O mal-estar faz parte da estrutura do sujeito e da cultura. Atravessa todas as relações. Mas há diversos modos de expressão em cada lugar onde se dá. Entre sujeitos que vivem em comunidades com situação sócio-econômico desfavorecida o mal-estar manifesta-se com características peculiares.
Este texto é um recorte no trabalho de pesquisa desenvolvido, com as metodologias da pesquisa-ação e do teatro e do vídeo antropológicos, na comunidade do Vidigal, Rio de Janeiro. O projeto em questão efetuado entre 1993 e 1997 articulava-se ao Doutorado em Saúde Mental do Instituto de Psiquiatria da UFRJ.
Nesta tese realizamos uma leitura de discursos produzidos por sujeitos moradores desta comunidade. Para Lacan, há 4 discursos que escrevem os laços sociais. Nada adquire sentido senão a partir das relações de um discurso com outro discurso. O discurso ocupa uma posição giratória em relação a um suporte. O suporte é o corpo. E o gozo se dá corpo a corpo.
No lugar estudado encontramos que um dos discursos que atravessa diversas instâncias é o Discurso do Mestre. Em …Ou Pior, Lacan ao falar sobre este discurso o associa ao outro que é tratado como objeto de gozo, ali os corpos estão petrificados, aprisionados. A idéia imaginária do todo, do que faz esfera, tal como é utilizada na política, se faz aí presente.
Afloraram nos discursos dos sujeitos pesquisados a identificação com as expressões usadas pela mídia e pela política partidária. Mas estes discursos não eram uma cópia exata destes. Os diversos aspectos que surgiram: o ufanismo, a violência, o consumismo, a marginalidade, revelaram-se com características específicas.
Encontramos como um dos significantes dessa comunidade o discurso da luta do Bem contra o Mal. Ao entrevistarmos as lideranças das formas associativa, tais como a Associação de Moradores e algumas associações ali sediadas, quando perguntávamos sobre o objetivo da realização de suas atividades culturais e socializantes, a resposta sempre era que pretendiam livrar as crianças e adolescentes do mau caminho.
Ouvíamos sempre a preocupação destes com “o Bicho”, que é o modo como o tráfico de drogas é chamado ali. Os traficantes passam a ser associados com todas as situações de perigo e violência. Há um não dito sobre o nome do tráfico. E uma recusa a relacionar as diversas formas de violência do cotidiano às relações entre os eles.
Nas entrevistas havia muita dificuldade em encontrar alguém que comentasse explicitamente algo sobre a violência que permeava o lugar. Alguns antigos moradores comentaram que, do ponto de vista do conforto, a situação melhorou com o passar do tempo. Mas diziam que “o coração não agüenta tanta violência. Eu nunca vou achar normal as pessoas andarem de arma na mão, pessoas darem tiros na hora que quiserem…”
Estes relatos eram raros e se davam quando asseguravam-se que não havia “olheiros” por perto. O diretor cultural da Associação de Moradores era também jornalista e trabalhava com vídeo e passou a acompanhar-me pela comunidade e a realizar os registros. Mas nosso percurso era sempre acompanhado sorrateiramente por alguém com uma metralhadora.
Neste momento, lembrando que estamos na década de 90, as duas forças – a legal e a ilegal – conviviam através de uma delimitação de espaços onde uma não interferia no lugar ocupado pela outra. Um dos líderes da associação disse: “A Associação não tem meio, nem interesse de brigar com essa outra força. Ela faz questão de ignorar. Eles tem o comércio deles e a gente tem o problema social.”
Era uma época diferente da atual onde, com freqüência, traficantes, policiais, políticos e milicianos encontram-se em estreitas inter-relações.
Segundo um dos líderes, a contribuição que eles davam para resolver o problema social era “dando um exemplo bom para estas crianças. À medida que eu pego as crianças, para serem um jornaleiro-mirim comunitário, construo uma base melhor e eles estão ganhando algum dinheiro, tem uma ocupação. Quando eu faço aula de capoeira, além de trazer à tona a cultura popular, também faço com que tenham o nosso apoio. Assim como também o futebol é um espaço para não deixá-los ociosos, mostrar que tem um pessoa responsável por eles. Esse trabalho contribui bastante para que não haja violência. Essas crianças tem a mesma orientação, mostramos o que é errado, a disciplina está sempre em evidência.”
Nas entrevistas com o vídeo, as lideranças estudadas auto – representavam-se como
forças do Bem, colocando todo o Mal do lado do ‘Bicho”. Mas o lugar do Bem e do Mal, da lei e da marginalidade não se dá tão rigidamente delimitado. Essa ficção é difícil de ser sustentada, ela tem por base uma lógica binária. A lógica binária não leva em conta o 3º excluído, ela é cega. Ela trabalha com o sim e o não, não abre possibilidade para o deslizamento, para a pergunta, trata os pólos opostos como naturais, congela a interpretação, impossibilita dar movimento às operações.
Mas o que leva estes sujeitos a interpretarem esta situação de uma forma tão maniqueísta? Que outras versões são possíveis nesta situação? Foi com o objetivo de dialetizar este olhar que nos propusemos a realizar um Curso de Teatro e Vídeo, com um grupo de crianças e adolescentes, na Escola Djalma Maranhão.
Encontramos que no discurso das lideranças comunitárias, as posições de senhor e a de escravo, assim como as representações de Bem e de Mal são mais rígidas, mais estanques. Se, por um olhar, podemos perceber o discurso do mestre subjacente, segundo outro olhar, o mestre não está mais presente.
Na sociedade contemporânea, a ciência aboliu o sujeito. Quando o mestre não está presente, o que permanece é o imperativo categórico: continua a saber ou, continua a gozar , a consumir .Não há mais necessidade que ali haja alguém, a figura do mestre como representante do saber está deteriorada. O jovem que tinha na figura do pai, do professor, o representante do saber quando estes não conseguem mais sustentar esta posição, vai identificar-se com algum outro modelo de Outro que sabe. Este Outro pode ser imaginarizado pela figura da Internet. Outro do saber passa a ser um outro que não responde, que não está encarnado, que não tem cheiro. A crise do jovem, do adolescente, é uma crise do pai. É preciso cair algo do lado do pai para que surja algo do lado do social, que venha ocupar o lugar do pai e cunhar o lugar de inscrição do sujeito
No discurso das crianças que participaram do curso as posições do senhor, daquele que manda e do que é oprimido movimentavam-se aleatoriamente, deslizavam de um personagem para outro, numa mesma ação dramática. O que chama a atenção nos temas trazidos por este grupo é a presença constante da violência, do confronto direto e agressivo em todas as relações. Nas improvisações teatrais, o papel do policial em luta violenta com o traficante, podia passar a ser entre o pai e a mãe, ou entre mãe e filho, ou entre patrão e empregado, ou entre namorados, ou amigos.
Em nossa hipótese de trabalho, perguntamo-nos se os discursos locais são diretamente influenciados pelos globalizantes, tais como os da mídia e os da política partidária; ou se foi possível para os líderes encontrarem caminhos que os levassem à produção de significados novos.
Nos discursos encontrados percebemos que a imagem que os líderes pesquisados têm de si mesmos aproxima-se da imagem que a mídia, que a ciência fabrica sobre eles.
.. . Uma história fantasmática de pânico e opressão povoa o imaginário de toda a população e é atravessada pelo real avassalador Os moradores encontram-se oprimidos entre dois polos: de um lado, os traficantes e a polícia que aterrorizam , que dominam pelo poder da arma de fogo, da força bruta. Por outro lado, há o terror advindo dos mandamentos das igrejas, em especial as evangélicas: “se não obedeceres ao que te ordeno, queimarás no fogo do inferno”. Os moradores estão encapsulados entre dois terrores- o do roubo do corpo, da matéria e o do roubo da alma. Em ambas posições há um senhor violento.
Ao analisarmos o processo atravessado pelas crianças durante a atividade teatral e realizarmos um recorte dos significantes mais encontrados no discurso produzido por estas percebemos que este é constituído pelos mesmos elementos do discurso do líderes, mas é absorvido e recriado com uma articulação diversa.
No discurso das crianças, há um movimento aleatório. A posição do senhor, que ora é associada ao policial, numa mesma dramatização pode passar a ser ocupada pelo marginal. O que chama a atenção nos temas trazidos por este grupo é a presença constante da violência, do confronto direto e agressivo.
Em uma das dramatizações, surgiu a seguinte cena:
MENINA 2: Sua favelada!
MENINA 1: Favelada é você!
MENINA 2: O que? tá me chamando de favelada?
MENINA1: É favelada mesmo!
MENINA 2: Você é uma favelada!
MENINA 1: Olha, aqui, eu vou rasgar a sua cara! Vai lá pegar o canivete pra ver como eu arranco a cara dela fora!
Esta cena representa um discurso ultra-reduzido, encontrado não só neste lugar, mas em outras esferas nacionais e internacionais.
Questionados sobre os temas escolhidos para as cenas, algumas crianças responderam:
“…essas cenas , sempre teve aqui no morro..”
“Eu acho uma realidade. Hoje em dia tem esses caras que pegam as crianças para estrupar, matar, pegam as crianças para tirar os órgãos, tirar tudo e vender . .”
“A gente informou isso tudo com essas coisas que tem aí fora, então pras pessoas verem na televisão que isso não é certo: prostituição, vagabundos, menino pequeninho cheirando maconha, craque e tudo isso. Então a gente escolheu isso que é mais importante para nosso país, pra gente melhorar o nosso país. “
Outro aspecto que chamou a atenção nas entrevistas foi a crença de que após terem feito o curso de teatro e recebido o diploma , eles podem ser alguém na vida. Ser alguém na vida para eles é: ser “uma pessoa melhor”, ou ser professora ou, ser atriz da Globo.
Diante do terror vivido pelos moradores desta e de outras comunidades, da ausência do mestre, qual a saída?
Freud, em O mal-estar na Cultura pergunta-se até que ponto a espécie humana, em seu desenvolvimento cultural, conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição. Ele espera que o eterno Eros desdobre suas forças para se afirmar na luta com seu não menos imortal adversário.
Nos dias atuais, mais do que nunca é preciso apostar nas forças de Eros, na afirmação da pulsão de vida.
Arte Pode ser uma direção para esta aposta?
Por viabilizar uma direção a um gozo mais delimitado, posto que circunscrito pelo simbólico; por encontrar-se dentro do princípio do prazer, realizando uma barra, um corte, ao gozo sem fim, a partir da criatividade, da ressignificação e do fortalecimento dos laços sociais entendemos que a arte pode ser um dos caminhos possíveis.
Nos discursos encontrados no Vidigal, entendemos que, se por um lado há pessoas que estão inseridas neste discurso ultra-reduzido, há outras que conseguem encontrar um caminho que lhes possibilita a sublimação e a constituição de novos significantes. Entrevistamos sujeitos que se expressam através do teatro, da escrita, da arte, da cultura do lugar, que conseguem uma produção cultural própria e produzem significantes particulares.
Em relação à pesquisa entendemos que os lideres comunitários estudados mantiveram sua posição congelada, sem deslizamento. Viam a equipe de pesquisa como representantes da ciência e se pronunciavam como se fossem políticos discursando para a televisão.
Quanto às crianças que participaram das atividades teatrais, constatamos que no discurso dessas não houve a produção de significantes novos, mas foi efetuado algum corte, permitindo um distanciamento e uma reflexão sobre suas questões e sobre as relações com a escola e a comunidade. Talvez tenha sido possível a algumas caminharem na construção de seu desejo.
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