Olá, eu sou Carmen Rodrigues Tatsch, psicóloga e psicanalista. Tenho pensado em uma palavra que surge nas questões trazidas em meu consultório: entusiasmo.
Este conceito pode ter muitas conotações, mas vou começar nossa conversa lembrando de sua origem.
O termo Entusiasmo surgiu com os gregos, significa em sua raiz in + theos – em deus. Antigamente era entendido como: possessão por uma entidade divina. Este modo de expressão era vivenciado nos cultos dedicados ao deus Dionysos – o deus da vida.
Na arte grega encontramos influência das características de dois deuses: Apolo, que expressa a individuação e Dionysos, que trata da disposição para a embriaguez.
Nos cantos ao deus Dionysos, os participantes chegavam à perda de si, ao entusiasmo, em estado de potência e de alteridade divina – eles estavam em deus.
Depois de terem passado pela exaltação dionisíaca, havia uma catarse, um apaziguamento. A partir da purificação das paixões as pessoas ficavam mais calmas, sentiam prazer.
A psicanálise entende que, no momento do entusiasmo, o sujeito pode vir a dissolver a sua diferenciação dos demais, a anular suas identificações, a ocorrer um desaparecimento do sujeito, que é possuído pelo gozo da pulsão.
O entusiasmo tem um lugar de importância na análise. Busca-se que o sujeito possa ter um entusiasmo com a vida, com o amor. Atualmente, um dos entendimentos possíveis para entusiasmo é um estado de grande arrebatamento e alegria que pode ser encontrado em alguns momentos, tais como inesquecíveis shows de rock e outros eventos do gênero.
O arrebatamento, o êxtase, a catarse costumam eclodir em encontros religiosos e em outras práticas espirituais, levando geralmente, após seu término, a uma estabilização das emoções e ao prazer.
Às vezes, as pessoas vivem situações que consideram como um dos modos do entusiasmo. Estas podem ser encontradas em acontecimentos da vida cotidiana, tais como ter sucesso em uma conquista amorosa há muito almejada e batalhada. Ou em uma vitória profissional há tempos sonhada. Ou por ocasião do nascimento de um filho que amplia o campo dos afetos.
O entusiasmo visto como algo mais sereno pode surgir em acontecimentos singelos tais como ver uma criança que sorri, ouvir um pássaro que canta, observar o por do sol…
Violeta Parra, em sua canção imortalizada por Mercedes Sosa Diz:
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dio dos luceros, que cuando los abro
Perfecto distingo, lo negro del blanco
Y en el alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo
Gracias a La vida, que me há dado tanto
Me ha dado el oído, em todo su ancho
Grava noche y dia, grilos y canários
Martírios, turbinas, latridos, chuvascos
E La voz tan tierna , de mi bien amado.
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales, que forman mi canto.
Graças à vida que me deu tanto
Me deu dois olhos que quando os abro
Distingo perfeitamente o preto do branco
E no alto céu seu fundo estrelado
E nas multidões o homem que eu amo
Graças à vida que me deu tanto
Me deu o som do alfabeto
E com ele as palavras que eu penso e declaro
Mãe amigo irmão
E luz iluminando, a rota da alma de quem estou amando
Graças à vida que me deu tanto
Me deu a marcha de meus pés cansados
Com eles andei cidades e charcos
Praias e desertos, montanhas e planícies
E a casa sua, sua rua e seu pátio
Graças à vida que me deu tanto
Me deu o coração, que agita seu marco
Quando olho o fruto do cérebro humano
Quando olho o bom tão longe do mal
Quando olho o fundo de seus olhos claros
Graças à vida que me deu tanto
Me deu o riso e me deu o pranto
Assim eu distingo fortuna de quebranto
Nietzsche relaciona o conceito grego de entusiasmo ao mito de Carmen, personagem da conhecida ópera. Ele diz que o mundo de Carmen constitui a retradução do humano à natureza. Este mito trata da crueldade do real, para além do bem e do mal, com indiferença a toda idéia de culpa.
Os personagem da ópera se entregam com liberdade, sem reservas, com alegria. Essa lógica do amor paixão que transborda e leva os protagonistas, ao êxtase e à destruição corresponde à lógica da tragédia.