Roda de Conversa Inaugural

Olá tudo bem?

Estávamos fazendo um podcast sobre o Corona Vírus (Covid-19). Era o início do pandemia, e durante as gravações, começamos a pensar que seria interessante se pudéssemos ouvir, compartilhar aquelas e outras idéias com
demais pessoas. Do debate sobre como realizaríamos isto, chegamos à concepção da Roda de Conversa.

Estas rodas tratam de temas inspirados a partir de recortes de jornal; trechos de textos pinçados no whatsapp ou outras ferramentas, ou em livros.

Os temas vão tateando, seguindo caminhos fluidos, numa associação de idéias que podem nos levar por muitos caminhos.

Na primeira roda de conversa um dos temas trazidos foi : Valeu a pena?

Tivemos como texto-base uma citação de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Que renderam as mais diversas interpretações e associações

Encerramos a roda com um poema, de Camões, que muito tem a ver com o estado d’alma de nossos dias.

Do amor e da Amada
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

Frases de meu pai que marcaram minha vida

Resolvi dividir este tema com você porque certamente há frases de familiares que tiveram importante lugar na constituição dessa pessoa que você é hoje. Escrevi então este texto sobre algumas frases que meu pai costumava dizer e que marcaram todo meu percurso de vida.

Entre as coisas mais antigas que me lembro estão as reuniões da família que  aconteciam na minha casa. O debate era acalorado, lembro de minha avó paterna, que era tesoureira do partido comunista do Rio Grande do Sul e odiava os norte-americanos. Seu filho, meu tio, era tenente da marinha, havia lutado na segunda guerra mundial e era fanático pelos EUA. Meu avô materno era pastor protestante e sua filha, minha tia, era freira. Você consegue Imaginar quão efervescentes eram as discussões  que ali aconteciam?

Meu pai, que era centro-esquerda, funcionava como um moderador. Quando todas as pessoas falavam ao mesmo tempo, ele pedia que ouvissem àquele que colocou  a idéia em questão. Eu ficava um pouco assustada, tentando entender as argumentações de um lado e de outro, e procurava me colocar no lugar daquele que estava falando.

Estas reuniões foram marcantes em toda minha trajetória profissional e pessoal. Elas me ajudam nestes tempos sombrios, onde as argumentações cedem lugar à hostilidade, à agressividade, à violência física e mental, servem para me ajudar a não embarcar nessa histeria generalizada.

Outra influência de meu pai   é a citação que ele atribuía a Voltaire e que dizia : eu não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las. Eu achava bonito, mas não entendia essa coisa de morrer para defender outra pessoa que queria dizer algo que ele não concordava.

Algum tempo mais tarde, isto ficou mais claro para mim. O Jango havia sido empossado presidente do Brasil e havia um movimento para tirá-lo desse lugar. Brizola, seu cunhado, então governador do Rio Grande do Sul, conclamou os gaúchos para reunirem-se na praça para resistirem ao golpe militar que se anunciava. Meu pai e minha avó atenderam ao chamado do governador e se despediram de minha mãe, meus irmãos e de mim. Ele disse que não concordava com muitas coisas que Jango propagava. Mas defenderia até a morte o  direito dele de dizê-las e o respeito ao voto dado nas urnas. Eu fiquei com muito medo, assim como minha mãe e meus irmãos, mas ninguém questionou a legitimidade dos atos de meu pai e minha avó.

Mais tarde, quando entrava na adolescência, meu pai me deu um livro de Gibran Kalil Gibran. Acho que o nome do autor é este e não lembro o nome do livro. Mas nunca esqueci uma frase do livro que ele repetia, dizendo que concordava com isto: os filhos, nós os criamos para o mundo. Eu gostei bastante do que ouvi, mas pensei que talvez ele tivesse dito como frase de efeito, pois, certamente, como os homens de sua época, tinha características machistas e controladoras.

Quando aos 20 anos de idade resolvi sair de casa para morar com colegas da faculdade e, tempos depois, vir para o Rio de janeiro, ele não gostou, mas não tentou me impedir de seguir minha vida do modo como eu escolhera.

Sexual-Idade

 

Este tema vem com freqüência no consultório, por pessoas de todas as idades, além de ter sido solicitado por alguns ouvintes de meus áudios.

As crianças apresentam às vezes angústia por terem de lidar com situações ligadas à sexualidade que não conseguem entender, ou expressar.

Os adolescentes freqüentemente se sentem despreparados para o turbilhão de afetos, impulsos, fantasias que até então desconheciam.    

Os jovens podem vir a reagir de modo atabalhoado, intenso, ou indeciso diante de escolhas frente às quais ainda não se sentem preparados.

A maturidade tende, por vezes, à acomodação de situações já conhecidas, mas nem sempre satisfatórias. E com freqüência, à ruptura de escolhas com as quais já não se identifica.

A menopausa causa à mulher o medo de uma mudança brusca em seus impulsos sexuais.

As pessoas com idade mais avançada podem, ou não, vir a se desinteressar por assuntos desta ordem.

Cada idade terá suas características, medos e expressões. Nos mais jovens, os temores relacionam-se, entre outros, com a intensidade dos impulsos e sentimentos. Nas idades mais avançadas a dificuldade é lidar com o declínio destes.

Mas na contemporaneidade houveram grandes mudanças nos comportamentos e expectativas sobre a vida pessoal e social. Com o avanço dos novos medicamentos e a ampliação da perspectiva de vida,  não há necessariamente um corte no manejo das relações afetivo-sexuais.

As vivências das pessoas que já passaram por todas as fases anteriores podem dar uma maior compreensão dos processos que atravessam este tema. A expectativa geralmente é menor, já não há a predominância do estar em relação amorosa assiduamente. Outras questões podem vir a preencher o que anteriormente era de uma urgência absoluta e de um vazio avassalador se não fosse logo preenchido.

Isto não quer dizer que a profundidade das sensações seja menor. Pelo contrário, a experiência e a calma são poderosas companheiras para atingir-se o clímax desejado.

Algumas pessoas talvez não direcionem seu foco para a realização destes propósitos. Mas desenvolver algo neste sentido, mesmo que não seja o objetivo central de sua vida, costuma trazer bem-estar às pessoas. Como dizia o poeta: qualquer maneira de amar vale a pena, se a alma não é pequena.

A sensibilidade é algo que pode ser desenvolvida. Um leve toque, a fruição dos pequenos momentos, a criação de oportunidades que propiciem prazeres são maneiras de amar. Mesmo que não seja AQUELE AMOR idílico, buscado pelos poetas e por tantos românticos.

Não importa o gênero, ou a idade, reviver momentos lúdicos, criar brincadeiras, podem vir a trazer satisfações inesperadas.

Outro aspecto que não é explícitamente ligado ao desabrochar da libido, mas que interfere nesta é a liberdade.

Relações opressoras, controladoras, ciúmes castradores, imposição de poder de um sobre o outro são antítese ao livre gozar da vida.

Gosto muito de uma música que Caetano Veloso e os filhos cantam que diz assim:

O seu amor, ame-o e deixe-o, livre para amar,

O seu amor, ame-o e deixe-o,  ir aonde quiser ,

O seu amor, ame-o e deixe-o, brincar

Ame-o e deixe-o, correr

Ame-o e deixe-o, cansar

Ame-o e deixe-o, dormir em paz.

O seu amor, ame-o e deixe-o, ser o que ele é.

 

 

Entusiasmo

 

Olá, eu sou Carmen Rodrigues Tatsch, psicóloga e psicanalista. Tenho pensado em uma palavra que surge nas questões trazidas em meu consultório: entusiasmo.

Este conceito pode ter muitas conotações, mas vou começar nossa conversa lembrando de sua origem.

O termo Entusiasmo surgiu com os gregos, significa em sua raiz in + theos – em deus. Antigamente era entendido como: possessão por uma entidade divina. Este modo de expressão era vivenciado nos cultos dedicados ao deus Dionysos – o deus da vida.

Na arte grega encontramos influência das características de dois deuses: Apolo, que expressa a individuação e Dionysos, que trata da disposição para a embriaguez.

Nos cantos ao deus Dionysos, os participantes chegavam à perda de si, ao entusiasmo, em estado de potência e de alteridade divina – eles estavam em deus.

Depois de terem passado pela exaltação dionisíaca, havia uma catarse, um apaziguamento. A partir da purificação das paixões as pessoas ficavam mais calmas, sentiam prazer.

A psicanálise entende que, no momento do entusiasmo, o sujeito pode vir a dissolver a sua diferenciação dos demais, a anular suas identificações, a ocorrer um desaparecimento do sujeito, que é possuído pelo gozo da pulsão.

O entusiasmo tem um lugar de importância na análise. Busca-se que o sujeito possa ter um entusiasmo com a vida, com o amor. Atualmente, um dos entendimentos possíveis para entusiasmo é um estado de grande arrebatamento e alegria que pode ser encontrado em  alguns momentos, tais como inesquecíveis shows de rock  e outros eventos do gênero.

O arrebatamento, o êxtase, a catarse costumam eclodir em encontros religiosos e em outras práticas espirituais, levando geralmente, após seu término, a uma estabilização das emoções e ao prazer.   

Às vezes, as pessoas vivem situações que consideram como um dos modos do entusiasmo. Estas podem ser encontradas em acontecimentos da vida cotidiana, tais como ter sucesso em uma conquista amorosa há muito almejada e batalhada.  Ou em uma vitória profissional há tempos sonhada. Ou por ocasião do nascimento de um filho que amplia o campo dos afetos.

O entusiasmo visto como algo mais sereno pode surgir em acontecimentos singelos tais como ver uma criança que sorri, ouvir um pássaro que canta, observar o por do sol…

Violeta Parra, em sua canção imortalizada por Mercedes Sosa Diz:

Gracias a la vida, que me ha dado tanto

Me dio dos luceros, que cuando los abro

Perfecto distingo, lo negro del blanco

Y en el alto cielo su fondo estrellado

Y en las multitudes el hombre que yo amo

Gracias  a La vida, que me há dado tanto

Me ha dado el oído, em todo su ancho

Grava noche y dia, grilos y canários

Martírios, turbinas, latridos, chuvascos

E La voz tan tierna , de mi bien amado.

Gracias a la vida que me ha dado tanto

Me ha dado la risa y me ha dado el llanto

Así yo distingo dicha de quebranto

Los dos materiales, que forman mi canto.

Graças à vida que me deu tanto

Me deu dois olhos que quando os abro

Distingo perfeitamente o preto do branco

E no alto céu seu fundo estrelado

E nas multidões o homem que eu amo

Graças à vida que me deu tanto

Me deu o som do alfabeto

E com ele as palavras que eu penso e declaro

Mãe amigo irmão

E luz iluminando, a rota da alma de quem estou amando

Graças à vida que me deu tanto

Me deu a marcha de meus pés cansados

Com eles andei cidades e charcos

Praias e desertos, montanhas e planícies

E a casa sua, sua rua e seu pátio

Graças à vida que me deu tanto

Me deu o coração, que agita seu marco

Quando olho o fruto do cérebro humano

Quando olho o bom tão longe do mal

Quando olho o fundo de seus olhos claros

Graças à vida que me deu tanto

Me deu o riso e me deu o pranto

Assim eu distingo fortuna de quebranto

Nietzsche relaciona o conceito grego de entusiasmo ao mito de Carmen, personagem da conhecida ópera. Ele diz que o mundo de Carmen constitui a retradução do humano à natureza. Este mito trata da crueldade do real, para além do bem e do mal, com  indiferença a toda idéia de culpa.

Os personagem da ópera se entregam com liberdade, sem reservas, com alegria. Essa lógica do amor paixão que transborda e leva os protagonistas, ao êxtase e à destruição corresponde à lógica da tragédia.

Diferença e hostilidade

 

QUANDO SAÍMOS DE NOSSO EIXO?

Resolvi conversar com você sobre este tema porque estamos passando por um momento em que às vezes, sem nos darmos conta, nos vemos envolvidos em situações de vida em que perdemos nosso bom senso, nosso brio, nossa capacidade de uma compreensão mais distanciada do que está acontecendo. Não conseguimos nos colocar no lugar do outro. Nos vemos envolvidos em um turbilhão de emoções que nos tiram do nosso eixo. E  podemos vir a machucar e, consequentemente, virmos a ser machucados por pessoas a quem queremos bem e que nos amam muito.

Acho que é importante incentivar o encontro entre  pessoas que desejam expressar seus pensamentos, sentimentos, trocar idéias, ouvir o que o outro tem a dizer; poder respeitar um ponto de vista, mesmo que seja diferente do seu; bem como cultivar o entendimento, apesar de não identificar-se com tudo o que os que nos cercam são, pensam ou querem.  

     Atualmente há uma polaridade que atravessa os mais diversos grupos sociais. Nestes, há um modo de mobilização que cega os olhos e ensurdece os ouvidos. Aí a alteridade é vivida como uma ameaça.

Ao abordar estas questões, Freud irá falar em narcisismo das pequenas diferenças. Os homens fundamentam os sentimentos de estranheza e hostilidade entre eles em suas pequenas diferenças, apesar de sua semelhança em todo o resto.  

A ligação social é estabelecida principalmente pela identificação dos membros entre si. Há a expressão de um amor a si próprio, um narcisismo que se empenha na afirmação de si.

Sempre é possível ligar um grande número de pessoas pelo amor, desde que restem outras para que se exteriorize a agressividade.

A hostilidade se apega à pequena diferença.  Esta pequena diferença é um mero pretexto para o exercício da destrutividade. A unidade só se forma e se mantém quando há um outro a quem se destina esse impulso agressivo.  

A intolerância desaparece, por meio da formação da massa e dentro da massa. Nesta os indivíduos se conduzem como se fossem homogêneos, suportam a especificidade do outro, igualam-se a ele e não sentem repulsa por ele. Os integrantes de uma massa supõem-se todos irmãos indiferenciados, como se tivessem a mesma forma, uni-form-izados

A massa, identificada a um líder, vincula-se a um modo de operar: “eles se diferem de nós, mas não diferem entre si”. Ou seja, o narcisismo das pequenas diferenças cria uma heterogeneidade intergrupal e, ao mesmo tempo, uma homogeneidade intragrupal.

Este texto de Freud tem sido aplicado a diversos momentos da história. Ele é extremamente atual no Brasil de hoje.

Em contraposição ao discurso reduzido do “nós”contra “eles”, sustentar uma conversação que considere a singularidade de cada um, uma ética que leve em conta o desejo dos sujeitos é uma direção interessante a ser seguida.

Obrigada por me ouvir. Se quiser saber mais sobre meu trabalho visite meu site carmen.psc.br Até breve.

 

Felicidade e mal-estar

Resolvi falar sobre esse tema devido às escutas que tenho, em meu consultório, sobre a busca da felicidade.

 Há diversas formas de se buscar a felicidade. Para algumas pessoas, a procura do ter, do consumir, leva à ilusão de que serão mais saciadas em suas carências, em seu vazio.  Dessa forma, cresce a transformação dos laços sociais em mercadorias, medindo-se seu valor em termos de quantidade. Acredita-se que quanto mais relações, maior o prazer. Reduz-se tudo ao valor de uso, às funções que os objetos ocupam. Há uma “coisificação” de tudo e de todos.

        Os discursos que imperam são de dominação. O modo de derrubar o poder imperativo destes discursos é substituir estes dando lugar ao desejo.E que é de cada um. Um a Um.   

Há uma procura constante da felicidade,  que de acordo com Freud, há uma impossibilidade nisto. É irrealizável a possibilidade de sermos felizes. Mas não se deve abandonar os esforços para se aproximar de algum modo de sua realização. Cada um deve descobrir, por si mesmo,  o caminho para se tornar uma pessoa feliz.

No livro “O mal-estar na cultura”, Freud dedica um espaço privilegiado de reflexão para o tema da felicidade. Para ele, a felicidade significa, além de obtenção de prazer, a evitação de desprazer.

Mas esse princípio de prazer visa eliminar toda excitação presente no aparelho psíquico. Há um mal-estar constante na cultura, uma contradição entre aquilo que constitui o propósito  das pessoas a felicidade no sentido de obter prazer, e a possibilidade real dela ser alcançada, uma vez que toda a constituição psíquica está voltada para atingir o estado zero de tensão.

Para alcançar a felicidade e afastar o sofrimento, a cultura impõe sacrifícios, não somente à sexualidade, mas também à inclinação  das pessoas à agressividade. É preciso realizar a repressão das pulsões. Há uma luta constante entre as pulsões de Eros ( pulsão de vida) e Tanatos ( pulsão de morte). A agressividade é uma disposição pulsional originária do ser humano. Ela é uma exteriorização da pulsão de morte.  

Para sobreviver com a segurança proporcionada pela vida social, o homem “abre mão” da possibilidade de realizar suas pulsões ao bel prazer. O homem vinculado à cultura trocou uma parte de felicidade por uma parte de segurança. Diante desta situação, podemos entender porque os homens dificilmente se sintam felizes.

Entre as técnicas usadas para evitar o sofrimento e construir formas de satisfação prazeirosas encontra-se a sublimação, que é o processo a partir do qual o prazer é atingido pela atividade intelectual.

Outra técnica para buscar o prazer é a fruição da beleza:  das formas e dos gestos humanos, dos objetos naturais e das paisagens, das criações artísticas e científicas.

Exercer atividades criativas, artísticas, intelectuais,belas podem levar as pessoas  a uma diminuição do desprazer e a atingir um maior prazer, mas não é seguro que assim alcançará a felicidade.

É preciso aprender a lidar com seu modo de ser e com suas questões.  Cada um estará mais próximo de atingir a satisfação que busca, sempre não toda, nunca absoluta, à medida que caminhar na construção de  seu desejo. A vida é uma aposta.