Textos

Discursos e Formas Expressivas de Comunidades Rurais e Urbanas da China.

Projeto de Pós-doutorado (Universidade de Paris VIII, França) 
Discursos e Formas Expressivas de Comunidades Rurais e Urbanas da China.
Profª Drª Carmen Rodrigues Tatsch

A presente pesquisa resultará em um projeto de pós-doutorado que contará com a orientação do Prof. Remi Hess, do Laboratoire Experice, Department de Sciences de l’Education, Université de Paris 8.

 

Desde 2006 temos realizado intercâmbio com este professor e, a partir do presente projeto, teremos a oportunidade de aprofundar questões previamente levantadas nos estudos e trabalhos efetuados sobre a pesquisa na comunidade da Rasa, Búzios, RJ. Adotaremos as metodologias da pesquisa-ação e da escrita implicada.

 

Quanto à questão das imagens obtidas através do vídeo e da fotografia, contaremos com a orientação do Prof. Ferruccio Marotti, do Centro Teatro Ateneo, da Universitá di Roma “La Sapienza, que vêm acompanhando nossas pesquisas e atuado como consultor na área de vídeo antropológico desde 1988.

 

Nossas pesquisas têm sido desenvolvidas, desde a década de 80, junto a instituições de saúde mental e em comunidades do Rio de Janeiro. Inserem-se em uma perspectiva inter-disciplinar, com ênfase nas áreas de saúde mental, análise institucional, psicologia social comunitária e comunicação visual.

 

Trabalhamos com a hipótese de que as expressões singulares de cada cultura funcionam como um sistema informal de promoção de saúde e contribuem para a formação dos processos identificatórios com características particulares, em contraposição ao movimento massificatório dominante. Esta hipótese tem sido confirmada em anos de pesquisas cujo trabalho de campo é realizado em comunidades urbanas desfavorecidas sócio-economicamente. Em nosso entender, quando buscamos valorizar, dar visibilidade e dinamização a estas culturas estamos realizando promoção de saúde mental.

 

O trabalho de campo do presente projeto será realizado na China. A escolha deste país como campo de estudo deve-se à extrema complexidade desta sociedade, tanto em relação à sua história, quanto à contemporaneidade.

 

Pensamos que a constituição das subjetividades desta apresenta uma multiplicidade de expressões singulares e multifacetadas. As informações que obtemos através da mídia e as leituras que temos realizado sobre este lugar levaram-nos ao desejo de estudar as populações chinesas e de averiguar algumas questões e contradições surgidas no decorrer de nossos estudos.

 

O projeto será desenvolvido junto a sujeitos que residem em pequenas vilas e em grandes cidades chinesas. Entre as pequenas vilas que planejamos pesquisar, é nossa intenção escolher algumas que pertençam a grupos étnicos majoritários e outras que estejam inseridas em culturas dos grupos étnicos minoritários.

 

Nas grandes cidades (Shangai e Pequim) estudaremos os entrecruzamentos dos diversos modos de viver e trabalhar. Buscaremos entender se os sujeitos que vivem nestes lugares, encontram-se em forte conexão com sua história, ou se a preocupação com as modernas tecnologias e a inserção em uma visão de mundo globalizado é mais significativa.

 

Nestas cidades realizaremos visitas a universidades com o intuito de conhecer programas acadêmicos nas áreas de ciências humanas e sociais. Pretendemos contribuir com informações para futuros estudos e pesquisas que possam vir a ser realizados neste país, que dia a dia cresce em importância no Brasil e no mundo.

 

No intercâmbio com os orientadores iremos abordar questões que contribuam para uma análise comparativa dos resultados encontrados nas pesquisas realizadas no Brasil (junto às comunidades do Vidigal e da Rasa) e na China (nas pequenas vilas e nas grandes cidades pesquisadas).

 

Esperamos que o enfoque escolhido para este estudo traga contribuições particulares a um campo de conhecimento que; por um lado, apresenta inúmeras pesquisas e estudos já consolidados no meio acadêmico; por outro, possibilita espaço a novos saberes e novas orientações metodológicas.

 

Esta é uma abordagem aberta a novas construções. Cada campo de trabalho, cada comunidade, cada agrupamento humano é constituído de maneira ímpar, com características singulares e pode ser abordado de diferentes modos.

 

1.Objetivos Gerais

– Consolidar a cooperação já existente, aprofundar questões e elaborar trabalhos conjuntos com a Profª Carmen Rodrigues Tatsch, coordenadora do Projeto de Pesquisa Subjetividade, Cultura e Desenvolvimento Social, desenvolvido no Brasil, com o Prof. Remi Hess, diretor do Laboratório Experice, da Université de Paris VIII, e com o Prof. Ferruccio Marotti, coordenador do Centro Teatro Ateneo, da Universitá di Roma “La Sapienza”.

 

– Realizar pesquisa junto a sujeitos que residem em pequenas vilas e em grandes cidades da China, visando entender as inter-relações dos sujeitos que ali vivem com sua história e suas tradições. Verificaremos ainda a influência nestes lugares do atual modus vivendi globalizado e das recentes e intensas mudanças sócio-econômico-político-culturais que encontram-se em curso.

 

– Analisar comparativamente o material pesquisado na China e no Brasil (comunidades do Vidigal e da Rasa) e estudar as inter-relações existentes entre os resultados encontrados.

 

1.1.Objetivos específicos

– Averiguar os efeitos das metodologias utilizadas (pesquisa-ação, vídeo antropológico) nos sujeitos e coletividades estudados na China.

 

– Visitar as Universidades de Shanghai e Pequim com o intuito de conhecer programas acadêmicos nas áreas de ciências humanas e sociais e contribuir com informações para futuros estudos e pesquisas que possam vir a ser realizados neste país.

 

– Realizar pesquisa bibliográfica nas Universidades de Paris e de Roma, visando a atualização das concepções teóricas e metodológicas utilizadas nas intervenções e dar fundamentação às argumentações desenvolvidas no projeto.

 

2.Plano de trabalho

 

O trajeto a ser percorrido, do sul para o norte da China, será previamente planejado e utilizaremos os instrumentos (vídeo, fotografia, gravação de entrevistas, observação participante, escrita implicada) de acordo com as circunstâncias e possibilidades.

No sul, as comunidades que nos interessam estudar são aquelas que vivem em pequenas vilas e preservam seus modos de viver e fazer. Entre as comunidades que se adéquam a este perfil e pretendemos pesquisar encontram-se algumas descendentes da etnia Han (majoritária) e outras de etnias minoritárias. Entre as minoritárias estão os Zhuang, que se situam nas regiões do Guangxi. Pensamos documentar aspectos de sua cultura, tal como, o ato de cantar enquanto plantam. Na região do Guangxi, e nas províncias de Guangdong e Yunnan encontram-se descendentes da etnia Miao, que é uma das mais antigas do país. Estes descendentes possuem casas tradicionais. Escolheremos algumas destas comunidades, a partir de um prévio contato e da aceitação por parte dos sujeitos envolvidos em participar da pesquisa.

 

Entre os eventos que nos interessa estudar encontram-se: A Festa de Ano Novo (data flexível), a Festa das Lanternas (15 de Janeiro), a Festa da Primavera (9 de fevereiro), o Dia de Qinhming (5 de abril), a Festa do Barco Dragão (5 de maio), a Festa da Lua (5 de agosto).

Há outros lugares interessantes que poderemos vir a visitar por sua história e cultura. Entre eles encontram-se Lhasa, Shenzen e Xian. A ilha de Hainan chama nossa atenção pelo contraste, de um lado, um símbolo de vitalidade econômica; por outro, os moradores nativos são pobres e temem por seu futuro.

 

Entre as grandes cidades, escolhemos pesquisar Shangai e Pequim. Esta última situa-se no norte e nos interessa estudar devido aos seus lugares históricos (a Cidade Proibida, a Grande Muralha da China, o Templo do Céu, o Templo do Sol, o Templo de Confúcio, a Praça da Paz Celestial); à sua contemporaneidade, contrastando com a antiguidade; por sua importância científico-cultural. Realizaremos estudos na Universidade de Pequim e na Universidade de Shanghai.

 

Shangai situa-se a leste e é a maior cidade chinesa. É o cartão postal da nova economia de mercado. Entre os principais eventos ali celebrados que pretendemos documentar estão: Feira do Templo Longhua (budista), Festa do Ano Novo Lunar, Festa da Flor de Pessegueiro, Festa do Jasmin Flagrante, Festival Internacional do Chá, Festa da Laranja. Shanghai também apresenta interesse para nosso estudo devido à sua contemporaneidade, em contraste com sua antiguidade e por sua importância científico-cultural.

 

3.Histórico dos projetos realizados

 

Vimos desenvolvendo pesquisas com as metodologias da pesquisa-ação, do vídeo e do teatro antropológicos desde a década de 80. Neste período, as pesquisas foram realizadas em instituições de Saúde Mental do Rio de Janeiro ¬(Instituto de Psiquiatria da UFRJ; Hospital Pinel – atual IPP; Colônia Juliano Moreira).

 

Em 1987, assinamos acordo científico-cultural entre o Instituto de Psiquiatria da UFRJ (cujo Diretor era o Prof. Raffaele Infante e eu atuava como co-coordenadora dos convênios internacionais e como pesquisadora) e o Centro Teatro Ateneo da Universitá di Roma “La Sapienza” (coordenado pelo Prof. Ferruccio Marotti) e desenvolvemos o projeto “Tecnologia Áudio-visual como instrumento de análise e auto-análise de grupos comunitários”, com o apoio do CNPQ – BR e do CNR- Itália. Este projeto, desenvolvido a partir da década de 90, propiciou o desenvolvimento de pesquisas em comunidades do Rio de Janeiro (Chapéu Mangueira, D. Marta e outras).

 

O contato com a Université de Paris VIII iniciou na década de 80 quando René Lourau, professor desta universidade ministrou Curso de Análise Institucional no Instituto de Psicologia da UFRJ. Em 2006, vimos a realizar intercâmbio com o Laboratoire Experice, da Université de Paris VIII, através do Prof. Remi Hess, com o qual desenvolvemos trabalhos conjuntos, participamos em reuniões e palestras, no Rio de Janeiro e em Paris.

 

3.1.Pesquisa-ação na comunidade do Vidigal – Rio de Janeiro.

 

Durante o período de 1993 a 1997, realizamos pesquisa que resultou em Tese de Doutoramento intitulada “Formas Expressivas e Discursos de uma Comunidade Urbana do Rio de Janeiro: um uso do Teatro e do Vídeo Antropológicos”, defendida no Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Contamos com bolsa da CAPES e do CNPq. O trabalho de campo foi realizado na comunidade do Vidigal, Rio de Janeiro. Trabalhamos com as metodologias da pesquisa-ação e do vídeo antropológico.

 

O estudo foi efetuado a partir de um determinado recorte das formas expressivas e dos discursos encontrados nesta comunidade. Interessou-nos pesquisar se os discursos deste lugar aproximam-se daqueles relativos às sociedades tradicionais ou dos que freqüentemente são produzidos nas sociedades inseridas nos processos de globalização.

 

A comunidade do Vidigal está atravessada por ambas as influências: tradicionais e contemporâneas. Mas em sociedades que estão fortemente inseridas nos processos globalizadores, a mídia desempenha um papel de homogeneização das mentalidades.

 

A metodologia do vídeo antropológico tem como proposta a busca da espontaneidade. Esta metodologia pretende inventar novos tipos de relações entre os indivíduos e as coletividades. O vídeo antropológico busca uma integração dialética e de, a partir do distanciamento e “espelhamento” possibilitados por esta tecnologia, chegar a uma nova visão de si e de sua relação com o meio, a um auto-conhecimento e a uma auto-análise das formas expressivas e comportamentos psicossociais existentes.

 

No Vidigal a função do vídeo antropológico ficou identificada com a da televisão e os discursos produzidos assemelham-se àqueles apresentados pela mídia e pela política partidária.

 

3.2.Pesquisa-ação na comunidade da Rasa.

 

Em 2001, iniciamos pesquisa na comunidade da Rasa, Município de Armação de Búzios, com o apoio da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Nesta época, obtivemos bolsa de fixação de pesquisador e a pesquisa era vinculada à Escola de Comunicação da UFRJ. Em 2005, obtivemos bolsa de bancada e o projeto passou a vincular-se à Universidade Veiga de Almeida, Rio de Janeiro. O atual projeto intitula-se “Subjetividade, Diversidade Cultural e Desenvolvimento Humano e Social”.

 

A comunidade pesquisada, localizada na região da Rasa, é descendente de um Quilombo. Ao iniciarmos a pesquisa, os moradores desta região encontravam-se excluídos da vida social, cultural e econômica existentes no município, em processo de desintegração da sua cultura e da sua história, em estado de isolamento uns dos outros e dos grupos sociais existentes.

 

A partir dos processos deflagrados pela pesquisa, novos movimentos passaram a instituir-se: dos membros da comunidade entre si, destes com diferentes grupos locais, nacionais e internacionais; criaram-se novos espaços para a divulgação e reflexão sobre questões relativas à comunidade alvo. As relações de poder existentes passaram a modificar-se, abrindo campo para lideranças comunitárias nas deliberações políticas locais. Iniciou-se um processo de transformação do lugar de exclusão e isolamento em que se encontravam.

 

No momento, estamos repensando as fases anteriores da pesquisa e delimitando as novas etapas. O projeto desenvolveu-se em processo de auto-gestão com a comunidade e resultou em duas propostas que estão em andamento: a criação de um circuito turístico histórico-antropológico-ecológico e a criação de um centro cultural. Ambos serão geridos pelas lideranças comunitárias.

 

Na comunidade da Rasa, a metodologia do vídeo antropológico atendeu a seus objetivos de busca da espontaneidade e da criação de novos tipos de relações entre os indivíduos e as coletividades. O vídeo antropológico, por possibilitar o distanciamento e o “espelhamento”, permitiu aos sujeitos da pesquisa uma nova visão de si e de sua relação com o meio.

 

Mas, na Rasa, talvez por ser uma comunidade descendente de escravos africanos, os resultados obtidos de integração grupal e de auto-gestão ficaram condicionados à presença da equipe de pesquisadores e de especialistas convidados. Quando estávamos presentes, a criatividade e a originalidade nas propostas eram a tônica. Mas quando nos ausentávamos, eles não conseguiam reunir-se e dar continuidade aos projetos formulados conjuntamente: a criação de um circuito turístico histórico-antropológico-ecológico e a criação de um centro cultural. Estes projetos encontram-se em andamento. Estamos debatendo com a Prefeitura de Armação dos Búzios sobre a implantação do centro cultural nesta comunidade.

 

Se, por um lado, as propostas advindas do processo de auto-gestão necessitam da presença dos pesquisadores para sua continuidade, por outro, entre os resultados obtidos, observou-se que: houve sujeitos que transformaram-se a nível individual; alguns desenvolveram-se como líderes da comunidade; outros foram cursar nível superior; um dos líderes passou a ensinar seu ofício (artesanato em madeira) para seus companheiros e formou um grupo de artesãos que vivem de seu ofício; alguns pequenos produtores rurais reuniram-se e criaram uma feira de produtos horti-fruti que ocorre semanalmente.

 

Entendemos que, no atual estágio desta pesquisa-ação, houve transformações a nível individual, nas relações entre a comunidade da Rasa e a cidade de Búzios e em determinado grupos. Para a realização das propostas do circuito turístico e do centro cultural, faz-se necessária a integração dos esforços da comunidade, da equipe de pesquisadores, da sociedade civil e do poder público.

 

4.Concepções teóricas

 

Nossa proposta de intervenção na comunidade é atravessada por diversas abordagens. Trabalhamos com a metodologia da pesquisa-ação, mas esta é desenvolvida de um modo particular, devido à nossa formação que é perpassada pela psicologia social, pela análise institucional, pela psicanálise e outras disciplinas. A forma de intervenção que desenvolvemos junto à comunidade segue os trâmites da pesquisa-ação, mas a escuta, a direção do trabalho, a relação pesquisador / sujeito pesquisado apresentam-se segundo uma perspectiva inter-disciplinar.

 

Em nossas pesquisas, entendemos a pesquisa-ação como uma metodologia que busca a produção de novas formas de conhecimento social e de relacionamento entre pesquisadores e pesquisados e de novas articulações destes com o saber.

 

Buscamos auxiliar no fortalecimento do sentimento de pertinência, de participação social, na ampliação dos laços comunitários, no estímulo à inserção do sujeito em inter-relações com diversas redes sociais, na elaboração e na criação de novas construções singulares e coletivas. Desenvolve-se a partir de uma problemática não só instrumental, mas que pressupõe uma visão crítica da realidade e que possibilite a criação coletiva dos resultados.

 

As formulações teóricas a respeito desta metodologia baseiam-se nos preceitos utilizados por autores brasileiros e latino-americanos, entre eles Thiolent (1987) e Montero (2000).

 

Quando falamos em comunidade, abordamos este conceito tal como Vidal (2007) que a compreende como uma motivação positiva de sociabilidade, incluindo desfrute mútuo, cooperação, identidade coletiva e individual interconectada. A comunidade é pensada por este autor como um tecido social onde haja vinculação, interdependência, reciprocidade, confiança mútua, compartilhamento, comunicação e diálogo.

 

A metodologia da pesquisa-ação busca favorecer os processos de auto-gestão e de feedback. Remi Hess, professor da Universidade de Paris 8, em seu “ Cours D’Analyse Institutionnelle”(2006), diz que tanto na pesquisa-ação, quanto na Análise Institucional, é pela participação comum a todos os participantes do processo que encontramos o caminho do conhecimento.

 

Este processo de pesquisa se inscreve em uma relação direta com a ação e com o processo de conhecimento e de mudança. Este autor entende que a análise, a reflexão permanente, o esforço de conscientização das estruturas visam a mudança, no sentido de uma maior emancipação, de uma maior responsabilidade dos autores e no sentido da auto-gestão. Os objetivos da pesquisa são os elementos constitutivos desta, busca-se fazer do processo da pesquisa um objetivo da pesquisa em si mesmo.

 

O Prof. Remi Hess, ao debater sobre a pesquisa realizada na comunidade da Rasa e apresentada no Colloque d’Analyse Institutionnelle da Université de Paris 8, em 2006, comentou sobre os vários níveis de ação e de análise do projeto que se atravessam e que apontam para diversos caminhos teórico/práticos interdisciplinares. Salientou a importância das novas tecnologias da imagem que são utilizadas em pesquisas como esta e falou em repensar a sociologia da intervenção a partir das atuais experiências.

 

A profª Luccette Colin, apontou a importância de uma pesquisa que desenvolve, ao mesmo tempo, um enfoque político e subjetivo; que trabalha a questão da cidadania e também da identidade. “Há um dimensão política e uma forma de intervenção que funciona como um mediador social que permite que a fala destas pessoas faça parte do discurso da comunidade. O pesquisador atua como um interventor que permite a intermediação de um ato de reconhecimento e a inscrição da palavra do homem, que até então não tinha escritura sobre o espaço público.”

 

Temos realizado intercâmbio com os professores Sidi Askofaré e Marie-Jean Sauret, do Laboratório Recherches Cliniques em Psychanalyse et Psychopathologie de l’Université de Toulouse Le Mirail – França e debatido sobre a questão da transferência e da contra-transferência na relação pesquisador / sujeito pesquisado. Interessa-nos entender quais são os limites da atuação do pesquisador, qual sua implicação no processo da pesquisa.

 

Um dos instrumentos utilizados para a transformação dos modos de subjetivação encontrados nesta comunidade é o vídeo antropológico. A questão da visibilidade dos diversos elementos que compõem a realidade destas populações é de suma importância. O vídeo utilizado como fator de intermediação da equipe com a comunidade e desta com as diferentes instancias sociais, contribui decisivamente para a visibilidade e a interlocução entre os segmentos existentes.

 

Em nossos estudos, buscamos entender os processos ocorridos no desenvolvimento da pesquisa e as contribuições do vídeo neste percurso. A psicanálise é uma das disciplinas que contribui para o estudo deste tema. Paola Miele, professora da School of Visual Arts de New York, com quem vimos realizando intercâmbio, comentou em uma entrevista a nós concedida nesta universidade sobre as possibilidades que o ato de ver e ser visto, proporcionado pela metodologia do vídeo antropológico, podem trazer à constituição da subjetividade dos sujeitos da pesquisa:

 

“Ver-se no vídeo implica em uma relação tridimensional do corpo no espaço e inscreve-se no interior de um colocar-se sob o olhar do outro. A câmera funciona como um outro. Sua própria imagem não é binária, mas trinária, na relação com o outro. O sujeito se confronta com sua própria imagem a partir do vídeo. Isso pode dar como efeito permitir ao sujeito reconhecer a si e ao outro. A chave é se reconhecer no meio social, inscrever-se num espaço simbólico. Este processo ajuda um sujeito a se reconhecer como pertencendo a uma comunidade, a apreciar sua própria singularidade e sua história. Podemos levantar a hipótese de que há uma dimensão de testemunho que se coloca em causa. Sentir-se no interior do grupo, perceber-se de seu pertencimento, de que não é um sujeito isolado. “

 

O olhar e a voz são constituintes do sujeito, o ver-se através do vídeo, pode permitir a reelaboração das identificações, que encontravam-se “coladas” ao discurso do outro, possibilitando assim formular novas significações.
No presente estudo, cujo trabalho de campo será realizado na China, iremos averiguar os efeitos do vídeo nos sujeitos implicados na pesquisa e analisar comparativamente os discursos encontrados com aqueles produzidos nas comunidades estudadas no Brasil.

 

5.Metodologia

 

O trabalho de campo será realizado na China, durante os meses de fevereiro a maio de 2011. A metodologia utilizada será a qualitativa. O material coletado será debatido com os orientadores: Profs. Hemi Hess (Université de Paris VIII) e Ferruccio Marotti (Universitá di Roma).

Trabalharemos com as metodologias da pesquisa-ação, da escrita implicada e do vídeo antropológico. Ao nos defrontarmos com situações propícias, aplicaremos questionário com questões abertas, pertinentes ao tema deste estudo.

 

5.1Pesquisa Bibliográfica

 

Realizaremos atualização bibliográfica de fontes primárias e secundárias em bibliotecas das Universidades de Pequim, Shanghai, Paris e Roma em áreas afins ao plano de estudo.

 

5.2Pesquisa-ação

 

Todo o processo perpassado pelo plano de trabalho será atravessado pela metodologia da pesquisa-ação. Do ponto de vista científico, a pesquisa-ação é uma proposta metodológica e técnica que oferece subsídios para organizar a pesquisa social aplicada sem os excessos da postura convencional ao nível da observação, processamento de dados, experimentação etc. Com ela se introduz uma maior flexibilidade na concepção e na aplicação dos meios de investigação concreta.

A pesquisa-ação é uma estratégia de pesquisa agregando vários métodos ou técnicas de pesquisa social, com os quais se estabelece uma estrutura coletiva, participativa e ativa ao nível da captação de informação.
Para Thiolent, a pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.

Esta metodologia será desenvolvida incluindo diferentes técnicas: entrevistas , vídeo, observação participante, jornal de pesquisa.
Segundo a perspectiva institucionalista, o pesquisador, na pesquisa-ação, precisa levar em conta a sua implicação. Ele está implicado, assim como todos os atores sociais envolvidos na intervenção. Toda a dinâmica da atividade de conhecimento, toda a práxis científica são atravessadas pelo engajamento pessoal e coletivo do pesquisador.

 

5.3Escrita Implicada

 

O trabalho de campo será relatado de acordo com o método da escrita implicada, tal como é abordado por Remi Hess e outros autores institucionalistas. A pesquisadora irá relatar as experiências vividas através do diário de pesquisa. No entender destes autores, o diário de pesquisa já é pesquisa.

Para Remi Hess (2005), “escrever sempre teve importância decisiva na prática da análise institucional”. Este autor utiliza o que chama de “diário de bordo” capta, no dia a dia, as percepções, as experiências vividas, os diálogos e as sobras do concebido que emergem. A técnica do diário foi escolhida para ilustrar a implicação da escrita.O diário de pesquisa é um mediador entre o sujeito e a escrita. O objeto do diário pode ser um pensamento, um sentimento, uma emoção, a narração de um evento, de uma conversa, de uma leitura, etc. Ele entende que “do ponto de vista da análise institucional, a prática do diário aparece como uma ferramenta particularmente adaptada para articular a exploração das relações entre o campo de intervenção e de análise.

 

5.4Vídeo Antropológico

 

Em nossas pesquisas, o vídeo ocupa um lugar ampliado; não se trata somente de uma técnica, mas de uma estratégia que têm seus efeitos nos resultados encontrados.O método do vídeo antropológico pressupõe o registro e a projeção do registro em vídeo para os sujeitos que participam deste processo e inclui debates , após a projeção , atuando em processo de contínuo feed-back..

 

O objetivo deste método é o de possibilitar uma integração dialética e de, a partir do distanciamento e “espelhamento“ possibilitados por esta tecnologia , chegar a uma nova visão de si e de sua relação com o meio , a um auto-conhecimento e a uma auto-análise das formas expressivas e comportamentos psicossociais existentes e a uma visão crítica da realidade .

 

No atual projeto, o vídeo será utilizado no registro de aspectos considerados significativos à pesquisa (rituais, festas, situações particulares de uma dada cultura…) e em entrevistas com especialistas e sujeitos que vivem nas diferentes cidades chinesas. A metodologia de vídeo antropológico não será realizada, neste projeto, do modo tradicional, onde é necessário um longo tempo de relacionamento com as populações estudadas.

 

Analisaremos alguns aspectos comuns e outros particulares encontrados neste modo de intervenção. Em determinados momentos de nosso trabalho de campo, poderemos apresentar vídeos produzidos por comunidades do Brasil.
Todo material produzido fará parte da análise dos resultados.

 

6.Forma de Análise dos Resultados

Dentre as diretrizes de análise dos resultados mais difundidas, destacamos as implementadas pela OPAS (Organización Panamericana de la Salud y Organización Mundial de la Salud, 1987; Hutchius et al., 1993), na década de 80. Já o desenvolvimento da abordagem participativa na pesquisa e prática de planejamento e gestão de programas sociais tem em Paulo Freire um precursor.

No entanto, trabalharemos com a perspectiva utilizada por Alípio Sanchez Vidal, desenvolvida no Manual de Psicologia Comunitária (2007), devido à maior identificação com a orientação proposta por este professor, ao fato de desenvolvermos intercâmbio e à possibilidade de podermos contar com sua colaboração no acompanhamento e avaliação das resultados do presente projeto.

 

Segundo este autor, a avaliação social visa organizar e racionalizar o processo de intervenção comunitária; é um ato metodológico e também uma interação entre sujeitos em um contexto social impregnado de interesses e poder. Este ponto de vista vai ao encontro do abordado pelos autores institucionalistas franceses ( Lourau, Lapassade, Remi Hess): a questão da implicação do pesquisador e dos atravessamentos das diversas esferas do poder nas relações sociais.

 

Em nossa proposta articularemos as seguintes formas de avaliação (citadas em Alípio Sanchez Vidal (2007):

1) análise prévia à investigação – o material bibliográfico sobre aspectos teóricos e metodológicos produzido a partir das experiências que vimos desenvolvendo há alguns anos, será comparado com os resultados da pesquisa na China;

2) avaliação formativa – buscaremos aprofundar questões e averiguar a realização das propostas;

3) avaliação do impacto dos resultados e efeitos da intervenção – este aspecto tem sido pesquisado por nós em nossos trabalhos e será uma preocupação central neste estudo;

4) acompanhamento do projeto visando verificar a adequação aos objetivos iniciais – será desenvolvido o acompanhamento durante todo o processo da pesquisa. 5) avaliação da avaliação – usando os dados obtidos na avaliação como material de novas análises. Este enfoque de avaliar, reavaliar, criar novas propostas e tornar a avaliar, em um movimento continuo é parte integrante de nossa proposta.

 

A avaliação social é uma parte integral do processo de intervenção social que o precede, o acompanha e o encerra. Para Vidal, a avaliação já é intervenção Realizaremos o acompanhamento de todo o processo através dos métodos da observação participante, da escrita implicada, do vídeo antropológico..

 

Em nossa análise dos resultados será levada em conta a produção bibliográfica do material escrito e áudio-visual produzido na pesquisa anterior, a pesquisa bibliográfica e áudio-visual realizada no atual estudo e o material obtido através de técnicas tais como: entrevistas, debates,etc.

 

7.Síntese da bibliografia de referência

 

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______________ Os Chineses. S.Paulo: Ed.Contexto. 2009.
Tsé-Tung. O Livro vermelho. S.Paulo: Ed. Martin Claret. 2006.
Yutang,Lin. A Importância de Viver. S.Paulo: Ed. Círculo do Livro. 1974.

_____________________________________________________________________ 8.Cronograma de execução do projeto
Mês Atividades
_____________________________________________________________________
2010 – apresentação e debate do projeto (via web), com os Profs. Remi Hess, da Université de Paris 8 e Ferruccio Marotti, da Universitá di Roma.
– pesquisa bibliográfica sobre teorias e metodologias que permeiam o projeto e sobre a China, local onde se desenvolverá o trabalho de campo. ______________________________________________________________________
Fevereiro e março de 2011 – início do trabalho de campo em pequenas vilas do sul da China.
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Abril e maio de 2011 – trabalho de campo em grandes cidades da China (Shanghai e Pequim).
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Junho de 2011 – ida a Paris. Reuniões com o Prof. Remi Hess e debate sobre a elaboração do projeto de pós-doutorado.
-apresentação de trabalho no Colloque d’Analyse Instittucionnelle, na Université de Paris VIII

Julho de 2011 – ida a Roma. Reuniões com o Prof. Ferruccio Marotti e debate sobre a elaboração do projeto de pós-doutorado.

Agosto de 2011 a maio de 2012- elaboração do relatório final do projeto de pós-doutorado.
– elaboração de artigo sobre o projeto para a Revue Les IrrAIductibles, da Université de Paris VIII .
– produção de vídeo com o material áudio visual registrado na China.
– elaboração de publicação, a partir do material produzido com a metodologia da escrita implicada. A publicação poderá contar com fotografias registradas no decorrer do trabalho de campo.
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Junho de 2012 – ida a Paris. Apresentação dos resultados do estudo na Universidade de Paris VIII.
– apresentação de artigo no Colloque d’Analyse Institutionnelle, Universitá de Paris 8.
– apresentação de vídeo na Universitá di Roma.

_______________________Resumo Cronograma_____________________________
Atividades Datas

02/11_03/11____04/11___05/11___06/11___07/11
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tr.campo sul China ____________
tr. campo grandes cidades ____________
reuniões orientador U. Paris ______
apresentação de trabalho ___
reuniões orientador U. Roma ______

08/11 a 05/12
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– elaboração do relatório final _________________________
-elaboração de artigo ______
– produção de vídeo __________________________
– elaboração de publicação __________________________

06/12 07/12
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– apresentação dos resultados Universidade de Paris VIII. _____
– apresentação de artigo no Col. d’Analyse Institutionnelle _____
– apresentação de vídeo na Universitá di Roma. _____
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Reality Show O Show do Olhar

Comentando sobre os ¨ Dating Shows ¨ , um dos tipos de ¨ Reality Shows ¨, a host de um desses programas afirmou que ¨ o conteúdo dos mesmos deve ser a expressão do Fim da Civilização , tal como a conhecemos¨. A essa observação , replicou o jornalista James Poniewozik, na revista Time ( agosto , 12 , 2002 ): ¨ Ao contrário, esse desmedido impulso para obter fama instantânea , sexo quase instantâneo e, ao lado disso, um pouco de dinheiro, está de acordo com a civilização , tal como a conhecemos – e em plena florescência ¨.

 

Dating Shows¨, ¨Reality Shows¨ , podem ser classificados como espetáculos voyeurísticos – via mídia- desenvolvidos em espaços delimitados previamente – quando não confinados num recinto determinado- embora abertos ao olhar invisível de milhões de espectadores, inclusive o olhar televisivo do Big Brother , que tudo controla. Nesta área restrita, ainda que disponha de uma fresta por onde transitam os fluxos magnéticos da TV , vivem e convivem os personagens do show , dando curso às suas fantasias de aventura , de sexo, de exibicionismo. Nesse campo de ilusão , eles induzem o público a acreditar que ali se desafia e se transgride a Lei, sob o olhar cúmplice das testemunhas sentadas diante se seus aparelhos de TV. Imprescindível tal cumplicidade, ¨sem o que não existiria o campo da ilusão

 

Há algo de perverso nessas encenações , por meio das quais os atores e sobretudo o Big Brother acenam com a possibilidade de um gozo do qual ¨tem a confiança de ter, seja como for, o domínio¨ . Que gozo? O que advém da neutralização da angústia da castração simbólica quando os participantes – os que atuam e os que assistem- se identificam imaginariamente com o objeto primordial, objeto de plenitude, que encobriria a falta , imposta pela instituição da Lei simbólica .

 

Faz-se então uma cena , uma ¨nova Lei¨, a do gozo ¨ que ordena buscar esse gozo seja lá qual for o meio¨. Instala-se aí o reino do narcisismo , o sujeito identificando-se imaginariamente com o objeto , tornando-se ele próprio objeto, enquanto o desejo está lá fora .

 

Enfim, se dissimula , se escamoteia o confronto com a castração e a falta no outro . Interessa ao Big Brother que a massa embarque na fantasia da totalidade. E isso está plenamente de acordo com a época em que vivemos.
O frenesi pessoal e coletivo deste tipo de espetáculo, visa a uma espetacularização da vida cotidiana, onde vale tudo pelo gozo perante o espetáculo , pelos quinze minutos de celebridade que nos falava Andy Warhol. Não importa o sentido, a enunciação, a significação. Não é uma identificação com borda, delimitada por significantes. É o estímulo a um gozo sem fim .

 

Passando uma rápida vista pela Internet sobre este assunto , vemos anunciados os próximos espetáculos: Uma mulher ficará isolada, junto com 40 homens e escolherá aquele que lhe dará o esperma para uma fecundação artificial. Casais ficarão em uma ilha deserta e serão promovidos encontros individuais com pessoas solteiras, com corpo escultural , para testar a fidelidade de cada cônjuge. Haverá divulgação na mídia da imagem dos participantes como criminosos de alta periculosidade e estes terão que andar pela cidade sem serem reconhecidos. Ganhará aquele que chegar ao término do Reality Show sem ser apanhado como criminoso.

 

Neste tipo de identificação, tudo vira espetáculo , onde procura-se dar a impressão dos personagens estarem vivendo a realidade. Mas trata-se de uma ¨realidade¨ manipulada , selecionada , controlada. E o que é selecionado , recortado ? Aquelas cenas que apelam para a exacerbação da sexualidade, das psicopatologias, das fofocas, dos atritos, dos escândalos . Mas não é um recorte que leva à busca de uma significação: é o consumo pelo consumo , o espetáculo pelo espetáculo. E o espectador se fixa num processo identificatório alienado , colado ao outro .
Este tipo de espetáculo apropria-se das técnicas do cinema direto , mas para transformar os sujeitos envolvidos em objetos , em cobaias.

Mas qual o poder deste instrumento que é a televisão?

Temos estudado a questão da influência da mídia e dos processos de globalização na constituição dos sujeitos e se estes encontram meios de recriar os conteúdos assimilados. Interessa-nos entender como as “máquinas de visão” intervém na constituição das subjetividades , de que modo estas influenciam nos discursos enunciados. E como o ser olhado , “ser quadro” intensificam o discurso do “che vuoi”( o que queres de mim ?) .

 

Lacan aborda a questão do olhar na constituição do sujeito. Entre o indivíduo e o mundo estabelece-se uma primeira relação através do olhar. Ao nascer, o indivíduo é inserido através do olhar neste mundo. Ao indivíduo que olha pré-existe um olhar, o olhar do mundo. “Eu só vejo de um ponto, mas em minha existência sou olhado de toda parte”.

 

Trata-se de um olhar que , ao lhe dar existência, o subjetiva. O olhar que vê de todos os pontos o constitui como pertencente ao mundo, pertencente a “uma paisagem”. Ao ser englobado pela paisagem, estando nela inserido, o sujeito adquire existência. No campo escópico, o olhar está do lado de fora “sou olhado, quer dizer, sou um quadro”.

 

Como se dá a constituição do sujeito no mundo contemporâneo, pós- moderno, mediatizado pelas ¨máquinas de visão?

Segundo alguns psicanalistas, o mundo contemporâneo tende a abolir o sujeito. A pregação política e a mídia utilizam a idéia imaginária do todo, do universal ,do que faz esfera. O senhor da modernidade se afirma em uma verdade que se conceitua por sua igualdade a si mesma. Trata-se de uma cultura que se afirma pela Eu-cracia , por um Eu que é idêntico a si mesmo cujo mandamento é : continua a gozar , a consumir . O jovem , muitas vezes, passa a identificar-se com um Outro imaginarizado pela figura da Internet, por exemplo. O Outro do saber passa a ser um outro que não responde, que não está encarnado, que não tem cheiro .

 

Qual o lugar das tecnologias audio-visuais na cultura contemporânea?

Um dos autores que estuda as tecnologias áudio-visuais, entendendo-as estreitamente interrelacionadas com a complexidade social e a mudança cultural , é Massimo Canevacci . Em ” Antropologia da Comunicação Visual”, ele desenvolve a idéia de que a comunicação visual está extremamente vinculada com a cultura contemporânea inteira e corta o novo projeto de aculturação planetária. Segundo ele, (2, pg.11) “a abordagem antropológica da comunicação visual configura-se em dois níveis:

a) com o primeiro se entende o uso direto por parte do pesquisador das técnicas áudio-visuais para documentar e ou interpretar a realidade, seguindo a metodologia antropológico cultural;

b) com o segundo, a análise dos produtos da comunicação visual reprodutível na sua totalidade, isto é, fenômeno global da cultura visual; seja para compreender os seus modelos simbólicos e formais; seja para reforçar a referida pesquisa numa relação iterativa”.

 

Canevacci conceitua seu trabalho como uma “antropologia da dissolução” e entende que o atual ambiente simbólico das sociedades complexas é de tipo visual e reprodutível.

 

Outro autor que estuda as interrelações entre a constituição da subjetividade, a cultura e as ¨máquinas de visão¨ é Guatari . Ele enfatiza a questão da subjetividade enquanto produzida por instâncias individuais, coletivas e institucionais. Em Caosmose , afirma que a subjetividade é plural , polifônica e que as máquinas tecnológicas de informação e de comunicação operam no núcleo da subjetividade humana. Ele entende que é preciso levar em conta as dimensões maquínicas de subjetivação e a heterogeneidade dos componentes que concorrem para a promoção da subjetividade .
Mas será que a influência destes sistemas maquínicos será necessariamente a de contribuir para constituição de ¨ Eu-cracias , de identificações coladas ao outro?

 

Em nossa experiência com o uso da tecnologia audio-visual , buscamos contribuir para a constituição de outras formas de subjetividade. Há vários anos trabalhamos com a metodologia de vídeo antropológico em comunidades do Rio de Janeiro e de outros municípios.

 

A abordagem utilizada tem como fundamento teórico-metodológico o cinema etnográfico de Jean Rouch e o método de vídeo antropológico de Ferruccio Marotti, da Universidade de Roma .
Os filmes etnográficos iniciaram com as inovações técnicas da sociedade industrial do século 19, quando foi possível o registro visual de outras sociedades. A partir deste método, é possível ver segundo um novo olhar, e em toda a sua riqueza, o conjunto de diversos modelos de comportamento humano. O que se busca não é dizer a verdade sobre o outro, revelá-lo, “traduzí-lo” aos nossos cânones de inteligilidade ; mas, tentar construir uma ponte entre duas culturas, para que elas possam finalmente dialogar!

 

Segundo Jean Rouch :
“O cinema direto contribui para liberar o homem (ou certos grupos de homens) do estado de dependência no qual se encontra, ajudando-o a tomar consciência de si mesmo, de sua originalidade, de sua força enquanto membro de um grupo.”

 

“As técnicas do direto permitiram a eclosão de um cinema novo que parece estar a caminho de se apropriar da experiência humana a mais vasta possível e inventar novos tipos de relações entre os indivíduos e as coletividades.”

 

A metodologia visa , a partir do distanciamento e “espelhamento” possibilitados por esta tecnologia audio visual , auxiliar no processo de chegar a outras visões de si e de suas relações com os outros e enfatiza a obtenção de uma relação que faça com que o objeto da pesquisa seja também o sujeito desta.

 

Recentemente, participei de uma experiência que me tocou de modo especial.
Desenvolvi pesquisa com a metodologia de vídeo antropológico em uma comunidade descendente de um Quilombo , na Rasa, Búzios. Trata-se de um local onde os moradores sentem-se excluídos , discriminados , isolados pela outra parte de Búzios – aquela representada pelo detentores do poder público e privado. Registramos em vídeo o dia a dia das pessoas e das diversas ¨ formas associativas ¨ e organizamos seminário com convidados do Brasil e da Itália . As diversas organizações, associações , grupos de auto-gestão, movimentos estavam presentes . Projetamos o vídeo e após a projeção , todos os participantes reuniram-se e houve uma confraternização coletiva, com expressões de júbilo, de entusiasmo que eu jamais experimentara. Havia uma força vital, uma comunhão, um êxtase que para tentar expressar verbalmente só consigo associar com o ¨entusiasmus ¨ e a catarse do teatro grego da antigüidade.

 

Claro que não podemos saber exatamente como era , pois o tempo e o espaço são outros, mas foi uma experiência que , penso, só pôde surgir devido ao processo de coletivização da experiência . O olhar , através do espelho/ vídeo , atravessado pelo coletivo e por diversas instâncias sociais, que ali estavam presentes através dos representantes das áreas municipais, estaduais, federais e internacionais.

 

Este é um exemplo de outras formas de utilização das tecnologias audio visuais, com a metodologia do ¨direto¨ , sem ser de forma alienada , colada ao outro. Mas não há interesse daqueles que detém o poder de controlar e massificar em chegar aos resultados obtidos na experiência coletiva, participativa e de auto-gestão.

Pesquisa-ação na saúde mental e na comunidade.

Carmen Rodrigues Tatsch

Resumo

Este artigo discute a questão da pesquisa-ação e suas inter-relações nas áreas de saúde mental e de psicologia comunitária. Desenvolvemos alguns enfoques teóricos e metodológicos que atravessam nossas intervenções e apresentamos as metodologias da pesquisa-ação, do vídeo antropológico e do teatro antropológico tal como as utilizamos em instituições de saúde mental e em comunidades do Rio de Janeiro, Brasil.

Palavras-chave: pesquisa-ação; saúde mental; comunidade.

 

Introdução

Há muitos anos vimos desenvolvendo pesquisas com as metodologias da pesquisa-ação, do vídeo antropológico e do teatro antropológico em instituições de saúde mental e em comunidades do Rio de Janeiro.

 

Trabalhamos com a hipótese de que as expressões singulares de cada cultura funcionam como um sistema informal de promoção de saúde e contribuem para a formação dos processos identificatórios com características particulares, em contraposição ao movimento massificatório dominante. Esta hipótese tem sido confirmada em anos de pesquisas cujo trabalho de campo é realizado em comunidades urbanas desfavorecidas sócio-economicamente. Em nosso entender, quando buscamos valorizar, dar visibilidade e dinamização a estas culturas estamos realizando promoção de saúde mental.

 

Entendemos promoção de saúde mental no sentido de um processo que afirme a vida, que busque a mudança, que esteja em permanente processo de instituir-se. Deleuze cita FOUCAULT (1988): “não se sabe do que o homem é capaz enquanto ser vivo, como conjunto de forças que resistem”.
Com vida, queremos dizer tudo aquilo que se opõe à morte, à imobilidade, à inércia. E para isso, é preciso mudar o próprio homem. O homem aprende a aprisionar a vida dentro de si. É necessário extrair forças dentro do próprio homem para haver uma vida mais ampla, mas afirmativa, mais rica em possibilidades

Pesquisa-ação – intervenção em instituições

 

Iniciamos as pesquisas com as metodologias da pesquisa-ação, do vídeo e do teatro antropológicos na década de 80. Estas foram realizadas em instituições de saúde mental do Rio de Janeiro ¬(Instituto de Psiquiatria da UFRJ; Hospital Pinel – atual IPP; Colônia Juliano Moreira); junto à comunidade acadêmica da UFRJ e às comunidades de favela e de asfalto da cidade do Rio de Janeiro.

 

Nas pesquisas em comunidades, interessa-nos o estudo das culturas regionais que preservaram seus rituais e formas próprias de expressão, mantendo assim seus valores, arte, identidade.

 

Em 2001 iniciamos pesquisa – ação junto à comunidade quilombola da Rasa, Município de Armação dos Búzios, Rio de Janeiro. Naquela ocasião, a pesquisa articulava-se à Escola de Comunicação, UFRJ. A partir de 2005, esta passou a vincular-se à Universidade Veiga de Almeida. Em ambas as fases, os projetos contaram com o apoio da FAPERJ.

 

Todo o processo da pesquisa é acompanhado pelo registro em vídeo e pela projeção do material áudio-visual para a comunidade, em um contínuo feed back. O método de vídeo antropológico baseia-se no cinema etnográfico, o qual possibilitou o uso da “câmara participante”. A pesquisa conta, nesta área, com a consultoria do Prof. Ferruccio Marotti, diretor do Centro Ateneo da Universidade de Roma.

 

Entre os resultados encontrados em nossa pesquisa, poderíamos dizer que houve um processo de “empoderamento” destes sujeitos. As relações de poder existentes passaram a modificar-se, abrindo campo para lideranças comunitárias nas deliberações políticas locais. Iniciou-se um processo de transformação do lugar de exclusão e isolamento em que se encontravam.

 

Podemos inter-relacionar estes processos com o conceito de empowerment, tal como o Prof. Alípio Sanchez Vidal, em seu Compêndio de Psicologia Comunitária, o desenvolve: empowerment é uma idéia emergente da Psicologia Comunitária e outros campos da política e da ação social. Implica, sobretudo, desfazer o foco da psicologia na saúde, para enfocar o poder sustentável, a análise e a mudança social y psicosocial. Há uma re-focalização psicológica no empowerment.. Os significados de empowerment mais usuais são : dar poder, autorizar ou capacitar, quer dizer,empoderar.

 

Vimos articulando um projeto de turismo histórico- antropológico- ecológico que congrega participantes de diversas formas associativas da região e visa criar um tipo de turismo que permita o desenvolvimento humano, social e econômico para esta população, de forma sustentável . O projeto oferece um contraponto ao movimento predatório existente, pois o enfoque na geração de renda se dará de forma a preservar a cultura, a história e o espaço da população local e a melhorar a qualidade de vida não só do ponto de vista econômico, mas também político e cultural.

 

Visando organizar este circuito temos realizado diversas visitas, acompanhadas por lideranças, a locais desta região que farão parte do percurso turístico. As visitas aos circuitos turísticos têm sido realizados com a presença de professores provenientes de diversas áreas acadêmicas, e participaram nos eventos realizados na Rasa, organizados pela equipe juntamente com lideranças da comunidade estudada. Contamos com a participação dos professores: Massimo Canevacci (Universitá di Roma), Carlos Lessa (UFRJ), Sidi Askofaré (Université de Toulouse), Alípio Sanchez Vidal ( Psicologia Comunitária (Universidad de Barcelona), Paola Mieli (School of Visual Arts, New York) e outros, que trouxeram interessantes contribuições ao projeto.

 

A partir destas visitas, veio a surgir, em processo de auto-gestão, a idéia da criação de um centro cultural onde as diversas associações da Rasa (artesãos, agricultores, costureiras, jardineiros…) virão a comercializar seus produtos.

 

Atualmente lideranças de diversas Associações (de Arte e Cultura, de Moradores, de Produtores Rurais, dos Quilombolas, do Fórum Inter-comunitário) estão realizando encontros, juntamente com a equipe de pesquisa, para tratar da criação do Centro Cultural da Rasa, a ser gerido por estas lideranças.

 

Esta é um momento de passagem de um percurso que terá diversos desdobramentos, que estão em fase de gestão. Através deste artigo esperamos multiplicar espaços de debate e reflexão.

 

Referências Bibliográficas

 

Alípio Sánchez Vidal. Manual de Psicologia Comunitária. Un enfoque integrado. Madrid: Ed. Pirâmide. 2007.
Boterf, Guy Le Pesquisa Participante: Propostas e reflexões metodológicas:.Brandão, C.R (Org) .Repensando a Pesquisa Participante. São Paulo: Ed. Brasiliense (3ª ed) 1987.
Deleuze, Giles. Foucault. S.Paulo,Ed. Brasiliense. 1988.
Hess, Remi. Colloque D’Analyse Instituttionnelle. Paris, Université de Paris 8. 2006.
Montero, Maritza. Construcción, desconstrucción y crítica: teoria y sentido de la psicologia social comunitária em América Latina. In: R.H.F.Campos & P.A.Guareschi (Orgs). Paradigmas em Psicologia Social. A perspectiva Latino-Americana. Petrópolis: Ed. Vozes (2ª ed.). 2000.
Negri, Antonio. Império. RJ: DP&A Ed., 2003.
Santos, Joel R. Épuras do Social. Como podem os intelectuais trabalhar para o social. S.Paulo, Ed. Global, 2004.
Tatsch, Carmen R O Teatro como Potencial para a Transformação. Dissertação de Mestrado em Psicologia – Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1991
_________Tecnologia Audio-Visual e Formas de Subjetivação. Monografia.Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1994
__________Formas Expressivas e Discursos de Uma Comunidade Urbana do Rio de Janeiro: Um Uso do Teatro e do Vídeo Antropológicos. Tese de Doutorado apresentada ao Programa em Pós-Graduação em Psiquiatria e Saúde Mental do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. 1997.
Thiollent, Michel. Notas para o debate sobre pesquisa-ação. In: C.A.Brandão (Org) Repensando a pesquisa participante.São Paulo: Ed. Brasiliense (3ª Ed.). 1987.

Autorización

Io, Drª Carrnen Rodrigues Tatsch, ID. 3131706, IFP, autorizo a las autoridades del III Congresso Argentino de Salud Mental y la Comission Directiva del de la Associación Argentina de Salud Mental a reproduzir em el formato que sea conveniente (editión em papel, em formato eletrônico o e-book, etc), el trabajo, comunicación libre, pôster, mesa redonda, etc. presenteado com el título “Pesquisa-ação na saúde mental e na comunidade”. Asimismo autorizo a los editores a vender la obra, consevandome los derechos para publicar mi articulo em forma total o parcial em otras publicaciones em el futuro.

Drª Carmen Rodrigues Tatsch

Pesquisa em uma comunidade quilombola do RJ: estudo sobre o lugar do sujeito e a função do olhar e da voz .

Carmen Rodrigues Tatsch

 

No primeiro semestre de 2016, quando vi o filme Menino 23, baseado na tese de doutorado de Sidney —, este causou-me impacto. Lembrei-me de uma pesquisa que realizei, entre os anos de 2003 a 2007? , em uma comunidade quilombola em Búzios, RJ.Resolvi escrever sobre o tema abordado por este filme, inter-relacionando-o com esta pesquisa.

 

Uma das questões suscitadas pelo filme foi a das relações entre as elites brasileiras e os descendentes de africanos que vieram escravizados para o Brasil. A história documentada no filme passa-se a partir dos anos de 1933, quando a família Rocha Miranda, protótipo de outras tantas, responsabiliza-se perante o Educandário Romão Duarte, situado na zona sul do Rio de Janeiro, pela criação de 50 meninos negros órfãos. Estas crianças são levadas para a Fazenda Cruzeiro do Sul, em São Paulo. pertencente a esta família Estes meninos, são tratados da mesma forma que seus antecedentes que foram escravizados. Eles trabalhavam de sol a sol, sem receber um tostão por isto, e sofriam punições e torturas .

 

Eles não eram chamados por seus nomes e sim pela numeração que lhes era dada, segundo a posição que ocupavam em relação à altura de cada um. Aloisio, chamado Menino 23, diz no documentário que foram escolhidos como quem compra gado e eram tratados como tal.

 

A historia destes meninos no filme é recortada por vídeos que relatam a ideologia nazifascista que predominava na época. O Brasil teve o segundo maior partido nazista do mundo e algumas pessoas da família citada eram membros deste partido. A eugenia era o paradigma de normalidade e a orientação do governo de Vargas era a melhoria da raça branca. . Segundo a concepção higienista, fundamentada na Eugenia, não era possível fazer uma grande nação com uma raça inferior, eivada pela mestiçagem, como eram os brasileiros.

 

A perspectiva higienista vem a ser questionada a partir do surgimento da psicanálise, que diz que há sujeitos, cada um com sua singularidade. A história, o lugar onde o sujeito vive e os laços que estabelece terão efeitos na constituição deste sujeito.

 

Quando, na década de 40, Getúlio Vargas rompe seus laços com a Alemanha e se associa aos EUA, o envolvimento com o partido nazista passa a ser mal visto e todos os documentos e símbolos, tais como a suástica, inscrita no lombo dos animais e nos tijolos das construções, são eliminados. Os meninos, agora adolescentes, são soltos na rua e ficam ser ter para onde ir. Este fato retrata o destino de tantos outros sujeitos descendentes de africanos que com o fim da escravatura ficam sem lugar na sociedade.
Ao lembrarmos nosso passado, impregnado pela ideologia nazifascista, podemos entender melhor as relações existentes entre as elites brasileiras e as populações advindas das classes populares.

 

O historiador José Rufino dos Santos apresentou, em encontro realizado em 1997, no CREMERJ, alguma teses sobre o corpo negro que podem contribuir para nosso trabalho. Ele lança a tese que o corpo do negro funcionou, na América, como gerenciador de arquivo. Seu corpo, como lugar social, ocupou os espaços de despossessão, tortura, resistência. Segundo Rufino, o corpo negro é o buraco negro das ciências sociais no Brasil. Tudo o que se aproxima dele é tragado. Sua função é esquecer . É o delete que se deve temer.

 

Na pesquisa realizada junto à comunidade quilombola da Rasa, Búzios, percebemos que os moradores desta região encontravam-se excluídos da vida social, cultural e econômica reinantes no município, em processo de desintegração da sua cultura e da sua história, em estado de isolamento uns dos outros e dos grupos sociais existentes.

 

O trabalho de campo foi realizado entre os anos 2003 e 2005 e inicialmente foi vinculado à Escola de Comunicação da UFRJ. Sua realização foi possível graças à concessão, pela FAPERJ, de uma bolsa de pós-doutorado. Trabalhamos com a hipótese de que as expressões singulares de cada cultura funcionam como um sistema informal de promoção de saúde.
No início de nossa pesquisa, em 2003, encontramos uma situação próxima à descrita no documentário. A população da Rasa em sua maioria vivia isolada da Búzios que era atravessada por processos de internacionalização e cosmopolitismo. Eles não conseguiam emprego por não terem os requisitos exigidos ( conhecimento de línguas estrangeiras,da etiqueta utilizada pelas elites, saber servir à francesa…). Ir à praia da Rasa era considerado perigoso, pois lá só havia negros.

 

Nas primeiras etapas do trabalho de campo, ao pesquisar nos sites sobre Búzios a respeito de sua história, encontrei que; primeiro havia os índios, depois vieram os portugueses e em 1960, chegou Brigite Bardot. Nenhuma palavra sobre os negros que chegaram escravizados e colonizaram a região.
Podemos pensar aqui no lugar do corpo do negro tal como Rufino menciona, como algo que se deve esquecer, deletar. Os africanos que chegaram escravizados a esta região desempenharam um importante papel na constituição do que vieram a ser as cidades de Cabo Frio, de Búzios e outras. Mas não tinham lugar na história, nem na mídia. O espaço onde foram jogados, com o final da escravidão, pouco a pouco foram tomados pelos grilheiros.

 

A pesquisa desenvolveu-se levando em conta três eixos: – o vertical – a história da comunidade da Rasa (descendente de um Quilombo); – o horizontal – o espaço sócio-histórico-antropológico-ecológico onde esta se situa e – o transversal – as questões surgidas foram trabalhadas em eventos atravessados por diversas instâncias. Buscamos produzir movimentos que permitissem uma circulação do macro para o micro e vice-versa, ampliando assim os modos de ver e de agir; estimular a ampliação dos laços comunitários e a inserção do sujeito em inter-relações com diversas redes sociais e contribuir para a elaboração, a ressignificação e criação de novas construções singulares e coletivas.

 

Há alguns anos vínhamos trabalhando com as metodologias da pesquisa-ação e do vídeo antropológico buscando favorecer os processos de auto-gestão e de feedback. Nesta comunidade a questão da visibilidade era especialmente significativa. O vídeo utilizado como fator de intermediação da equipe com a comunidade e desta com as diferentes instancias sociais, contribuiu decisivamente para a visibilidade e a interlocução entre os segmentos existentes.

 

A partir dos processos deflagrados pela pesquisa, novos movimentos passaram a instituir-se: dos sujeitos entre si e destes com diferentes grupos locais, nacionais e internacionais; criaram-se novos espaços para a divulgação e reflexão sobre questões relativas à comunidade alvo. As relações de poder existentes passaram a modificar-se, abrindo campo para lideranças comunitárias nas deliberações políticas locais. Iniciou-se um processo de transformação do lugar de exclusão e isolamento em que se encontravam.

 

O artesão Lelei, que vivia recluso em seu trabalho de talha em madeira, passou a dar aulas, vindo a constituir um grupo que passou a expor seus trabalhos de artesanato e a viver de seu ofício. Ele desenvolveu um lugar de liderança na comunidade e participou ativamente na criação do Circuito turístico- histórico- ecológico-cultural da Rasa e da gestação de um centro cultural onde as diversas associações da Rasa (artesãos, agricultores, costureiras, jardineiros…) viessem a comercializar seus produtos.
Carlinhos, um cadeirante que passou a fazer parte do grupo de artesãos, desenvolveu a capacidade de expor com clareza as ideias do projeto e passou a ocupar um lugar de palestrante nas palestras e outros eventos.
Diversos sujeitos começaram a estudar na universidade e outros vieram a ocupar um lugar na política partidária desta cidade.

 

Entre os diferentes enfoques metodológicos utilizados nesta pesquisa, foram enfatizadas as questões do olhar e ser olhado e a de dar voz a estes sujeitos que não tinham lugar naquela sociedade.

 

A psicanálise aborda a questão do olhar. Lacan desenvolve a idéia de que entre o indivíduo e o mundo estabelece-se uma primeira relação através do olhar. O mundo, enquanto estrutura simbólica, pré-existe ao indivíduo. Ao nascer, o indivíduo é inserido através do olhar neste mundo. Ao indivíduo que olha pré-existe um olhar, o olhar do mundo.”Eu só vejo de um ponto, mas em minha existência sou olhado de toda parte”.

 

Somente na relação do indivíduo a um outro, o olhar pode adquirir sua função de constituinte do sujeito. O olhar está do lado de fora “sou olhado, quer dizer, sou um quadro”. O primeiro símbolo que o ser humano alcança é a imagem, a forma de seu corpo na qual ele se precipita.

 

É a partir do estádio do espelho que se presentificará o enlaçamento dos três registros: Real, Simbólico e Imaginário. É com esta estrutura que o ser humano pode ter a ilusão de unidade frente à vivência de fragmentação do corpo , participar de relações sociais e inserir-se na cultura.
O estádio do espelho é fundamental na questão da identificação. Este estádio dá a compreender a divisão do sujeito desde seu surgimento . Dá a entender que a relação consigo passa por uma relação com o outro . O sujeito não é anterior a este mundo de formas que fascinam : ele se constitui nelas e por elas. O exterior não está fora , mas no interior do sujeito , o outro está nele.

 

Este estádio é um drama que maquina os fantasmas que se sucedem de uma imagem fragmentada do corpo à uma forma ortopédica de sua totalidade. As intenções agressivas surgem a partir da função formadora das imagens no sujeito – são as imagos do corpo fragmentado.“ A agressividade é a tendência correlativa de um modo de identificação que chamamos narcisista e que determina a estrutura formal do eu do homem e o registro de entidades característico de seu mundo. ”(Lacan, 1948, pg 73). Os instintos de destruição, de morte, têm relação com a libido narcísica e com a função alienante do eu, com a agressividade que se distingue em toda relação ao outro, mesmo aquelas que aparecem sob a forma de ajuda samaritana. Para Lacan, todo sentimento altruísta advém da agressividade, que sustenta a ação do filantropo, do idealista, do pedagogo e do reformador.

 

Buscando entender as contribuições do vídeo no percurso deste trabalho, entrevistamos Paola Miele, professora da School of Visual Arts de New York, que comentou sobre as possibilidades que o ato de ver e ser visto, proporcionado pela metodologia do vídeo antropológico, podem trazer à constituição da subjetividade dos sujeitos da pesquisa:

 

“Ver-se no vídeo implica em uma relação tridimensional do corpo no espaço e inscreve-se no interior de um colocar-se sob o olhar do outro. A câmera funciona como um outro. Sua própria imagem não é binária, mas trinária, na relação com o outro. O sujeito se confronta com sua própria imagem a partir do vídeo. Isso pode dar como efeito permitir ao sujeito reconhecer a si e ao outro. A chave é se reconhecer no meio social, inscrever-se num espaço simbólico. Este processo ajuda um sujeito a se reconhecer como pertencendo a uma comunidade, a apreciar sua própria singularidade e sua história. Podemos levantar a hipótese de que há uma dimensão de testemunho que se coloca em causa. Sentir-se no interior do grupo, perceber-se de seu pertencimento, de que não é um sujeito isolado.“
Outra questão trabalhada nesta pesquisa foi a da escuta. Estes sujeitos não tinham escuta, sua voz era apagada, deletada, como diz Rufino . A metodologia utilizada permitiu que a partir dos movimentos propiciados por entrevistas com o vídeo e projeção destas em palestras, debates,e outros eventos eles pudessem escutar-se uns aos outros e fazer conhecer suas ideias, sua história, seu desejo.

 

Para Jean-Michel Vives, Lacan propôs uma nova dialética das pulsões, ao conferir à invocação, como ao olhar, o estatuto de pulsão. A voz que vem do outro é a manifestação de seu desejo. Igualmente, é o desejo que se tem dele, o que leva Lacan (1965-66) a afirmar que o objeto a é diretamente implicado quando se trata da voz e isso no nível do desejo. Se o desejo funda-se como desejo do Outro, esse desejo enquanto tal manifesta-se no nível da voz. A voz não apenas o objeto causal, mas o instrumento pelo qual se manifesta o desejo do Outro. O termo é perfeitamente coerente, constituindo, se posso dizê-lo, o ápice em relação aos dois sentidos da demanda, seja ao Outro, seja vinda do Outro.

 

O infans nas origens de sua existência, sob o efeito de uma tensão endógena impossível de ser gerida, devido ao seu desamparo, lança um grito. O grito do recém-nascido não é, inicialmente, um apelo, sendo somente a expressão vocal de um sofrimento. Somente tornar-se-á apelo, pela resposta da voz do Outro, onde sinaliza seu desejo: “que queres tu que eu te queira?”. O sujeito é aqui chamado a ser.

 

O circuito da pulsão comporta assim dois tempos:

a) Ao grito do infans, o Outro responde, chamando-o a advir como sujeito
solicitando dele: “Torna-te!”

b) A partir daí, o infans não terá mais acesso diretamente à materialidade vocal que ficará, no melhor dos casos, velada pelo processo de significação. A busca da voz como objeto pode então acontecer. O infans, ao perder voz como objeto que se torna invocante, entabula seu processo de subjetivação e impulsiona seu percurso desejante: “Retorna!”

 

O infans, para advir como falante, deverá poder tornar-se surdo ao timbre primordial para falar sem saber o que diz, isto é, como sujeito do inconsciente. Para tornar-se falante, o sujeito deve adquirir uma surdez a este outro que é o real do som musical da voz. Do mesmo modo que um ponto cego estrutura a visão, a aquisição de um ponto surdo – constituído pelo recalcamento originário – é necessário para ser possível ouvir e falar. Vivés levanta a hipótese de que essa surdez estrutural é aquilo pelo qual somos protegidos da alucinação auditiva. O sujeito que era invocado pelo som originário, tornar-se-á, pela palavra, invocante. Nessa reviravolta de situação, o sujeito conquistará sua própria voz.Assim, a operação do recalcamento originário permite à voz permanecer em seu lugar, isto é, num primeiro tempo inaudível e depois inaudita. Aqui se enlaça, na sua dimensão subjetivante, a pulsão invocante da qual Lacan (1964, p.96), pode afirmar que ela era “a mais próxima da experiência do inconsciente” .

 

Para Miller, os objetos ditos a só podem se afinar com o sujeito do significante se perderem toda substancialidade, se estiverem centrados por um vazio que é a castração.

 

Lacan tomou a função da fala no campo da linguagem como ponto de partida para entender a experiência psicanalítica. Eu diria que a instância da voz merece inscrever-se como um terceiro entre a função da fala e o campo da linguagem. Neste sentido, a voz, no uso muito especial que Lacan faz desse termo, é sem dúvida uma função do significante –ou melhor, da cadeia significante como tal. “Como tal” implica que não é somente a cadeia significante como falada ou entendida, também pode muito bem ser enquanto lida e escrita. O ponto crucial dessa voz é que a produção de uma cadeia significante – eu lhes digo nos termos mesmos de Lacan – não está ligada a este ou aquele órgão dos sentidos, a este ou aquele registro sensorial.

 

A voz é uma dimensão de qualquer cadeia significante, na medida em que qualquer cadeia significante – sonora, escrita, visual, etc. – comporta uma atribuição subjetiva, ou seja, designa um lugar para o sujeito.

 

A profª Luccette Colin, da área de Análise institucional, da Universidade Paris 8, comentou sobre a pesquisa: “Há um dimensão política e uma forma de intervenção que funciona como um mediador social que permite que a fala destas pessoas faça parte do discurso da comunidade. O pesquisador atua como um interventor que permite a intermediação de um ato de reconhecimento e a inscrição da palavra do homem, que até então não tinha escritura sobre o espaço público.”

 

Referências Bibliográficas

LACAN,J.(1965-66). Le Séminaire Livre XIII, L’objet de la psychanalyse. (inédit).
_________( 1949).Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je.Comunicação realizada no XVI Congresso Internacional de Psicanálise.Zurich.
_______(1985). Do olhar como objeto a minúsculo. In: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro : Ed. Zahar .
MILLER J.A. “Jacques Lacan et la voix”. In: La voix. Paris: La Lysimaque, 1989, tradução Opção Lacaniana Online, Ano 4 • Número 11 • julho 2013 • ISSN 2177-2673
Tatsch, C.R. Formas expressivas e discursos de uma comunidade urbana do Rio de Janeiro : um uso do teatro e do vídeo antropológicos ,tese de doutorado, IP, UFRJ
________Projeto de Pesquisa Subjetividade, Cultura e Desenvolvimento Social. Relatório científico. ECO UFRJ. FAPERJ. 2005
———- Projeto: Direito ao Trabalho e Desenvolvimento Humano e Social.Relatório de pesquisa.FAPERJ.2007.
Vives,Jean-Michel”Pulsão invocante e os destinos da voz”, Tradução: Francisco R. de Farias, Revisão: Denise Maurano, Psicanálise & Barroco em revista v.7, n.1: 186-202, jul.2009.

Pontuações sobre L’Insu e a Lógica Modal.

Carmen Rodrigues Tatsch

Este trabalho resulta de uma questão que surgiu no decorrer do Cartel L’Insu que sait de l’une bévue s’aile a mourre. No momento estamos passando por um processo de dissolução deste que se iniciou com a saída de um participante que era presente/ausente, quer dizer, embora inscrito no cartel raramente aparecia, mas avisava de sua ausência. Após algum tempo, não mais compareceu e despediu-se com uma mensagem pelo watsapp.

A experiência que vivemos neste cartel instigou-me a escrever a respeito de duas questões: uma, sobre o processo deste; outra abordando a lógica que atravessa o Seminário l’Insu que sait de l’une bévue s’aile a mourre.

 

Quanto à primeira questão, em “A função dos Cartéis”, in: Documentos para uma Escola, Ano 1, nro 0, Mustafá Safouan comenta que o “mais um” é uma função que não tem nenhum equivalente social a que possa se referir. E Daniel Sibony diz que há no “mais um” a função de resto. O “Um” seria o resto, estaria abandonado, o mais próximo possível do ponto pelo qual o real vai insinuar-se no grupo. Lacan comenta : é justamente disto que se trata. De que cada um imagine ser responsável pelo grupo, tem que responder como tal… aquilo que faz o nó borromeano está submetido à condição de que cada um seja efetivamente, e não só imaginariamente, o que sustenta todo o grupo.

 

Creio que é esta função do “mais um” visto como um por um, que possibilita um giro, um movimento no cartel. Nos Documentos para uma Escola IV – O Que é a Escola?- há um escrito de Dalmara Marques Abla denominado Cartel, trabalho, formação, que relaciona uma poesia de João Cabral de Mello Neto “Uma bailadora sevilhana”, com o cartel .
Dançar flamenco é cada vez: é fazer, é um faz, nunca um fez.
Dalmara entende que, tal como o estribilho transcrito, o dispositivo do cartel é também cada vez ; é um faz, nunca um fez.

 

No decorrer do estudo de l’Insu buscamos entender que lógica atravessa este seminário. Lacan, em Encore, aponta para a lógica que o sustenta: é a modal.

 

Ao pesquisar sobre a Lógica Modal, vimos que esta tem sido estudada desde o início do século XX. Sua formalização deu-se com Lewis, em 1918. Na forma como a conhecemos hoje, foi concebida por Gödel, em 1933, por extensão modular da lógica proposicional clássica.

 

Conceitualmente podemos dizer que a lógica modal é o estudo do comportamento dedutivo de expressões que tratam de modos quanto ao tempo, possibilidade, probabilidade.

 

As proposições desta lógica podem ser classificadas como:

Necessárias – Proposições que necessariamente são verdadeiras ou falsas, ou seja, sua negação é impossível. “2+2 = 4”

Possíveis – Proposições que podem levar a uma ocorrência, ou seja, ela não é necessariamente falsa. “Pode estar chovendo em Natal agora”

Contingentes – Proposições que podem ser ou não verdades. “Sócrates era um filósofo”

Impossíveis – Proposições que marcam a impossibilidade de um acontecimento. “Uma pedra tem emoções”

 

Realizaremos algumas pontuações sobre trechos pinçados de escritos de Lacan e outros autores, que se relacionam com esta lógica.

 

No início do seminário 24, Lacan comenta que “L’insu que sait faz blá-blá-blá, isso equivoca”. E o título do seminário traz outras equivocações. Maria da Penha Simões, em seu texto “Um título em Anfiguri para um seminário acerca de “l’une bevue”, trabalha bem estas polifonias. A autora irá mencionar l’insu que sait, que pode ser traduzido como o não sabido, mas que soa como insuccès ( insucesso). Une bévue é entendido como equivocação, mas tem a sonoridade de Unbewusst ( o inconsciente). S’aile a mourre – mourre é um jogo popular, chamado no Brasil de “porrinha’, mas que pode ouvir-se como c’èst l’amour (é o amor).

 

A lógica modal classifica as proposições como necessárias, possíveis, contingentes, impossíveis. Lacan irá trabalhar estas de um modo singular.

 

Em Encore, ele irá associar estas categorias segundo se escrevem ou não, e se cessam ou não de escrever-se. À categoria do Necessário, Lacan irá relacionar o Sintoma; à do impossível, a “não há relação sexual”; ao possível, a equivocação (Unbewüst- inconsciente); ao contingente, o amor.
Lacan, em l’Insu, diz que L’une bévue, isto quer dizer um tropeço, uma vacilação, um deslizamento de palavra a palavra..Ao associar l’une bévue ao som de inconsciente, aponta para o sonho, o ato falho e o chiste como equívocos. O que se diz a partir do inconsciente participa do equívoco que está no chiste, equivalência do som e do sentido.Daí poder anunciar que o inconsciente está estruturado ‘como” uma linguagem. Na estrutura do inconsciente deve-se eliminar a gramática, mas não se deve eliminar a lógica. No frances há gramática demais. É preciso que a gramática esteja implícita para poder ter seu justo peso.

 

Ao estabelecer pontos de aproximação e de oposição entre as categorias modais e os modos de inscrição, Lacan realizará articulações que indicam as relações entre eles. Em Encore, ele afirma que “O necessário é o que “não cessa de se escrever.” O que ”não cessa de não se escrever”, é uma categoria modal que se opõe ao contingente. O necessário está conjugado ao impossível e esse “não cessa de não se escrever é sua articulação. O necessário, na medida em que ele “não cessa de se escrever”, é que, o que se produz é o gozo, que não seria possível, não faltaria. É esse o correlato de que não há relação sexual. E é o substancial da função fálica“.

 

Em outro ponto deste seminário Lacan continua: “É nesse “cessa de não se escrever” que reside a ponta do que chamei a contingência. A contingência, se, ela se opõe ao impossível, é na medida em que o necessário é o que “não cessa de se escrever”. Ora está bem aí a necessidade, a que nos leva a análise da referência ao falo. O “não cessa de não se escrever”é o impossível, que não pode se escrever em caso algum. É nisso que eu designo o que é da relação sexual. A necessidade da função fálica é que é, enquanto modo do contingente que o “não cessa de se escrever deve se escrever, cessando de “não se escrever”É como contingência na qual se resume tudo o que se refere ao que , para nós, submete a relação sexual a não ser, para o ser falante, senão o regime do encontro fortuito. É neste sentido que se pode dizer que o falo “cessou de não se escrever”. Ele não entrou no “não cessa”, no campo do qual dependem a necessidade e a impossibilidade”.

 

“O deslocamento dessa negação, a passagem de “cessa de não se escrever” ao “não cessa de se escrever”, a necessidade substituindo essa contingência, está bem aí o ponto de suspensão ao qual se apega o amor. Todo amor, por só subsistir pelo “cessar de não se escrever”, tende a fazer passar esta negação ao “não cessa, não cessará de se escrever” E é esse efetivamente o substituto que, pela via da existência – não da relação sexual, mas do inconsciente, que dela difere – por esta via faz o destino e também o drama do amor.”

 

Além dos seminários de Lacan citados, a leitura dos escritos de outros autores deram uma maior compreensão sobre as questões que o seminário levantou.

Délia Elmer, em RSI, faz uma leitura da lógica modal de Lacan e a escreve como segue abaixo:

 

 NECESSÁRIO                                                  IMPOSSÍVEL
Não cessa de escrever-se                     Não cessa de não escrever-se

Sintoma                                                         A relação sexual

POSSÍVEL                                                  CONTINGENTE
Cessa de escrever-se                                    Cessa de não escrever-se
Equivocação ( Unbewuste)                                             Amor

 

 

Diana Rabinovich, em Sexualidade e Significante, diz que “a escritura “não há relação sexual” deve ser entendida no contexto da lógica modal. A relação sexual é impossível de escrever porque o significante A mulher não existe. Existe o falo como significante do gozo, que permite inscrever a todo ser falante como respondendo à função fálica.

 

Segundo esta autora, a condição da lalangue é lógica. O não-todo é comum à lalange e ao significante da sexuação feminina ,A / mulher barrada. O A/ cruzado pela barra sigfica a inexistência , a impossibilidade de um universal de A mulher. S ( A/) marca o impossível do todo a nível do universo do discurso. Esta negação do universal é consequência do axioma de Lacan : não há Outro do Outro, não há metalinguagem. Esta formulação é inseparável do axioma “não há relação sexual”, que surge como ordenando a estrutura do inconsciente.

 

Nilza Ericson, em seu livro “Economia de gozo e final de análise”, diz que o Teorema de Gödel chega ao não demonstrável, nem refutável, mas que escreve um indecidível. A fórmula que traz na sua estrutura “Eu não sou demonstrável”, diz “Não há relação sexual”. Há alguma coisa que resiste como real, que não é demonstrável, que não é passível de ser escrito ou todo apreendido pelo simbólico… Falta algo ao saber que é da estrutura. Mas é algo que vai propiciar uma invenção. Invente uma forma singular… A invenção singular da resposta de cada um não é outra coisa senão a escrita do real da estrutura.

 

Delia Elmer, em RSI, diz que “homem e mulher são significantes, nem o inconsciente se reconhece como homem, ou como mulher, é uma questão de inscrição. Não há dois sexos, nem um só sexo, há um e um. Não são adicionáveis, não são opostos, não são complementares, são heterogêneos”.
Nilza Ericson entende que o que faz obstáculo à suposta relação sexual é o falo e o que ele faz limite e que ele limita ao mesmo tempo. O falo sustenta o limite do simbólico. Entre o homem e a mulher, entre um lado e outro, o falo faz obstáculo, impede que haja um encontro que faça de dois, um.

 

Delia Elmer menciona que não há relação sexual, uma das maneiras de dizê-lo é que não se pode gozar do corpo do Outro, daí a angústia. O que é da relação sexual é estritamente impossível de escrever xRy. Não há elaboração logicizável e ao mesmo tempo matematizável da relação sexual.

 

Em seu texto, Sinthoma e escritura, Eduardo Vidal entende que o sintoma foi introduzido como substituição de uma satisfação malograda. O sentido do sintoma toca o Real. O sintoma é escritura; ele efetiva a repetição da letra no inconsciente, que não cessa de escrever…o impossível da relação sexual.
A relação sexual é da ordem do impossível e o falo ali é contingência, que reduz o que é do sexual no ser falante ao regime do encontro.

 

Eduardo Vidal entende que conhecer seu sintoma é a forma de saber fazer com. Não é um saber mas um ato que tem alguma ressonância com o modo com que cada um se vira com a sua imagem, na medida que ela faz o corpo, habituando-se a suportar a estranheza própria à irrupção do Real.

 

Delia Elmer afirma que Lacan define uma mulher como sintoma do homem. O que não cessa de escrever-se deve passar antes pelo cesse de não escrever-se, que dizer, o amor. O amor é precioso, raramente realizado e dura só um tempo. O amor faz suplência à não relação sexual, fazendo desde o imaginário que cesse de não escrever-se, porém este não faz báscula e reaparece no não cessa de escrever-se, isto é, o sintoma. Lacan diz que para que não cesse de escrever-se é preciso que antes tenha cessado de escrever-se. Devemos entender que, para que uma mulher seja sintoma do homem, deve intervir aí o amor.

 

Para Diana Rabinovich, o axioma que marca o impossível, quer dizer, o real da sexualidade, culmina em uma logificação quantificacional da sexualidade e a redefinição da estrutura de linguagem do inconsciente como lalangue

 

Ao finalizar estas pontuações, ficam algumas questões que continuarão a ser pesquisadas. Uma delas é a dos movimentos que se realizam, na escrita de Lacan, entre os significantes mencionados. Nesta, o Impossível se opõe ao Contingente; e o Necessário está conjugado ao Impossível. Esta posição dos significantes que se opõem teria relação com o cessar e o não cessar ? E os que se conjugam, estariam ligados ao ato de ambos não cessarem? De se escrever ou não. E como os movimentos entre os significantes desta escrita de Lacan se articulam com a clinica?

Diferença e hostilidade

 

QUANDO SAÍMOS DE NOSSO EIXO?

Resolvi conversar com você sobre este tema porque estamos passando por um momento em que às vezes, sem nos darmos conta, nos vemos envolvidos em situações de vida em que perdemos nosso bom senso, nosso brio, nossa capacidade de uma compreensão mais distanciada do que está acontecendo. Não conseguimos nos colocar no lugar do outro. Nos vemos envolvidos em um turbilhão de emoções que nos tiram do nosso eixo. E  podemos vir a machucar e, consequentemente, virmos a ser machucados por pessoas a quem queremos bem e que nos amam muito.

Acho que é importante incentivar o encontro entre  pessoas que desejam expressar seus pensamentos, sentimentos, trocar idéias, ouvir o que o outro tem a dizer; poder respeitar um ponto de vista, mesmo que seja diferente do seu; bem como cultivar o entendimento, apesar de não identificar-se com tudo o que os que nos cercam são, pensam ou querem.  

     Atualmente há uma polaridade que atravessa os mais diversos grupos sociais. Nestes, há um modo de mobilização que cega os olhos e ensurdece os ouvidos. Aí a alteridade é vivida como uma ameaça.

Ao abordar estas questões, Freud irá falar em narcisismo das pequenas diferenças. Os homens fundamentam os sentimentos de estranheza e hostilidade entre eles em suas pequenas diferenças, apesar de sua semelhança em todo o resto.  

A ligação social é estabelecida principalmente pela identificação dos membros entre si. Há a expressão de um amor a si próprio, um narcisismo que se empenha na afirmação de si.

Sempre é possível ligar um grande número de pessoas pelo amor, desde que restem outras para que se exteriorize a agressividade.

A hostilidade se apega à pequena diferença.  Esta pequena diferença é um mero pretexto para o exercício da destrutividade. A unidade só se forma e se mantém quando há um outro a quem se destina esse impulso agressivo.  

A intolerância desaparece, por meio da formação da massa e dentro da massa. Nesta os indivíduos se conduzem como se fossem homogêneos, suportam a especificidade do outro, igualam-se a ele e não sentem repulsa por ele. Os integrantes de uma massa supõem-se todos irmãos indiferenciados, como se tivessem a mesma forma, uni-form-izados

A massa, identificada a um líder, vincula-se a um modo de operar: “eles se diferem de nós, mas não diferem entre si”. Ou seja, o narcisismo das pequenas diferenças cria uma heterogeneidade intergrupal e, ao mesmo tempo, uma homogeneidade intragrupal.

Este texto de Freud tem sido aplicado a diversos momentos da história. Ele é extremamente atual no Brasil de hoje.

Em contraposição ao discurso reduzido do “nós”contra “eles”, sustentar uma conversação que considere a singularidade de cada um, uma ética que leve em conta o desejo dos sujeitos é uma direção interessante a ser seguida.

Obrigada por me ouvir. Se quiser saber mais sobre meu trabalho visite meu site carmen.psc.br Até breve.

 

Felicidade e mal-estar

Resolvi falar sobre esse tema devido às escutas que tenho, em meu consultório, sobre a busca da felicidade.

 Há diversas formas de se buscar a felicidade. Para algumas pessoas, a procura do ter, do consumir, leva à ilusão de que serão mais saciadas em suas carências, em seu vazio.  Dessa forma, cresce a transformação dos laços sociais em mercadorias, medindo-se seu valor em termos de quantidade. Acredita-se que quanto mais relações, maior o prazer. Reduz-se tudo ao valor de uso, às funções que os objetos ocupam. Há uma “coisificação” de tudo e de todos.

        Os discursos que imperam são de dominação. O modo de derrubar o poder imperativo destes discursos é substituir estes dando lugar ao desejo.E que é de cada um. Um a Um.   

Há uma procura constante da felicidade,  que de acordo com Freud, há uma impossibilidade nisto. É irrealizável a possibilidade de sermos felizes. Mas não se deve abandonar os esforços para se aproximar de algum modo de sua realização. Cada um deve descobrir, por si mesmo,  o caminho para se tornar uma pessoa feliz.

No livro “O mal-estar na cultura”, Freud dedica um espaço privilegiado de reflexão para o tema da felicidade. Para ele, a felicidade significa, além de obtenção de prazer, a evitação de desprazer.

Mas esse princípio de prazer visa eliminar toda excitação presente no aparelho psíquico. Há um mal-estar constante na cultura, uma contradição entre aquilo que constitui o propósito  das pessoas a felicidade no sentido de obter prazer, e a possibilidade real dela ser alcançada, uma vez que toda a constituição psíquica está voltada para atingir o estado zero de tensão.

Para alcançar a felicidade e afastar o sofrimento, a cultura impõe sacrifícios, não somente à sexualidade, mas também à inclinação  das pessoas à agressividade. É preciso realizar a repressão das pulsões. Há uma luta constante entre as pulsões de Eros ( pulsão de vida) e Tanatos ( pulsão de morte). A agressividade é uma disposição pulsional originária do ser humano. Ela é uma exteriorização da pulsão de morte.  

Para sobreviver com a segurança proporcionada pela vida social, o homem “abre mão” da possibilidade de realizar suas pulsões ao bel prazer. O homem vinculado à cultura trocou uma parte de felicidade por uma parte de segurança. Diante desta situação, podemos entender porque os homens dificilmente se sintam felizes.

Entre as técnicas usadas para evitar o sofrimento e construir formas de satisfação prazeirosas encontra-se a sublimação, que é o processo a partir do qual o prazer é atingido pela atividade intelectual.

Outra técnica para buscar o prazer é a fruição da beleza:  das formas e dos gestos humanos, dos objetos naturais e das paisagens, das criações artísticas e científicas.

Exercer atividades criativas, artísticas, intelectuais,belas podem levar as pessoas  a uma diminuição do desprazer e a atingir um maior prazer, mas não é seguro que assim alcançará a felicidade.

É preciso aprender a lidar com seu modo de ser e com suas questões.  Cada um estará mais próximo de atingir a satisfação que busca, sempre não toda, nunca absoluta, à medida que caminhar na construção de  seu desejo. A vida é uma aposta.

Saúde Mental

Resolvi conversar com você sobre este tema porque percebo que às vezes as pessoas não têm uma idéia muito clara sobre isto.

        A saúde mental é um termo utilizado, tanto para abordar algo que trata de todos os sujeitos e sua inserção na sociedade, quanto como uma  proposta que visa a promoção, a prevenção e o tratamento da saúde das pessoas que antigamente eram chamados doentes mentais, ou loucos.

       Um marco nessa mudança de visão em relação à loucura aconteceu 1978, quando em uma conferência internacional passou a conceituar-se a saúde como: um estado de completo bem- estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de doença ou enfermidade.  

       Os profissionais passam então a trabalhar com promoção de saúde, visando atuar na melhoria da qualidade de vida e do bem-estar global.

    A saúde mental é uma parte integrante e essencial da saúde. Inclui a capacidade de um indivíduo de apreciar e administrar a própria vida; ser capaz de ser sujeito de suas próprias ações sem perder a noção de tempo e espaço. Busca o equilíbrio emocional entre as questões internas e as exigências ou vivências externas.

    Há um termo que habitualmente não aparece na bibliografia como associado à saúde mental. Trata-se de: liberdade. Passei a incluir a esta palavra após visitar o Serviço de Saúde Mental de Trieste, Itália. Lá estava escrito, em letras garrafais, num muro:  “A liberdade é terapêutica”. Entendi então que o exercício de tornar-se livre, num mundo que tende à massificação e à alienação é muito significativo. A orientação terapêutica deste lugar valoriza a inserção no trabalho, onde o sujeito possa produzir à medida da sua capacidade.

    A expressão através da arte também é um recurso extremamente valioso. Tem uma função na promoção dos laços sociais e como ponto de ancoragem do sujeito.

    Seja através da arte, do trabalho, ou de qualquer outro modo de produção, cada sujeito busca por um lugar de existência onde irá construir a si mesmo e a sua história.

Casais em conflito

 

CONFLITOS NAS RELAÇÕES AFETIVAS NA CONTEMPORANEIDADE

Escrevo hoje sobre o tema do conflito nas relações afetivas devido à grande procura, em meu consultório, de casais que estão encontrando dificuldades em lidar com seus parceiros.

Vivemos em um mundo que não favorece a aproximação entre as pessoas, nem a criação de vínculos duradouros. As condições de existência contemporâneas trazem uma série de desafios para os casais.

Os vínculos amorosos construídos são atravessados por uma incerteza sobre sua continuidade e nesse sentido, o casal precisa ter condições de administrar o modo contemporâneo de se vincular.

A satisfação e a estabilidade das  relações não estão associadas diretamente à ausência de conflitos, mas à forma com que os  parceiros estabelecem estratégias para solucioná-los.

Entre os motivos mais frequentes de desentendimento  está a relação com os filhos, o tempo que desfrutam juntos, o dinheiro, as tarefas domésticas, o sexo e as questões legais.

Os conflitos que surgem  têm um papel fundamental na saúde mental. O estresse  na relação aumenta a probabilidade dos indivíduos de desenvolverem problemas físicos de saúde e também apresentarem dificuldades de funcionamento no trabalho.

Mesmo após  a separação , algumas pessoas ainda ficam aprisionadas numa dinâmica de repetição das problemáticas vividas durante o tempo que estiveram juntos. .

É importante que estes  parceiros trabalhem sobre o processo de reestruturação subjetiva e de transformação dos laços, ultrapassando a perpetuação de um tipo de vínculo que aprisiona, por outro que liberta.

Numa relação amorosa estão reunidos três aspectos: o do sujeito, o do outro e o da relação entre eles. Para haver uma relação equilibrada, nenhum aspecto deve ter predominância sobre os demais.

Um bom relacionamento é aquele que se estabelece entre iguais, em que cada parte tem seus direitos e obrigações; onde há igualdade de direitos e de responsabilidade e respeito mútuo. É igualmente importante haver um diálogo aberto e a ausência de poder autoritário.  

A manutenção de um vínculo amoroso depende do investimento de ambos na relação, de confiança mútua, de disponibilidade de cada um para com o outro.

 

Relação mãe e filho

 

QUESTÕES SUBJETIVAS NA RELAÇÃO MÃE E FILHO

Resolvi escrever algumas palavras sobre a relação mãe-filho indo além do que as mulheres cotidianamente se ocupam, ou seja, as coisas objetivas que ocorrem nos cuidados com o filho. Vamos fazer um pequeno intervalo nos afazeres de todo dia e tentar entender as questões subjetivas que atravessam esta relação?

Através dos tempos, muitas foram as mudanças no modo de ser mãe. A vida na sociedade, na cultura e na família passou por inúmeras transformações, alterando os modelos anteriormente existentes.

Há muitos modos de exercer a função  materna, mas, independente da sociedade, da cultura ou do nível sócio-econômico, estas funções criarão marcas e identificações na criança  e vai exercer forte influência na constituição de sua subjetividade.

A relação mãe-filho modifica não somente a criança, mas também a mãe. Ela, ao passar pelo processo do parto e nascimento do bebê, vive um rito de passagem que lhe permite dar à luz a si mesma.

O processo de identificação da mãe com o bebê leva a mãe a perceber e a suprir as necessidades de seu filho. A mãe, nos primeiros anos de vida da criança, exerce a função de acolher e processar as angústias, anseios, medos, necessidades e desejos de seu filho. Ela tem a função de apresentar o mundo à criança.

A amamentação é  fundamental para a sobrevivência e saúde do bebê sendo parte importante no processo de desenvolvimento emocional da criança. Esta fase da alimentação tem a capacidade de  unir a experiência de satisfação da fome, com a experiência de segurança, carinho e intimidade no relacionamento do filho com sua mãe.   

O processo de desmame, dependendo da forma como for conduzido, poderá interferir na relação do indivíduo com sua alimentação na fase adulta e indicar certas dificuldades da mãe e da criança em lidar com o processo de separação.

As brincadeiras que a criança realiza, desde os primeiros momentos de sua vida, contribuirão para sua socialização.A criança brinca não somente para repetir situações satisfatórias, mas também para elaborar as que lhe foram traumáticas e dolorosas. Por meio da brincadeira ela recria regras, deixa a imaginação e os sentimentos livres sendo capaz de expressar experiências desagradáveis, atingir um senso de controle sobre os eventos ocorridos e elevar sua auto-estima.

O lúdico também auxilia na revelação de sentimentos e pensamentos que a criança não havia percebido e que, por comportamentos expressos a partir do brincar, pode vir a entrar em contato com estes afetos.

O brincar é fundamental para a estruturação da criança, daí a importância do estímulo a que ela tenha experiências de criatividade e de espontaneidade.