Pesquisa em uma comunidade quilombola do RJ: estudo sobre o lugar do sujeito e a função do olhar e da voz .

Carmen Rodrigues Tatsch

 

No primeiro semestre de 2016, quando vi o filme Menino 23, baseado na tese de doutorado de Sidney —, este causou-me impacto. Lembrei-me de uma pesquisa que realizei, entre os anos de 2003 a 2007? , em uma comunidade quilombola em Búzios, RJ.Resolvi escrever sobre o tema abordado por este filme, inter-relacionando-o com esta pesquisa.

 

Uma das questões suscitadas pelo filme foi a das relações entre as elites brasileiras e os descendentes de africanos que vieram escravizados para o Brasil. A história documentada no filme passa-se a partir dos anos de 1933, quando a família Rocha Miranda, protótipo de outras tantas, responsabiliza-se perante o Educandário Romão Duarte, situado na zona sul do Rio de Janeiro, pela criação de 50 meninos negros órfãos. Estas crianças são levadas para a Fazenda Cruzeiro do Sul, em São Paulo. pertencente a esta família Estes meninos, são tratados da mesma forma que seus antecedentes que foram escravizados. Eles trabalhavam de sol a sol, sem receber um tostão por isto, e sofriam punições e torturas .

 

Eles não eram chamados por seus nomes e sim pela numeração que lhes era dada, segundo a posição que ocupavam em relação à altura de cada um. Aloisio, chamado Menino 23, diz no documentário que foram escolhidos como quem compra gado e eram tratados como tal.

 

A historia destes meninos no filme é recortada por vídeos que relatam a ideologia nazifascista que predominava na época. O Brasil teve o segundo maior partido nazista do mundo e algumas pessoas da família citada eram membros deste partido. A eugenia era o paradigma de normalidade e a orientação do governo de Vargas era a melhoria da raça branca. . Segundo a concepção higienista, fundamentada na Eugenia, não era possível fazer uma grande nação com uma raça inferior, eivada pela mestiçagem, como eram os brasileiros.

 

A perspectiva higienista vem a ser questionada a partir do surgimento da psicanálise, que diz que há sujeitos, cada um com sua singularidade. A história, o lugar onde o sujeito vive e os laços que estabelece terão efeitos na constituição deste sujeito.

 

Quando, na década de 40, Getúlio Vargas rompe seus laços com a Alemanha e se associa aos EUA, o envolvimento com o partido nazista passa a ser mal visto e todos os documentos e símbolos, tais como a suástica, inscrita no lombo dos animais e nos tijolos das construções, são eliminados. Os meninos, agora adolescentes, são soltos na rua e ficam ser ter para onde ir. Este fato retrata o destino de tantos outros sujeitos descendentes de africanos que com o fim da escravatura ficam sem lugar na sociedade.
Ao lembrarmos nosso passado, impregnado pela ideologia nazifascista, podemos entender melhor as relações existentes entre as elites brasileiras e as populações advindas das classes populares.

 

O historiador José Rufino dos Santos apresentou, em encontro realizado em 1997, no CREMERJ, alguma teses sobre o corpo negro que podem contribuir para nosso trabalho. Ele lança a tese que o corpo do negro funcionou, na América, como gerenciador de arquivo. Seu corpo, como lugar social, ocupou os espaços de despossessão, tortura, resistência. Segundo Rufino, o corpo negro é o buraco negro das ciências sociais no Brasil. Tudo o que se aproxima dele é tragado. Sua função é esquecer . É o delete que se deve temer.

 

Na pesquisa realizada junto à comunidade quilombola da Rasa, Búzios, percebemos que os moradores desta região encontravam-se excluídos da vida social, cultural e econômica reinantes no município, em processo de desintegração da sua cultura e da sua história, em estado de isolamento uns dos outros e dos grupos sociais existentes.

 

O trabalho de campo foi realizado entre os anos 2003 e 2005 e inicialmente foi vinculado à Escola de Comunicação da UFRJ. Sua realização foi possível graças à concessão, pela FAPERJ, de uma bolsa de pós-doutorado. Trabalhamos com a hipótese de que as expressões singulares de cada cultura funcionam como um sistema informal de promoção de saúde.
No início de nossa pesquisa, em 2003, encontramos uma situação próxima à descrita no documentário. A população da Rasa em sua maioria vivia isolada da Búzios que era atravessada por processos de internacionalização e cosmopolitismo. Eles não conseguiam emprego por não terem os requisitos exigidos ( conhecimento de línguas estrangeiras,da etiqueta utilizada pelas elites, saber servir à francesa…). Ir à praia da Rasa era considerado perigoso, pois lá só havia negros.

 

Nas primeiras etapas do trabalho de campo, ao pesquisar nos sites sobre Búzios a respeito de sua história, encontrei que; primeiro havia os índios, depois vieram os portugueses e em 1960, chegou Brigite Bardot. Nenhuma palavra sobre os negros que chegaram escravizados e colonizaram a região.
Podemos pensar aqui no lugar do corpo do negro tal como Rufino menciona, como algo que se deve esquecer, deletar. Os africanos que chegaram escravizados a esta região desempenharam um importante papel na constituição do que vieram a ser as cidades de Cabo Frio, de Búzios e outras. Mas não tinham lugar na história, nem na mídia. O espaço onde foram jogados, com o final da escravidão, pouco a pouco foram tomados pelos grilheiros.

 

A pesquisa desenvolveu-se levando em conta três eixos: – o vertical – a história da comunidade da Rasa (descendente de um Quilombo); – o horizontal – o espaço sócio-histórico-antropológico-ecológico onde esta se situa e – o transversal – as questões surgidas foram trabalhadas em eventos atravessados por diversas instâncias. Buscamos produzir movimentos que permitissem uma circulação do macro para o micro e vice-versa, ampliando assim os modos de ver e de agir; estimular a ampliação dos laços comunitários e a inserção do sujeito em inter-relações com diversas redes sociais e contribuir para a elaboração, a ressignificação e criação de novas construções singulares e coletivas.

 

Há alguns anos vínhamos trabalhando com as metodologias da pesquisa-ação e do vídeo antropológico buscando favorecer os processos de auto-gestão e de feedback. Nesta comunidade a questão da visibilidade era especialmente significativa. O vídeo utilizado como fator de intermediação da equipe com a comunidade e desta com as diferentes instancias sociais, contribuiu decisivamente para a visibilidade e a interlocução entre os segmentos existentes.

 

A partir dos processos deflagrados pela pesquisa, novos movimentos passaram a instituir-se: dos sujeitos entre si e destes com diferentes grupos locais, nacionais e internacionais; criaram-se novos espaços para a divulgação e reflexão sobre questões relativas à comunidade alvo. As relações de poder existentes passaram a modificar-se, abrindo campo para lideranças comunitárias nas deliberações políticas locais. Iniciou-se um processo de transformação do lugar de exclusão e isolamento em que se encontravam.

 

O artesão Lelei, que vivia recluso em seu trabalho de talha em madeira, passou a dar aulas, vindo a constituir um grupo que passou a expor seus trabalhos de artesanato e a viver de seu ofício. Ele desenvolveu um lugar de liderança na comunidade e participou ativamente na criação do Circuito turístico- histórico- ecológico-cultural da Rasa e da gestação de um centro cultural onde as diversas associações da Rasa (artesãos, agricultores, costureiras, jardineiros…) viessem a comercializar seus produtos.
Carlinhos, um cadeirante que passou a fazer parte do grupo de artesãos, desenvolveu a capacidade de expor com clareza as ideias do projeto e passou a ocupar um lugar de palestrante nas palestras e outros eventos.
Diversos sujeitos começaram a estudar na universidade e outros vieram a ocupar um lugar na política partidária desta cidade.

 

Entre os diferentes enfoques metodológicos utilizados nesta pesquisa, foram enfatizadas as questões do olhar e ser olhado e a de dar voz a estes sujeitos que não tinham lugar naquela sociedade.

 

A psicanálise aborda a questão do olhar. Lacan desenvolve a idéia de que entre o indivíduo e o mundo estabelece-se uma primeira relação através do olhar. O mundo, enquanto estrutura simbólica, pré-existe ao indivíduo. Ao nascer, o indivíduo é inserido através do olhar neste mundo. Ao indivíduo que olha pré-existe um olhar, o olhar do mundo.”Eu só vejo de um ponto, mas em minha existência sou olhado de toda parte”.

 

Somente na relação do indivíduo a um outro, o olhar pode adquirir sua função de constituinte do sujeito. O olhar está do lado de fora “sou olhado, quer dizer, sou um quadro”. O primeiro símbolo que o ser humano alcança é a imagem, a forma de seu corpo na qual ele se precipita.

 

É a partir do estádio do espelho que se presentificará o enlaçamento dos três registros: Real, Simbólico e Imaginário. É com esta estrutura que o ser humano pode ter a ilusão de unidade frente à vivência de fragmentação do corpo , participar de relações sociais e inserir-se na cultura.
O estádio do espelho é fundamental na questão da identificação. Este estádio dá a compreender a divisão do sujeito desde seu surgimento . Dá a entender que a relação consigo passa por uma relação com o outro . O sujeito não é anterior a este mundo de formas que fascinam : ele se constitui nelas e por elas. O exterior não está fora , mas no interior do sujeito , o outro está nele.

 

Este estádio é um drama que maquina os fantasmas que se sucedem de uma imagem fragmentada do corpo à uma forma ortopédica de sua totalidade. As intenções agressivas surgem a partir da função formadora das imagens no sujeito – são as imagos do corpo fragmentado.“ A agressividade é a tendência correlativa de um modo de identificação que chamamos narcisista e que determina a estrutura formal do eu do homem e o registro de entidades característico de seu mundo. ”(Lacan, 1948, pg 73). Os instintos de destruição, de morte, têm relação com a libido narcísica e com a função alienante do eu, com a agressividade que se distingue em toda relação ao outro, mesmo aquelas que aparecem sob a forma de ajuda samaritana. Para Lacan, todo sentimento altruísta advém da agressividade, que sustenta a ação do filantropo, do idealista, do pedagogo e do reformador.

 

Buscando entender as contribuições do vídeo no percurso deste trabalho, entrevistamos Paola Miele, professora da School of Visual Arts de New York, que comentou sobre as possibilidades que o ato de ver e ser visto, proporcionado pela metodologia do vídeo antropológico, podem trazer à constituição da subjetividade dos sujeitos da pesquisa:

 

“Ver-se no vídeo implica em uma relação tridimensional do corpo no espaço e inscreve-se no interior de um colocar-se sob o olhar do outro. A câmera funciona como um outro. Sua própria imagem não é binária, mas trinária, na relação com o outro. O sujeito se confronta com sua própria imagem a partir do vídeo. Isso pode dar como efeito permitir ao sujeito reconhecer a si e ao outro. A chave é se reconhecer no meio social, inscrever-se num espaço simbólico. Este processo ajuda um sujeito a se reconhecer como pertencendo a uma comunidade, a apreciar sua própria singularidade e sua história. Podemos levantar a hipótese de que há uma dimensão de testemunho que se coloca em causa. Sentir-se no interior do grupo, perceber-se de seu pertencimento, de que não é um sujeito isolado.“
Outra questão trabalhada nesta pesquisa foi a da escuta. Estes sujeitos não tinham escuta, sua voz era apagada, deletada, como diz Rufino . A metodologia utilizada permitiu que a partir dos movimentos propiciados por entrevistas com o vídeo e projeção destas em palestras, debates,e outros eventos eles pudessem escutar-se uns aos outros e fazer conhecer suas ideias, sua história, seu desejo.

 

Para Jean-Michel Vives, Lacan propôs uma nova dialética das pulsões, ao conferir à invocação, como ao olhar, o estatuto de pulsão. A voz que vem do outro é a manifestação de seu desejo. Igualmente, é o desejo que se tem dele, o que leva Lacan (1965-66) a afirmar que o objeto a é diretamente implicado quando se trata da voz e isso no nível do desejo. Se o desejo funda-se como desejo do Outro, esse desejo enquanto tal manifesta-se no nível da voz. A voz não apenas o objeto causal, mas o instrumento pelo qual se manifesta o desejo do Outro. O termo é perfeitamente coerente, constituindo, se posso dizê-lo, o ápice em relação aos dois sentidos da demanda, seja ao Outro, seja vinda do Outro.

 

O infans nas origens de sua existência, sob o efeito de uma tensão endógena impossível de ser gerida, devido ao seu desamparo, lança um grito. O grito do recém-nascido não é, inicialmente, um apelo, sendo somente a expressão vocal de um sofrimento. Somente tornar-se-á apelo, pela resposta da voz do Outro, onde sinaliza seu desejo: “que queres tu que eu te queira?”. O sujeito é aqui chamado a ser.

 

O circuito da pulsão comporta assim dois tempos:

a) Ao grito do infans, o Outro responde, chamando-o a advir como sujeito
solicitando dele: “Torna-te!”

b) A partir daí, o infans não terá mais acesso diretamente à materialidade vocal que ficará, no melhor dos casos, velada pelo processo de significação. A busca da voz como objeto pode então acontecer. O infans, ao perder voz como objeto que se torna invocante, entabula seu processo de subjetivação e impulsiona seu percurso desejante: “Retorna!”

 

O infans, para advir como falante, deverá poder tornar-se surdo ao timbre primordial para falar sem saber o que diz, isto é, como sujeito do inconsciente. Para tornar-se falante, o sujeito deve adquirir uma surdez a este outro que é o real do som musical da voz. Do mesmo modo que um ponto cego estrutura a visão, a aquisição de um ponto surdo – constituído pelo recalcamento originário – é necessário para ser possível ouvir e falar. Vivés levanta a hipótese de que essa surdez estrutural é aquilo pelo qual somos protegidos da alucinação auditiva. O sujeito que era invocado pelo som originário, tornar-se-á, pela palavra, invocante. Nessa reviravolta de situação, o sujeito conquistará sua própria voz.Assim, a operação do recalcamento originário permite à voz permanecer em seu lugar, isto é, num primeiro tempo inaudível e depois inaudita. Aqui se enlaça, na sua dimensão subjetivante, a pulsão invocante da qual Lacan (1964, p.96), pode afirmar que ela era “a mais próxima da experiência do inconsciente” .

 

Para Miller, os objetos ditos a só podem se afinar com o sujeito do significante se perderem toda substancialidade, se estiverem centrados por um vazio que é a castração.

 

Lacan tomou a função da fala no campo da linguagem como ponto de partida para entender a experiência psicanalítica. Eu diria que a instância da voz merece inscrever-se como um terceiro entre a função da fala e o campo da linguagem. Neste sentido, a voz, no uso muito especial que Lacan faz desse termo, é sem dúvida uma função do significante –ou melhor, da cadeia significante como tal. “Como tal” implica que não é somente a cadeia significante como falada ou entendida, também pode muito bem ser enquanto lida e escrita. O ponto crucial dessa voz é que a produção de uma cadeia significante – eu lhes digo nos termos mesmos de Lacan – não está ligada a este ou aquele órgão dos sentidos, a este ou aquele registro sensorial.

 

A voz é uma dimensão de qualquer cadeia significante, na medida em que qualquer cadeia significante – sonora, escrita, visual, etc. – comporta uma atribuição subjetiva, ou seja, designa um lugar para o sujeito.

 

A profª Luccette Colin, da área de Análise institucional, da Universidade Paris 8, comentou sobre a pesquisa: “Há um dimensão política e uma forma de intervenção que funciona como um mediador social que permite que a fala destas pessoas faça parte do discurso da comunidade. O pesquisador atua como um interventor que permite a intermediação de um ato de reconhecimento e a inscrição da palavra do homem, que até então não tinha escritura sobre o espaço público.”

 

Referências Bibliográficas

LACAN,J.(1965-66). Le Séminaire Livre XIII, L’objet de la psychanalyse. (inédit).
_________( 1949).Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je.Comunicação realizada no XVI Congresso Internacional de Psicanálise.Zurich.
_______(1985). Do olhar como objeto a minúsculo. In: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro : Ed. Zahar .
MILLER J.A. “Jacques Lacan et la voix”. In: La voix. Paris: La Lysimaque, 1989, tradução Opção Lacaniana Online, Ano 4 • Número 11 • julho 2013 • ISSN 2177-2673
Tatsch, C.R. Formas expressivas e discursos de uma comunidade urbana do Rio de Janeiro : um uso do teatro e do vídeo antropológicos ,tese de doutorado, IP, UFRJ
________Projeto de Pesquisa Subjetividade, Cultura e Desenvolvimento Social. Relatório científico. ECO UFRJ. FAPERJ. 2005
———- Projeto: Direito ao Trabalho e Desenvolvimento Humano e Social.Relatório de pesquisa.FAPERJ.2007.
Vives,Jean-Michel”Pulsão invocante e os destinos da voz”, Tradução: Francisco R. de Farias, Revisão: Denise Maurano, Psicanálise & Barroco em revista v.7, n.1: 186-202, jul.2009.