, e neste real ele permanece inefável e indizível. Isto também caracteriza a experiência dos místicos.

No Seminário da Ética da Psicanálise, pg. 314, Lacan diz que em Fedra os amantes agenciam seu amor segundo a epopsi, ou seja, a iniciação da qual participam. Ele relaciona este tipo de iniciação, onde ocorrem cerimônias durante as quais se produzem fenômenos de transe e possessão, com aqueles que ocorrem no Brasil, em que um ser divino se manifesta.

Para Platão, aqueles que tiveram a iniciação de Zeus não reagem no amor como aqueles que tiveram a iniciação de Ares. Lacan relaciona este fenômeno com aquele que ocorre no Brasil para designar tal espírito da terra, ou da guerra.

Uma questão que surge é: Pode-se dizer que o transe no candomblé é uma das expressões do gozo místico?

As experiências vividas nos ritos de iniciação do candomblé podem ser entendidas como uma passagem para a inserção em uma cultura, para a inclusão em códigos e em laços sociais.

Em um texto que escrevi em 1997, intitulado Os Nomes do Pai e o Ritos de Iniciação, publicado na revista Do Pai, o limite em psicanálise, abordei o rito de iniciação no sentido de entrada na cultura. Isto implica passar pela castração, oferecer um limite ao gozo a mais. Freud irá falar dos ritos de iniciação no prefácio do livro O Ritual – psicanálise dos ritos religiosos, de T.Reik. Ele diz que as formas religiosas ulteriores ao totemismo procuram apagar os traços da morte do pai e repetem esta mesma negação do pai.

Outro modo de conceber o êxtase vivido nestes ritos é pela via do gozo místico. Este gozo está do lado da mulher. Mas Lacan diz que não se é obrigado, quando se é macho, a se colocar do lado ∀X. ФX. Os machos podem colocar-se do lado do “não todo” e experimentar a idéia de que em algum lugar poderia haver um gozo que estivesse além. No transe do candomblé, há uma feminilização, o gozo é ‘não todo”.

Em “Mal-estar na cultura”, Freud irá tratar das experiências extáticas como um ”sentimento oceânico”.  Marlos Gonçalves Terêncio, em sua dissertação “Um percurso psicanalítico pela Mística, de Freud a Lacan” refere-se à correspondência entre Freud e Rolland, onde os autores tratam do tema. Eles debatem sobre os místicos Ramakrishna e Vivekananda e relacionam os fenômenos por eles experimentados ao “sentimento oceânico”.

Recentemente vi um vídeo de um guru indiano, Atma Nambi, que assim relatou o que ele considera sua iluminação: eu estava meditando e de repente senti a consciência ir para fora, perdi os 5 sentidos. A percepção externa sumiu. Eu era só um observador. Então comecei a ser pressurizado, é como se várias pessoas me batessem com barras de ferro, sentia muita dor. E tudo era decidido por Ele, eu não podia fazer nada. Houve uma explosão de raios, foi como uma bomba atômica explodindo dentro de mim. E veio uma paz enorme. Tudo era amor.

Este relato tem muitos pontos em comum com os das experiências místicas vivenciadas por católicos, tais como, Teresa D’Ávila e outros. Em ambos há a vivência de gozo e de dor, de que são tomados por uma força exterior que os governa.   A mística em êxtase perde todas as referências, há o apagamento do corpo. Mas esta permanece amarrada no mundo da linguagem, fazendo laço social.

 

Bibliografia

 

ERICSON, N., Economia de Gozo e Final de Análise, Rio de Janeiro, Ed. 7 Letras,

2015.

GÓES, C. Revista A Prática da Letra – A escrita do corpo no Livro da Vida. Rio de Janeiro : Escola Letra Freudiana, 2000.

HALFON, N. En el nombre de la falta. Buenos Aires : Letra Viva, 2001.

LACAN, J., Encore, Rio de Janeiro, Escola Letra Freudiana, 2010.

________, A Ética da Psicanálise, Rio de janeiro, Ed. Zahar, 1988.

TATSCH,C., Os Nomes do Pai e os Ritos de Iniciação, in DO PAI , O Limite em Psicanálise,Revista Letra Freudiana, Ano XVI, nro 21, Rio de Janeiro, Ed. Revinter, 1997.

VAZ, N., interlocução e anotações do Seminário Do Matema à Clinica, Escola Letra Freudiana, Rio de Janeiro, 2020.

 

 

 

Caleidoscópio

Quando estava em Inhotim e vi o efeito que este caleidoscópio dava,  fiquei inspirada. Lembrei dos caleidoscópios que tive quando criança, feitos de grãos, missangas e outras coisas. Quando você girava, formavam-se várias figuras, sempre diferentes, dependendo de como caíam e aquela forma que aparecia se multiplicava muitas vezes. Eu ficava encantada e por mais que meu pai me explicasse como aquilo funcionava, para mim parecia mágica.

Eis-me então em Inhotim vendo e vivendo este efeito de multiplicação de imagens. Só que agora é a imagem de meu rosto. Muitas perguntas surgem: Quantas Carmen há aí? Quantas Carmen há aqui? Os diversos caminho trilhados na vida me levam a muitos lugares. Às vezes me pergunto e se naquele momento aquela aposta que fiz, aquele caminho que pensei em seguir tivessem se concretizado, como teria sido minha vida? Mas sei que minhas escolhas teriam sempre a mira voltada para certas direções – a escolha da liberdade, a busca da amorosidade e do fortalecimento de redes de compartilhamento, o percorrer os caminhos segundo minha ética pessoal.

 

Roda de Conversa 13

Roda de Conversa  – dia 27 de junho

Neste sábado Nosso convidado foi Kiko Continentino. Na primeira parte da Roda de Conversa esta girou especialmente ao redor de Gilberto Gil. Foram lidas letras de músicas deste compositor. Eu li Palco. Chamou-me a atenção passagem por dois movimentos: um aponta para a leveza, a alegria, o deleite. Diz que

Subo neste palco, minha alma cheira a talco, como bumbum de bebê. Eu como devoto trago um cesto de alegrias de quintal.

Há também um cântaro, quem manda é deusa-música pedindo pra deixar, pra deixar derramar o bálsamo.

Entremeando os versos suaves surgem outros trazendo a cólera:  Fogo eterno pra afugentar
O inferno pra outro lugar
Fogo eterno pra constituir
O inferno
Fora daqui, fora daqui
Fora daqui, fora daqui

Estes dois movimentos, da amorosidade e da cólera, têm correspondências com o Brasil

Enquanto um dos participantes da roda lia uma das letras, surge Kiko Continentino e inesperadamente começa a acompanhá-lo no piano. Esta chegada quebrou toda a rígida combinação que eu havia feito. E me deu a sensação de liberdade e amplitude. Percebi o quanto naquele momento e com esta pessoa que ali estava com sua plena presença, não fazia o menor sentido a marcação: primeiro tantos minutos para isto e depois tantos para aquilo. Deixar fluir. O improviso não só no palco, mas na vida, pensei. Preciso praticar mais isto.

A seguir Kiko tocou algumas músicas solo e outras acompanhado de sua esposa Lucynha Lima. As músicas eram intercaladas com um papo descontraído e afetivo. A qualidade artística de Kiko eu já conhecia de longa data. Sabia que estaria em companhia de um dos melhores pianistas/ tecladistas do Brasil. O que chamou a atenção foi a espontaneidade e a receptividade para com os outros. Lucynha Lima se emocionou ao falar do interessante trabalho que desenvolve com pessoas que freqüentam a APAE.

O bate papo se estendeu até os limites do tempo da roda. Foi uma experiência inesquecível. 


Roda de Conversa 16

Roda de Conversa – 18 de Julho

Esta roda de conversa iniciou um novo modo de funcionamento. Como trataríamos de um tema que não pretendíamos que fosse aberto de forma indiferenciada e queríamos um maior aprofundamento do debate,  realizamos a roda somente para convidados especiais.

Não houve uma divisão bem delimitada da primeira e da segunda parte. Como foi apresentada uma pesquisa realizada em uma comunidade dominada por um governo paralelo e eu pesquisei uma comunidade dominada pelo tráfico de drogas, pudemos ir pontuando as questões por ela pesquisada, com questões que surgem em outras comunidades e no Brasil de forma geral. O debate foi intenso e interessante.

Entre os significantes encontrados na literatura para  dizer sobre o viver em comunidade, encontramos: desigualdade, exclusão, injustiça, sofrimento, Desqualificação

Na modernidade é o Estado- Nação quem decide entre o que é produto útil e refugo.

Bauman entende que busca-se a vida em comunidade devido à  insegurança existencial e à busca de uma comunidade segura.

La Boetie entende que a servidão voluntária é inaugurada  na modernidade

Para Joel Birman na modernidade  há o esvaziamento simbólico do pai e seu restabelecimento como fantasma. O declínio da autoridade do pai resultou em incremento do gozo. Imperativo do gozo.

Freud entende que o mal-estar na cultura, o desamparo são constitutivos do sujeito.

Na comunidade estudada, há servidão voluntária, segurança privativada, medo da violência , alienação, homogeneização das subjetividades.

Insuflar o medo como estratégia de controle de massas.

Crescimento exacerbado dos evangélicos – história da igreja evangélica no Brasil – impulsionado pelo governo para se contrapor ao movimento operário

O não dito –  o controle do governo paralelo permeia todas as relações, mas não pode-se falar sobre isto. O medo e a repressão atravessa as relações familiares e sociais.

Há o discurso da necessidade de segurança para justificar a violência.

Discursos na comunidade: “aqui não tem violência” ;  “obedece ou morre” … ; “de repente alguém some “

Comentou-se sobre a atualidade e as mudanças que tem ocorrido nas comunidades.   

Roda de Conversa 14

Roda de conversa  4 de Julho

Neste dia, na primeira parte da roda, eu trouxe alguns estudos realizados       com o teatro e suas contribuições para a transformação da pessoa na relação consigo, com os outros e com o meio onde está inserida.

A partir de nossas pesquisas, entendemos que o teatro por ser uma arte de síntese; por ter funções catárticas, lúdicas, integradoras; por sintetizar e reorganizar os signos; por possibilitar a metamorfose e a expressão das emoções e de várias formas de comunicação, tem um potencial que nos permite a transformação do homem em sua relação com o contexto. Estas características do teatro podem auxiliar no processo de compartilhamento coletivo de experiências, de sentir-mo-nos pertencendo a um grupo, a uma cultura.

        Abordamos uma breve história do teatro, focalizando o momento de passagem dos ritos para o início do teatro.

         O teatro inicialmente era uma expressão integrada aos ritos, às festas,  onde se buscava o êxtase, a comunhão dos homens entre si e com o cosmos.

        Com uma organização social mais firme as artes irão surgir de forma diferenciada.Na cidade- estado grego passa a caracterizar-se como arte autônoma das outras e com regras específicas de atuação.

        É aí que tem início a tragédia.

        Fabio Nazareth, que além de mediador participa ativamente das atividades da roda, leu trechos da tragédia Édipo Rei, onde o coro diz:

A desmedida gera tirania.

A desmedida –

Se a infla o excesso vão

Do inoportuno e inútil- galgando extremos cimos, decairá

No precipício da necessidade, onde os pés não tem préstimo.

      Na Grécia antiga os deuses consideravam a desmedida ofensiva, pois ultrapassavam a medida do homem como mortal. Os que a cometiam eram condenados a castigos terríveis. Vide Édipo.

       Nos dias atuais, a desmedida é cultivada. Nesta sociedade de consumo o excesso é incentivado. Cada um querer manter-se na sua medida é entendido como ser alguém pequeno, sem valor.

Carmem Gadelha entra então e eu faço algumas questões que me instigaram em seu artigo O Barroco enquanto aspecto do grotesco e do trágico.

A primeira questão tem seu foco nas conseqüências sobre noções de corpo, espaço e tempo no teatro, a partir dos dois aspectos  que balisam o barroco: a obra de arte total de Wagner e a desconstrução do espetáculo em Artaud.

A resposta a esta pergunta, extremamente complexa, não é possível desenvolver aqui, mas pode ser acessada na Revista Urdimento, da UDESC. Bem como as demais questões descritas abaixo.

– O transbordamento artaudiano despeja elos da narrativa e conduz a um fora que retorna e cria dobras, inclusive políticas.

– O rosto é uma política: desfazê-lo também é.

O debate foi acalorado e vivo. Entre os exemplos dados relacionados aos dias atuais, interessou-me a menção das manifestações públicas de luto realizadas por moradores de comunidades que não puderam se despedir de seus familiares. Estas foram consideradas como espetáculo. O espetáculo hoje não se resume aos palcos tradicionais, mas ocupa também os espaços públicos.

Roda de Conversa 12

Roda de Conversa, 20 de junho

Hoje a roda girou em torno das músicas, em especial , das letras de Chico Buarque, em homenagem a seu aniversário. Cada pessoas lia, ou cantava uma música deste compositor. Eu li a letra de Meu Guri. Depois percebi que havia lido como uma mãe que tem muito orgulho de seu filho. Embora a letra diga:

Olha aí, é o meu guri.

Chega suado do batente e traz sempre um presente pra me encabular.

Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro, chave, caderneta, terço e patuá, um lenço e uma penca de documentos pra finalmente eu me identificar.

Olha aí, é o meu guri.

Esta mãe agradece por tanta atenção e dedicação por parte do filho. Quem vive na classe média e tem as necessidades básicas resolvidas, pode não entender esse orgulho.

Eu desenvolvi pesquisas em comunidades faveladas do Rio de Janeiro e muitas vezes ouvi mães e mulheres de pessoas que a lei irá chamar de ladrões , ou de traficantes, mas elas diziam coisas tais como:

Meu filho é bicho homem. Bota comida dentro de casa, me deu uma televisão de presente… seu olhar, seus valores, modos de vida são outros.

Após a leitura das letras as pessoas comentavam o porque de sua escolha.

No segundo tempo, contamos com a apresentação de Júlio Mafra e Regina Guarilia, criadores do projeto Os leitores. Eles leram letras, fragmentos e textos de Aldir Blanc.  Foi um momento poético muito tocante. Após a leitura, os entrevistei e comentaram sobre a história e motivação para a realização dos Leitores. A escolha de Aldir Blanc como tema foi de grande sensibilidade. Pela alta qualidade de sua obra, como uma dedicatória à sua recente perda, como apoio à lei De Emergência Cultural que leva seu nome. Os demais participantes trocaram interessadas opiniões sobre o tema.    

Roda de conversa – 11

Este dia foi marcante, pois iniciamos uma nova fase na Roda de Conversa : as entrevistas. No primeiro tempo a conversa girou em torno do texto de Simone de Beauvoir. Exibimos um vídeo com a interpretação de Fernanda Montenegro e cada pessoa fez comentários sobre a parte do texto com a qual se identificou.

Algumas frases foram impactantes, outras escolhidas por muitas pessoas. Teceram-se redes de interações. No segundo momento o professor de Butoh Gustavo Colini falou a respeito de seus mestres. Sobre Grotowski, comentou a religiosidade de seu teatro experimental; e discorreu sobre a dança existencial da coreógrafa Pina Bausch e a Dança das Sombras do bailarino criador do Butoh- Kazuo Ono. Os participantes da Roda de Conversa demonstraram terem tido grande interesse na entrevista e no debate com o professor.

Texto:

“A impressão que eu tenho é a de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente.

Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar.

Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele.

O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade.

Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.”

Simone de Beauvoir