Aniversário 2020

Dia 17 de maio comemorei mais um ano de vida. Foi uma celebração pelo Skipe. Achei interessante reunir os amigos em uma roda de conversa e realizar uma apresentação de arte online.    

Nestes tempos sombrios, a arte mais que nunca tem uma forte contribuição a dar. Desde o início, o homem se fez homem ao mesmo tempo em que se descobria como criador.

A Roda de Conversa habitualmente lida com temas recortados em jornais e redes, tais como: processos de re-existência, de reinventar; ou, o antídoto da dor é a alegria; ao ainda- quantas idades eu tenho? Quantas vezes nasci?

No Niver este espaço foi de acolhimento, afetividade entre os que skipeanamente chegavam. Muitas amizades levaram seu abraço e brindaram na hora do parabéns. Meu filho, netas, a família compareceram.

É a felicidade possível, num real que se apresenta lúgubre,  incógnito.

O cultivo do amor, do lúdico, da vida em sua potência é fundamental em um momento como este. Nossa programação artística contou com a bela interpretação musical do mediador do encontro e parceiro de trabalho Fabio Nazareth, seguido por Júlio Mafra e Regina Guarilia, do projeto “Os Leitores”, que apresentou textos selecionados para a ocasião.

A programação seguiu e, diretamente de Buenos Aires, ouvimos um interessante poema interpretado pelo ator Federico Iglesias que precedeu a apresentação do bailarino e professor de Butoh, Gustavo Collini, que elaborou uma coreografia dedicada a este dia. O músico e professor da Escola Vox Mundi Hamilcar Barbosa fechou a programação com uma bela interpretação da música guarani.

Em tempos de isolamento, as ferramentas de comunicação digitais como Skype, Zoom, Whatsapp, são uma forma de reunir pessoas possibilitando maior troca afetiva e de idéias e criação de novas possibilidades de interação.

 


Tateando, Podcast de Carmen Tatsch


Frases de meu pai que marcaram minha vida

Resolvi dividir este tema com você porque certamente há frases de familiares que tiveram importante lugar na constituição dessa pessoa que você é hoje. Escrevi então este texto sobre algumas frases que meu pai costumava dizer e que marcaram todo meu percurso de vida.

Entre as coisas mais antigas que me lembro estão as reuniões da família que  aconteciam na minha casa. O debate era acalorado, lembro de minha avó paterna, que era tesoureira do partido comunista do Rio Grande do Sul e odiava os norte-americanos. Seu filho, meu tio, era tenente da marinha, havia lutado na segunda guerra mundial e era fanático pelos EUA. Meu avô materno era pastor protestante e sua filha, minha tia, era freira. Você consegue Imaginar quão efervescentes eram as discussões  que ali aconteciam?

Meu pai, que era centro-esquerda, funcionava como um moderador. Quando todas as pessoas falavam ao mesmo tempo, ele pedia que ouvissem àquele que colocou  a idéia em questão. Eu ficava um pouco assustada, tentando entender as argumentações de um lado e de outro, e procurava me colocar no lugar daquele que estava falando.

Estas reuniões foram marcantes em toda minha trajetória profissional e pessoal. Elas me ajudam nestes tempos sombrios, onde as argumentações cedem lugar à hostilidade, à agressividade, à violência física e mental, servem para me ajudar a não embarcar nessa histeria generalizada.

Outra influência de meu pai   é a citação que ele atribuía a Voltaire e que dizia : eu não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las. Eu achava bonito, mas não entendia essa coisa de morrer para defender outra pessoa que queria dizer algo que ele não concordava.

Algum tempo mais tarde, isto ficou mais claro para mim. O Jango havia sido empossado presidente do Brasil e havia um movimento para tirá-lo desse lugar. Brizola, seu cunhado, então governador do Rio Grande do Sul, conclamou os gaúchos para reunirem-se na praça para resistirem ao golpe militar que se anunciava. Meu pai e minha avó atenderam ao chamado do governador e se despediram de minha mãe, meus irmãos e de mim. Ele disse que não concordava com muitas coisas que Jango propagava. Mas defenderia até a morte o  direito dele de dizê-las e o respeito ao voto dado nas urnas. Eu fiquei com muito medo, assim como minha mãe e meus irmãos, mas ninguém questionou a legitimidade dos atos de meu pai e minha avó.

Mais tarde, quando entrava na adolescência, meu pai me deu um livro de Gibran Kalil Gibran. Acho que o nome do autor é este e não lembro o nome do livro. Mas nunca esqueci uma frase do livro que ele repetia, dizendo que concordava com isto: os filhos, nós os criamos para o mundo. Eu gostei bastante do que ouvi, mas pensei que talvez ele tivesse dito como frase de efeito, pois, certamente, como os homens de sua época, tinha características machistas e controladoras.

Quando aos 20 anos de idade resolvi sair de casa para morar com colegas da faculdade e, tempos depois, vir para o Rio de janeiro, ele não gostou, mas não tentou me impedir de seguir minha vida do modo como eu escolhera.