Revisitando fotos

Eu fiz muitas viagens ao redor do mundo. Inicialmente, minhas fotos eram tiradas com aquelas câmaras antigas, com imagens muitas vezes desfocadas. Quando queria uma foto melhor tinha que chamar um fotógrafo profissional, com sua câmera que custava uma fortuna.

Felizmente, neste sentido os tempos mudaram para melhor. Hoje em dia qualquer celular com uma boa definição permite tirar fotos ótimas.  Agora o problema é outro. São tantas as fotos de cada viagem, que a gente deixa para selecionar depois. As pessoas pedem pra ver e a gente diz que vai fazer uma reunião para mostrar. Mas surgem outras viagens e as fotos se acumulam e a tal reunião fica marcada para o dia de São Nunca.

Eu estava assim, com muitas fotos, de muitas viagens e queria selecionar algumas e escrever algo sobre estas que considerasse significativo. Mas estava empacada, não conseguia escolher. Por sorte minha, Fabio Nazareth, meu parceiro de trabalho, especialista em muitas áreas das tecnologias digitais, também atua como fotógrafo e realiza trabalho de organização de fotos e montagem de acervo. Ele começou a pinçar algumas fotos de minhas viagens e o fez com muita sensibilidade.

Essa postagem dá início a uma série batizada de “Revisitando Fotos“.

Luz no fim do túnel

Quando meu olhar bateu nesta foto. Pensei: luz no fim do túnel? Quem dera. Mas pelo menos a arte me inspira isto. A arte e o tempo. Este túnel foi construído há mais de 6.000 anos.  Era uma época em que as populações eram nômades. Um dia, um destes grupos, ao deparar-se com uma montanha em forma de um gigante deitado, crê estar diante de um sinal de que deveriam assentar-se ali. E construíram monolitos, hoje conhecidos como os Dólmenes de Antequera, Andaluzia.    

Estávamos viajando de carro pelas belas estradas do sul da Espanha. Depois de Ronda, estávamos nos dirigindo para Granada. De repente, numa mesa apareceu um folheto sobre este lugar monolítico. Não estava nos planos, nem nos nossos mapas e guias, mas por sorte, era a caminho para onde nos dirigíamos. Grata surpresa.  Tem sido muito gratificante relembrar as sensações que tive ao ver as fotos das viagens. É como se eu estivesse lá novamente.

Roda de Conversa 15

Roda de Conversa – 11 de Junho

Paramos para pensar que já estamos na 15 roda de conversa.  O percurso desta teve várias fases. Sua concepção deu-se quando Fabio e eu fazíamos um podcast sobre Coronavirus e decidimos realizar a roda. Iniciamos com trechos de textos colhidos em jornais, redes sociais e outros. Posteriormente passamos a convidar pessoas que consideramos que contribuem para pensar a questão : E agora, como se virar?

Neste dia, a convidada foi a psicanalista e artista plástica Beth Freitas. Como ela trabalharia a questão da Arte da Topologia e da função da arte na psicanálise, eu trouxe um texto sobre uma pesquisa que realizei na comunidade do Vidigal e que aborda a lógica binária.

O texto comenta que entre os significantes que freqüentemente encontramos nessa comunidade está o discurso da luta do Bem contra o Mal.

         Esta é uma lógica binária, que não leva em conta o 3º excluído, ela é cega. Ela trabalha com o sim e o não, não abre possibilidade para o deslizamento, para a pergunta, trata os pólos opostos como naturais, congela a interpretação, impossibilita dar movimento  às operações.

Neste lugar o esporte pode ser visto como auxiliar no processo de simbolização da agressividade. Faz parte dos ritos que realizam uma passagem do nível imaginário, para o nível simbólico.

O sujeito, através dos ritos de passagem inscreve-se na estrutura RSI.

Beth Freitas coordena na Escola de Psicanálise Letra Freudiano o seminário a Arte da Topologia. E no dia da roda tivemos a oportunidade de participar do manejo das belas peças que compões seu acervo de objetos topológicos, por ela construídos com sua estética singular de artista plástica, bem como a articulação destes objetos com a teoria lacaniana e a prática clinica.

Homem e cavalo na montanha

 

Às vezes a realização de nossos sonhos acontece de modo diverso do que pensávamos. Em 2011, quando viajava pelo sudoeste da China, me disseram que fosse a Guilin que era de uma beleza ímpar. As fotos dos arrozais coloridos, serpenteando os morros era inebriante.

O caminho da cidade para a montanha era tão lindo que era a paisagem estampada numa das notas do papel moeda chinês. Na foto acima dá pra sentir o clima do dia: frio, chuviscando sem parar e um nevoeiro pairava
no ar e não se via nada a poucos passos adiante.

Mas foi uma das lembranças inesquecíveis de minha viagem.O contato com os moradores do local. A cultura deste povo. As estranhas formas que a fumaça desenhava ano redor. O clima que envolvia tudo. O silêncio. A altitude. Tudo tinha um outro gosto diferente do imaginado.
Mas com um intenso sabor.

Roda de Conversa – 2

A temática da segunda roda de conversa foi inspirada em Elza Soares. Esta intérprete da música, com uma trajetória muito singular, nos oferece um lugar de conexão entre múltiplas idades e diferentes modos de existir que nos atravessam.

Elza Soares

Tem dias em que eu tenho 7 anos. Em outros 15. Tem momentos em eu que tenho 25,47, 70, em outros tenho 90.Tem momentos em que já morri, e outros em que estou nascendo, como agora. Tem dias que nem nasci.

E você, quais suas idades?

Roda de Conversa – 9

Hoje foi o primeiro dia do uso do Zoom. Pensavamos que seria mais difícil para as pessoas que não tem prática em lidar com estes aplicativos, mas o resultado foi melhor do que o esperado.

Continuamos a desenvolver o tema : quantas vezes nasci? E passamos à leitura de textos escolhidos pelos participantes. Debatemos sobre alguns poemas, especialmente o de Fernando Pessoa e de Albert Camus.

Depois de tudo
Fernando Pessoa

De tudo ficaram 3 coisas:
A certeza de que estamos sempre a começar
A certeza de que é preciso continuar
A certeza de que podemos ser interrompidos  antes de terminar
Por isso devemos
Fazer da interrupção um caminho novo
Da queda, um passo de dança
Do medo, uma escada
Do sonho, uma ponte
Da procura, um encontro.

Albert Camus

NO meio do ódio, me pareceu que havia dentro de mim um amor invencível; Em meio das lágrimas, me pareceu que havia dentro de mim um sorriso invencível
Em meio do caos, me pareceu que havia dentro de mim uma calma invencível.
Me dei conta que apesar de tudo que no meio do inverno havia dentro de mim
Um verão invencível
E isto me faz feliz.
Porque não importa o duro que o mundo empurre em mim contra
Dentro de mim há algo melhor empurrando de volta.
O movimento dado às rodas de conversa segue seu fluxo. Na próxima roda ocorrerão algumas modificações.

Um camelo no caminho

Sempre gostei de ir tateando por aí. Deixando fluir, acontecer. Em 2011 fiz uma viagem que me permitiu vivenciar isto. Nesta foto, estou no norte da Índia, passeando pelo deserto em um camelo.

Mais adiante encontro um acampamento cigano e muitas crianças vem ao meu encontro e me observam. Falamos por mímica, como em boa parte de minha viagem. Eu curiosa com elas e elas curiosas comigo. Subo novamente no camelo. Subir e descer do camelo não é tarefa fácil. Mas andar nele sentindo o vento no rosto é uma delícia.

Sigo meu caminho.


PodCast, aperte o play para ouvir:


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Todo sábado às 15h.
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Aniversário 2020

Dia 17 de maio comemorei mais um ano de vida. Foi uma celebração pelo Skipe. Achei interessante reunir os amigos em uma roda de conversa e realizar uma apresentação de arte online.    

Nestes tempos sombrios, a arte mais que nunca tem uma forte contribuição a dar. Desde o início, o homem se fez homem ao mesmo tempo em que se descobria como criador.

A Roda de Conversa habitualmente lida com temas recortados em jornais e redes, tais como: processos de re-existência, de reinventar; ou, o antídoto da dor é a alegria; ao ainda- quantas idades eu tenho? Quantas vezes nasci?

No Niver este espaço foi de acolhimento, afetividade entre os que skipeanamente chegavam. Muitas amizades levaram seu abraço e brindaram na hora do parabéns. Meu filho, netas, a família compareceram.

É a felicidade possível, num real que se apresenta lúgubre,  incógnito.

O cultivo do amor, do lúdico, da vida em sua potência é fundamental em um momento como este. Nossa programação artística contou com a bela interpretação musical do mediador do encontro e parceiro de trabalho Fabio Nazareth, seguido por Júlio Mafra e Regina Guarilia, do projeto “Os Leitores”, que apresentou textos selecionados para a ocasião.

A programação seguiu e, diretamente de Buenos Aires, ouvimos um interessante poema interpretado pelo ator Federico Iglesias que precedeu a apresentação do bailarino e professor de Butoh, Gustavo Collini, que elaborou uma coreografia dedicada a este dia. O músico e professor da Escola Vox Mundi Hamilcar Barbosa fechou a programação com uma bela interpretação da música guarani.

Em tempos de isolamento, as ferramentas de comunicação digitais como Skype, Zoom, Whatsapp, são uma forma de reunir pessoas possibilitando maior troca afetiva e de idéias e criação de novas possibilidades de interação.

 


Tateando, Podcast de Carmen Tatsch


Mal-estar e discursos em uma comunidade do Rio de Janeiro

O mal-estar faz parte da estrutura do sujeito e da cultura. Atravessa todas as relações. Mas há diversos modos de expressão em cada lugar onde se dá. Entre sujeitos que vivem em comunidades com situação sócio-econômico desfavorecida o mal-estar manifesta-se com características peculiares. 

Este texto é um recorte no trabalho de pesquisa desenvolvido, com as metodologias da pesquisa-ação e do teatro e do vídeo antropológicos, na comunidade do Vidigal, Rio de Janeiro. O projeto em questão efetuado entre 1993 e 1997 articulava-se ao Doutorado em Saúde Mental do Instituto de Psiquiatria da UFRJ.  

        Nesta tese realizamos uma leitura de discursos produzidos por sujeitos moradores desta comunidade. Para Lacan, há 4 discursos que escrevem os laços sociais. Nada adquire sentido senão a partir das relações de um discurso com outro discurso. O discurso ocupa uma posição giratória em relação a um suporte. O suporte é o corpo. E o gozo se dá corpo a corpo.

        No lugar estudado encontramos que um dos discursos que atravessa diversas instâncias é o Discurso do Mestre. Em …Ou Pior, Lacan ao falar sobre este discurso o associa ao outro que é tratado como objeto de gozo, ali os corpos estão petrificados,  aprisionados. A idéia imaginária do todo, do que faz esfera, tal como é utilizada na política, se faz aí presente.

Afloraram nos discursos dos sujeitos pesquisados a identificação com as expressões usadas pela mídia e pela política partidária. Mas estes discursos não eram uma cópia exata destes. Os diversos aspectos que surgiram: o ufanismo, a violência, o consumismo, a marginalidade, revelaram-se com características específicas. 

         Encontramos como um dos significantes dessa comunidade o discurso da luta do Bem contra o Mal. Ao entrevistarmos as lideranças das formas associativa, tais como a Associação de Moradores e algumas associações ali sediadas, quando perguntávamos sobre o objetivo da realização de suas atividades culturais e socializantes, a resposta sempre era que pretendiam livrar as crianças e adolescentes do mau caminho. 

        Ouvíamos sempre a preocupação destes com “o Bicho”, que é o modo como o tráfico de drogas é chamado ali. Os traficantes passam a ser associados com todas as situações de perigo e violência. Há um não dito sobre o nome do tráfico. E uma recusa a relacionar as diversas formas de violência do cotidiano às relações entre os eles.  

       Nas entrevistas havia muita dificuldade em encontrar alguém que comentasse explicitamente algo sobre a violência que permeava o lugar. Alguns antigos moradores comentaram que, do ponto de vista do conforto, a situação melhorou com o passar do tempo. Mas diziam que “o coração não agüenta tanta violência. Eu nunca vou achar normal as pessoas andarem de arma na mão, pessoas darem tiros na hora que quiserem…” 

        Estes relatos eram raros e se davam quando asseguravam-se que não havia “olheiros” por perto. O diretor cultural da Associação de Moradores era também jornalista e trabalhava com vídeo e passou a acompanhar-me pela comunidade e a realizar os registros. Mas nosso percurso era sempre acompanhado sorrateiramente por alguém com uma metralhadora. 

        Neste momento, lembrando que estamos na década de 90, as duas forças – a legal e a ilegal – conviviam através de uma delimitação de espaços onde uma não interferia no lugar ocupado pela outra. Um dos líderes da associação disse: “A Associação não tem meio, nem interesse de brigar com essa outra força. Ela faz questão de ignorar. Eles tem o comércio deles e a gente tem o problema social.”

Era uma época diferente da atual onde, com freqüência, traficantes, policiais, políticos e milicianos encontram-se em estreitas inter-relações.   

        Segundo um dos líderes, a contribuição que eles davam para resolver o problema social era “dando um exemplo bom para estas crianças. À medida que eu pego as crianças, para serem um jornaleiro-mirim comunitário, construo uma base melhor e eles estão ganhando algum dinheiro, tem uma ocupação. Quando eu faço aula de capoeira, além de trazer à tona a cultura popular, também faço com que tenham o nosso apoio. Assim como também o futebol é um espaço para não deixá-los ociosos, mostrar que tem um pessoa responsável por eles. Esse trabalho contribui bastante para que não haja violência. Essas crianças tem a mesma orientação, mostramos o que é errado, a disciplina está sempre em evidência.”

        Nas entrevistas com o vídeo, as lideranças estudadas auto – representavam-se como

forças do Bem, colocando todo o Mal do lado do ‘Bicho”. Mas o lugar do Bem e do Mal, da lei e da marginalidade não se dá tão rigidamente delimitado. Essa ficção é difícil de ser sustentada, ela tem por base uma lógica binária. A lógica binária não leva em conta o 3º excluído, ela é cega. Ela trabalha com o sim e o não, não abre possibilidade para o deslizamento, para a pergunta, trata os pólos opostos como naturais, congela a interpretação, impossibilita    dar movimento  às operações.

             Mas o que leva estes sujeitos a interpretarem esta situação de uma forma tão maniqueísta? Que outras versões são possíveis nesta situação? Foi com o objetivo de dialetizar este olhar que nos propusemos a realizar um Curso de Teatro e Vídeo, com um grupo de crianças e adolescentes, na Escola Djalma Maranhão.  

      Encontramos que no discurso das lideranças comunitárias, as posições de senhor e a de escravo, assim como as representações de Bem e de Mal são mais rígidas, mais estanques. Se, por um olhar, podemos perceber o discurso do mestre subjacente, segundo outro olhar, o mestre não está mais presente.

        Na sociedade contemporânea, a ciência aboliu o sujeito. Quando o mestre não está presente, o que permanece é o imperativo categórico: continua a saber ou, continua a gozar , a consumir .Não há mais necessidade que ali haja alguém, a figura do mestre como representante do saber está deteriorada. O jovem que tinha na figura do pai, do professor, o representante do saber quando estes não conseguem mais sustentar esta posição, vai identificar-se com algum outro modelo de Outro que sabe. Este Outro pode ser imaginarizado pela figura da Internet. Outro do saber passa a ser um outro que não responde, que não está encarnado, que não tem cheiro. A crise do jovem, do adolescente, é uma crise do pai. É preciso cair algo do lado do pai para que surja algo do lado do social, que venha ocupar o lugar do pai e cunhar o lugar de inscrição do sujeito

        No discurso das crianças que participaram do curso as posições do senhor, daquele que manda e do que é oprimido movimentavam-se aleatoriamente, deslizavam de um personagem para outro, numa mesma ação dramática. O que chama a atenção nos temas trazidos por este grupo é a presença constante da violência, do confronto direto e agressivo em todas as relações. Nas improvisações teatrais, o papel do policial em luta violenta com o traficante, podia passar a ser entre o pai e a mãe, ou entre mãe e filho, ou entre patrão e empregado, ou entre namorados, ou amigos. 

     Em nossa hipótese de trabalho, perguntamo-nos se os discursos locais são diretamente influenciados pelos globalizantes, tais como os da mídia e os da política partidária; ou se foi possível para os líderes encontrarem caminhos que os levassem à produção de significados novos.  

 Nos discursos encontrados percebemos que a imagem que os líderes pesquisados têm de si mesmos aproxima-se da imagem que a mídia, que a ciência fabrica sobre eles.        

.. .    Uma história fantasmática de pânico e opressão povoa o imaginário de toda a população e é atravessada pelo real avassalador Os moradores encontram-se oprimidos entre dois polos: de um lado, os traficantes e a polícia que aterrorizam , que dominam pelo poder da arma de fogo, da força bruta. Por outro lado, há o terror advindo dos mandamentos das igrejas, em especial as evangélicas: “se não obedeceres ao que te ordeno, queimarás no fogo do inferno”. Os moradores estão encapsulados entre dois terrores- o do roubo do corpo, da matéria e o do roubo da alma. Em ambas posições há um senhor violento.  

Ao analisarmos o processo atravessado pelas crianças durante a atividade teatral e realizarmos um recorte dos significantes mais encontrados no discurso produzido por estas percebemos que este é constituído pelos mesmos elementos do discurso do líderes, mas é absorvido e recriado com uma articulação diversa.  

          No discurso das crianças, há um movimento aleatório. A posição do senhor, que ora é associada ao policial, numa mesma dramatização pode passar a ser ocupada pelo marginal. O que chama a atenção nos temas trazidos por este grupo é a presença constante da violência, do confronto direto e agressivo.  

        Em uma das dramatizações, surgiu a seguinte cena: 

MENINA 2: Sua favelada!

MENINA 1: Favelada é você!

MENINA 2: O que? tá me chamando de favelada?

MENINA1: É favelada mesmo! 

MENINA 2: Você é uma favelada!

MENINA 1: Olha, aqui, eu vou rasgar a sua cara! Vai lá pegar o canivete pra ver como eu arranco a cara dela fora!

Esta cena representa um discurso ultra-reduzido, encontrado não só neste lugar, mas em outras esferas nacionais e internacionais. 

        Questionados sobre os temas escolhidos para as cenas, algumas crianças responderam:  

“…essas cenas , sempre teve aqui no morro..”

“Eu acho uma realidade. Hoje em dia tem esses caras que pegam as crianças para estrupar, matar, pegam as crianças para tirar os órgãos, tirar tudo e vender . .”

 “A gente informou isso tudo com essas coisas que tem aí fora, então pras pessoas verem na televisão que isso não é certo: prostituição, vagabundos, menino pequeninho cheirando maconha, craque e tudo isso. Então a gente escolheu isso que é mais importante para nosso país, pra gente melhorar o nosso país. “ 

        Outro aspecto que chamou a atenção nas entrevistas foi a crença de que após  terem feito o curso de teatro e recebido o diploma , eles podem ser alguém na vida. Ser alguém na vida para eles é: ser “uma pessoa melhor”, ou ser professora ou, ser atriz da Globo.

               Diante do terror vivido pelos moradores desta e de outras comunidades, da ausência do mestre, qual a saída?

                Freud, em O mal-estar na Cultura pergunta-se até que ponto a espécie humana, em seu desenvolvimento cultural, conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição. Ele espera que o eterno Eros desdobre suas forças para se afirmar na luta com seu não menos imortal adversário. 

        Nos dias atuais, mais do que nunca é preciso apostar nas forças de Eros, na afirmação da pulsão de vida. 

        Arte Pode ser uma direção para esta aposta?  

 

         Por viabilizar uma direção a um gozo mais delimitado, posto que circunscrito pelo simbólico; por encontrar-se dentro do princípio do prazer, realizando uma barra, um corte, ao gozo sem fim, a partir da criatividade, da ressignificação e do fortalecimento dos laços sociais entendemos que a arte pode ser um dos caminhos possíveis.

        Nos discursos encontrados no Vidigal, entendemos que, se por um lado há pessoas que estão inseridas neste discurso ultra-reduzido, há outras que conseguem encontrar um caminho que lhes possibilita a sublimação e a constituição de novos significantes.          Entrevistamos sujeitos que se expressam através do teatro, da escrita, da arte, da cultura do lugar, que conseguem uma produção cultural própria e produzem significantes particulares. 

        Em relação à pesquisa entendemos que os lideres comunitários estudados mantiveram sua posição congelada, sem deslizamento. Viam a equipe de pesquisa como representantes da ciência e se pronunciavam como se fossem políticos discursando para a televisão. 

        Quanto às crianças que participaram das atividades teatrais, constatamos que no discurso dessas não houve a produção de significantes novos, mas foi efetuado algum corte, permitindo um distanciamento e uma reflexão sobre suas questões e sobre as relações com a escola e a comunidade. Talvez tenha sido possível a algumas caminharem na construção de seu desejo.  

 

       

 

  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Becker, Paulo e Vidal, Eduardo , DROGA ( HÁ ) DITOS , inédito .

Castilho,Glória. Algumas Pontuações sobre a Culpa na Clínica com Usuários de Drogas, inédito.

Freda, Francisco Hugo – Quatre Remarques de Jacques Lacan a propos de : La Drogue,       L’Intoxication et la Toxicomanie. DEA – Université de Paris VII – Department de Psychanalyse. inédito

 Freud , Sigmund. Totem e Tabu  – Obras Completas, vol. XVII – R.J. Ed. Imago. 1965

______________Mal-estar na civilização. Obras Completas,  – R.J. Ed. Imago

Hegel,Georg Wilhelm Friedrich.La Phénomenologie de L`Esprit Paris:Montaigne.1941.

 

Hyppolite,Jean..Ensaios de Psicanálise e Filosofia. Ed. Taurus, Rio de Janeiro: 1971

Lacan,Jacques. Les Noms du Pére – Aleph Psicanálise Transmissão. 1963

_________Seminário 17,O Avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro, Ed. Zahar. 1992

_________Seminário 19 …Ou Pior. Rio de janeiro, Ed. Zahar. 2012.

________ La Agressividad en Psicoanálisis. Informe Teórico apresentado no XI Congresso dos Psicanalistas de Língua Francesa. Bruxelas. 1948

________O Mito Individual do Neurótico . Lisboa: Pelas Bandas da Psicanálise .1980

_______Radiofonia . Inédito .

Tatsch, Carmen R. Linguagem, Ritual e identificação. – Trabalho apresentado na Jornada Intercartéis – Letra Freudiana. 1995

________Os Nomes do Pai e os Ritos de Iniciação, in Do Pai – O Limite em Psicanálise , Revista  Letra Freudiana , Ano XVI , n. 21 .

_________.().Tecnologia Audio-Visual e Formas de Subjetivação.Monografia. Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1994

_________Formas Expressivas e Discursos de uma Comunidade Urbana do Rio de  Janeiro: Um Uso do Teatro e do Vídeo Antropológicos. Tese de doutorado, IPUB, UFRJ, RJ, 1997.

 

Roda de convesa

Estávamos fazendo um podcast sobre o Corona Vírus (Covid-19). Era o início do pandemia, e durante as gravações, começamos a pensar que seria interessante se pudéssemos ouvir, compartilhar aquelas e outras idéias com
demais pessoas. Do debate sobre como realizaríamos isto, chegamos à concepção da Roda de Conversa.

Estas rodas tratam de temas inspirados a partir de recortes de jornal; trechos de textos pinçados no whatsapp ou outras ferramentas, ou em livros.

Os temas vão tateando, seguindo caminhos fluidos, numa associação de idéias que podem nos levar por muitos caminhos.

A Roda de Conversa acontece aos sábados às 15h, via aplicativo Zoom.

Clique aqui para participar

Em nossa roda de conversa, falamos de diversos temas, a roda é um espaço aberto para trocas, participe!


Rodas realizadas:

 5 de Abril

11 de Abril

17 de Abril

25 de Abril

2 de Maio

9 de Mail

17 de Maio

23 de Maio

30 de Maio

6 de Junho

13 de junho

20 de Junho

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Escute o PodCast que gravei sobre o Novo Corona Vírus (Covid-19)
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