Felicidade e mal-estar

Resolvi falar sobre esse tema devido às escutas que tenho, em meu consultório, sobre a busca da felicidade.

 Há diversas formas de se buscar a felicidade. Para algumas pessoas, a procura do ter, do consumir, leva à ilusão de que serão mais saciadas em suas carências, em seu vazio.  Dessa forma, cresce a transformação dos laços sociais em mercadorias, medindo-se seu valor em termos de quantidade. Acredita-se que quanto mais relações, maior o prazer. Reduz-se tudo ao valor de uso, às funções que os objetos ocupam. Há uma “coisificação” de tudo e de todos.

        Os discursos que imperam são de dominação. O modo de derrubar o poder imperativo destes discursos é substituir estes dando lugar ao desejo.E que é de cada um. Um a Um.   

Há uma procura constante da felicidade,  que de acordo com Freud, há uma impossibilidade nisto. É irrealizável a possibilidade de sermos felizes. Mas não se deve abandonar os esforços para se aproximar de algum modo de sua realização. Cada um deve descobrir, por si mesmo,  o caminho para se tornar uma pessoa feliz.

No livro “O mal-estar na cultura”, Freud dedica um espaço privilegiado de reflexão para o tema da felicidade. Para ele, a felicidade significa, além de obtenção de prazer, a evitação de desprazer.

Mas esse princípio de prazer visa eliminar toda excitação presente no aparelho psíquico. Há um mal-estar constante na cultura, uma contradição entre aquilo que constitui o propósito  das pessoas a felicidade no sentido de obter prazer, e a possibilidade real dela ser alcançada, uma vez que toda a constituição psíquica está voltada para atingir o estado zero de tensão.

Para alcançar a felicidade e afastar o sofrimento, a cultura impõe sacrifícios, não somente à sexualidade, mas também à inclinação  das pessoas à agressividade. É preciso realizar a repressão das pulsões. Há uma luta constante entre as pulsões de Eros ( pulsão de vida) e Tanatos ( pulsão de morte). A agressividade é uma disposição pulsional originária do ser humano. Ela é uma exteriorização da pulsão de morte.  

Para sobreviver com a segurança proporcionada pela vida social, o homem “abre mão” da possibilidade de realizar suas pulsões ao bel prazer. O homem vinculado à cultura trocou uma parte de felicidade por uma parte de segurança. Diante desta situação, podemos entender porque os homens dificilmente se sintam felizes.

Entre as técnicas usadas para evitar o sofrimento e construir formas de satisfação prazeirosas encontra-se a sublimação, que é o processo a partir do qual o prazer é atingido pela atividade intelectual.

Outra técnica para buscar o prazer é a fruição da beleza:  das formas e dos gestos humanos, dos objetos naturais e das paisagens, das criações artísticas e científicas.

Exercer atividades criativas, artísticas, intelectuais,belas podem levar as pessoas  a uma diminuição do desprazer e a atingir um maior prazer, mas não é seguro que assim alcançará a felicidade.

É preciso aprender a lidar com seu modo de ser e com suas questões.  Cada um estará mais próximo de atingir a satisfação que busca, sempre não toda, nunca absoluta, à medida que caminhar na construção de  seu desejo. A vida é uma aposta.