Reality Show O Show do Olhar

Comentando sobre os ¨ Dating Shows ¨ , um dos tipos de ¨ Reality Shows ¨, a host de um desses programas afirmou que ¨ o conteúdo dos mesmos deve ser a expressão do Fim da Civilização , tal como a conhecemos¨. A essa observação , replicou o jornalista James Poniewozik, na revista Time ( agosto , 12 , 2002 ): ¨ Ao contrário, esse desmedido impulso para obter fama instantânea , sexo quase instantâneo e, ao lado disso, um pouco de dinheiro, está de acordo com a civilização , tal como a conhecemos – e em plena florescência ¨.

 

Dating Shows¨, ¨Reality Shows¨ , podem ser classificados como espetáculos voyeurísticos – via mídia- desenvolvidos em espaços delimitados previamente – quando não confinados num recinto determinado- embora abertos ao olhar invisível de milhões de espectadores, inclusive o olhar televisivo do Big Brother , que tudo controla. Nesta área restrita, ainda que disponha de uma fresta por onde transitam os fluxos magnéticos da TV , vivem e convivem os personagens do show , dando curso às suas fantasias de aventura , de sexo, de exibicionismo. Nesse campo de ilusão , eles induzem o público a acreditar que ali se desafia e se transgride a Lei, sob o olhar cúmplice das testemunhas sentadas diante se seus aparelhos de TV. Imprescindível tal cumplicidade, ¨sem o que não existiria o campo da ilusão

 

Há algo de perverso nessas encenações , por meio das quais os atores e sobretudo o Big Brother acenam com a possibilidade de um gozo do qual ¨tem a confiança de ter, seja como for, o domínio¨ . Que gozo? O que advém da neutralização da angústia da castração simbólica quando os participantes – os que atuam e os que assistem- se identificam imaginariamente com o objeto primordial, objeto de plenitude, que encobriria a falta , imposta pela instituição da Lei simbólica .

 

Faz-se então uma cena , uma ¨nova Lei¨, a do gozo ¨ que ordena buscar esse gozo seja lá qual for o meio¨. Instala-se aí o reino do narcisismo , o sujeito identificando-se imaginariamente com o objeto , tornando-se ele próprio objeto, enquanto o desejo está lá fora .

 

Enfim, se dissimula , se escamoteia o confronto com a castração e a falta no outro . Interessa ao Big Brother que a massa embarque na fantasia da totalidade. E isso está plenamente de acordo com a época em que vivemos.
O frenesi pessoal e coletivo deste tipo de espetáculo, visa a uma espetacularização da vida cotidiana, onde vale tudo pelo gozo perante o espetáculo , pelos quinze minutos de celebridade que nos falava Andy Warhol. Não importa o sentido, a enunciação, a significação. Não é uma identificação com borda, delimitada por significantes. É o estímulo a um gozo sem fim .

 

Passando uma rápida vista pela Internet sobre este assunto , vemos anunciados os próximos espetáculos: Uma mulher ficará isolada, junto com 40 homens e escolherá aquele que lhe dará o esperma para uma fecundação artificial. Casais ficarão em uma ilha deserta e serão promovidos encontros individuais com pessoas solteiras, com corpo escultural , para testar a fidelidade de cada cônjuge. Haverá divulgação na mídia da imagem dos participantes como criminosos de alta periculosidade e estes terão que andar pela cidade sem serem reconhecidos. Ganhará aquele que chegar ao término do Reality Show sem ser apanhado como criminoso.

 

Neste tipo de identificação, tudo vira espetáculo , onde procura-se dar a impressão dos personagens estarem vivendo a realidade. Mas trata-se de uma ¨realidade¨ manipulada , selecionada , controlada. E o que é selecionado , recortado ? Aquelas cenas que apelam para a exacerbação da sexualidade, das psicopatologias, das fofocas, dos atritos, dos escândalos . Mas não é um recorte que leva à busca de uma significação: é o consumo pelo consumo , o espetáculo pelo espetáculo. E o espectador se fixa num processo identificatório alienado , colado ao outro .
Este tipo de espetáculo apropria-se das técnicas do cinema direto , mas para transformar os sujeitos envolvidos em objetos , em cobaias.

Mas qual o poder deste instrumento que é a televisão?

Temos estudado a questão da influência da mídia e dos processos de globalização na constituição dos sujeitos e se estes encontram meios de recriar os conteúdos assimilados. Interessa-nos entender como as “máquinas de visão” intervém na constituição das subjetividades , de que modo estas influenciam nos discursos enunciados. E como o ser olhado , “ser quadro” intensificam o discurso do “che vuoi”( o que queres de mim ?) .

 

Lacan aborda a questão do olhar na constituição do sujeito. Entre o indivíduo e o mundo estabelece-se uma primeira relação através do olhar. Ao nascer, o indivíduo é inserido através do olhar neste mundo. Ao indivíduo que olha pré-existe um olhar, o olhar do mundo. “Eu só vejo de um ponto, mas em minha existência sou olhado de toda parte”.

 

Trata-se de um olhar que , ao lhe dar existência, o subjetiva. O olhar que vê de todos os pontos o constitui como pertencente ao mundo, pertencente a “uma paisagem”. Ao ser englobado pela paisagem, estando nela inserido, o sujeito adquire existência. No campo escópico, o olhar está do lado de fora “sou olhado, quer dizer, sou um quadro”.

 

Como se dá a constituição do sujeito no mundo contemporâneo, pós- moderno, mediatizado pelas ¨máquinas de visão?

Segundo alguns psicanalistas, o mundo contemporâneo tende a abolir o sujeito. A pregação política e a mídia utilizam a idéia imaginária do todo, do universal ,do que faz esfera. O senhor da modernidade se afirma em uma verdade que se conceitua por sua igualdade a si mesma. Trata-se de uma cultura que se afirma pela Eu-cracia , por um Eu que é idêntico a si mesmo cujo mandamento é : continua a gozar , a consumir . O jovem , muitas vezes, passa a identificar-se com um Outro imaginarizado pela figura da Internet, por exemplo. O Outro do saber passa a ser um outro que não responde, que não está encarnado, que não tem cheiro .

 

Qual o lugar das tecnologias audio-visuais na cultura contemporânea?

Um dos autores que estuda as tecnologias áudio-visuais, entendendo-as estreitamente interrelacionadas com a complexidade social e a mudança cultural , é Massimo Canevacci . Em ” Antropologia da Comunicação Visual”, ele desenvolve a idéia de que a comunicação visual está extremamente vinculada com a cultura contemporânea inteira e corta o novo projeto de aculturação planetária. Segundo ele, (2, pg.11) “a abordagem antropológica da comunicação visual configura-se em dois níveis:

a) com o primeiro se entende o uso direto por parte do pesquisador das técnicas áudio-visuais para documentar e ou interpretar a realidade, seguindo a metodologia antropológico cultural;

b) com o segundo, a análise dos produtos da comunicação visual reprodutível na sua totalidade, isto é, fenômeno global da cultura visual; seja para compreender os seus modelos simbólicos e formais; seja para reforçar a referida pesquisa numa relação iterativa”.

 

Canevacci conceitua seu trabalho como uma “antropologia da dissolução” e entende que o atual ambiente simbólico das sociedades complexas é de tipo visual e reprodutível.

 

Outro autor que estuda as interrelações entre a constituição da subjetividade, a cultura e as ¨máquinas de visão¨ é Guatari . Ele enfatiza a questão da subjetividade enquanto produzida por instâncias individuais, coletivas e institucionais. Em Caosmose , afirma que a subjetividade é plural , polifônica e que as máquinas tecnológicas de informação e de comunicação operam no núcleo da subjetividade humana. Ele entende que é preciso levar em conta as dimensões maquínicas de subjetivação e a heterogeneidade dos componentes que concorrem para a promoção da subjetividade .
Mas será que a influência destes sistemas maquínicos será necessariamente a de contribuir para constituição de ¨ Eu-cracias , de identificações coladas ao outro?

 

Em nossa experiência com o uso da tecnologia audio-visual , buscamos contribuir para a constituição de outras formas de subjetividade. Há vários anos trabalhamos com a metodologia de vídeo antropológico em comunidades do Rio de Janeiro e de outros municípios.

 

A abordagem utilizada tem como fundamento teórico-metodológico o cinema etnográfico de Jean Rouch e o método de vídeo antropológico de Ferruccio Marotti, da Universidade de Roma .
Os filmes etnográficos iniciaram com as inovações técnicas da sociedade industrial do século 19, quando foi possível o registro visual de outras sociedades. A partir deste método, é possível ver segundo um novo olhar, e em toda a sua riqueza, o conjunto de diversos modelos de comportamento humano. O que se busca não é dizer a verdade sobre o outro, revelá-lo, “traduzí-lo” aos nossos cânones de inteligilidade ; mas, tentar construir uma ponte entre duas culturas, para que elas possam finalmente dialogar!

 

Segundo Jean Rouch :
“O cinema direto contribui para liberar o homem (ou certos grupos de homens) do estado de dependência no qual se encontra, ajudando-o a tomar consciência de si mesmo, de sua originalidade, de sua força enquanto membro de um grupo.”

 

“As técnicas do direto permitiram a eclosão de um cinema novo que parece estar a caminho de se apropriar da experiência humana a mais vasta possível e inventar novos tipos de relações entre os indivíduos e as coletividades.”

 

A metodologia visa , a partir do distanciamento e “espelhamento” possibilitados por esta tecnologia audio visual , auxiliar no processo de chegar a outras visões de si e de suas relações com os outros e enfatiza a obtenção de uma relação que faça com que o objeto da pesquisa seja também o sujeito desta.

 

Recentemente, participei de uma experiência que me tocou de modo especial.
Desenvolvi pesquisa com a metodologia de vídeo antropológico em uma comunidade descendente de um Quilombo , na Rasa, Búzios. Trata-se de um local onde os moradores sentem-se excluídos , discriminados , isolados pela outra parte de Búzios – aquela representada pelo detentores do poder público e privado. Registramos em vídeo o dia a dia das pessoas e das diversas ¨ formas associativas ¨ e organizamos seminário com convidados do Brasil e da Itália . As diversas organizações, associações , grupos de auto-gestão, movimentos estavam presentes . Projetamos o vídeo e após a projeção , todos os participantes reuniram-se e houve uma confraternização coletiva, com expressões de júbilo, de entusiasmo que eu jamais experimentara. Havia uma força vital, uma comunhão, um êxtase que para tentar expressar verbalmente só consigo associar com o ¨entusiasmus ¨ e a catarse do teatro grego da antigüidade.

 

Claro que não podemos saber exatamente como era , pois o tempo e o espaço são outros, mas foi uma experiência que , penso, só pôde surgir devido ao processo de coletivização da experiência . O olhar , através do espelho/ vídeo , atravessado pelo coletivo e por diversas instâncias sociais, que ali estavam presentes através dos representantes das áreas municipais, estaduais, federais e internacionais.

 

Este é um exemplo de outras formas de utilização das tecnologias audio visuais, com a metodologia do ¨direto¨ , sem ser de forma alienada , colada ao outro. Mas não há interesse daqueles que detém o poder de controlar e massificar em chegar aos resultados obtidos na experiência coletiva, participativa e de auto-gestão.